Outubro chega trazendo não apenas a primavera, mas também um momento de reflexão global sobre o futuro das cidades. Todos os anos, o chamado “Outubro Urbano”, campanha global criada pelo Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) mobiliza governos, especialistas e cidadãos em torno de um mesmo propósito: discutir como tornar os espaços urbanos mais justos, seguros e sustentáveis. Em 2025, o debate ganha contornos ainda mais urgentes. A aceleração das mudanças climáticas, os fluxos migratórios intensos e o aumento das desigualdades têm colocado as cidades no centro das múltiplas crises.
Chegando à sua sétima edição no Brasil, com apoio do Ministério das Cidades, o Outubro Urbano deste ano traz o tema “Enfrentando desafios urbanos: caminhos para cidades justas e sustentáveis”. Até 31 de outubro, mais de 400 eventos pelo País, presenciais, híbridos e online, convidam à troca de experiências, à apresentação de soluções e à construção de visões compartilhadas sobre o futuro das cidades brasileiras.
No coração da iniciativa está a busca por um novo pacto urbano: viver nas cidades de forma que não apenas resista às crises, mas que aprenda com elas e se transforme. A proposta é clara e ambiciosa: repensar o urbanismo de maneira prática, humana e sustentável, colocando a habitabilidade, o direito de todos a viver com dignidade, segurança e qualidade de vida, como prioridade central de qualquer planejamento urbano.
O conceito do Outubro Urbano
O Outubro Urbano é uma campanha global criada pelo Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) com o objetivo de promover reflexão, debate e ação sobre o futuro das cidades. A iniciativa busca conectar diferentes atores em torno de soluções para os principais desafios urbanos, como déficit habitacional, desigualdade social, mobilidade, vulnerabilidade ambiental e governança urbana.
No Brasil, o evento é promovido pelo ONU-Habitat em parceria com órgãos públicos e conta com uma série de eventos chamados de Circuito Urbano, que apresentam experiências, projetos e políticas públicas que podem ser aplicadas para melhorar a qualidade de vida nas cidades.
Além de ser um espaço de debate, o Outubro Urbano tem um significado simbólico e prático: ele culmina no dia 31 de outubro, que é o Dia Mundial das Cidades, data oficial criada pela ONU para reforçar a importância de pensar e planejar o futuro urbano de forma sustentável. Esse encerramento marca a oportunidade de refletir sobre os aprendizados do mês, consolidar experiências e reforçar compromissos coletivos com a qualidade de vida urbana, a justiça social e a sustentabilidade ambiental.
O Outubro Urbano, assim, conecta diagnósticos, soluções e ações, lembrando que cidades mais habitáveis dependem de decisões colaborativas e planejamento estratégico, envolvendo todos os setores da sociedade. E também mostra que, para transformar a realidade urbana, é preciso primeiro compreender profundamente os desafios que ainda persistem.
Panorama das crises urbanas contemporâneas
As cidades brasileiras enfrentam uma confluência de crises que desafiam a qualidade de vida urbana. A aceleração das mudanças climáticas, o crescimento desigual e a fragilidade das infraestruturas urbanas colocam em risco a habitabilidade das metrópoles.
1. Crise habitacional

De acordo com os últimos dados apurados pela Fundação João Pinheiro (FJP), o déficit habitacional no Brasil é de 5,9 milhões de domicílios, representando uma redução de 4,8% em relação a 2022, quando eram 6,2 milhões. Mesmo com o recuo, o País ainda convive com um déficit expressivo.
Vale destacar que a distribuição do déficit habitacional no Brasil é desigual entre as regiões. Em 2022, o Sudeste registrou o maior número absoluto de domicílios em falta, com 2.433.642 unidades, seguido pelo Nordeste com 1.761.032 unidades
2. Desigualdade e vulnerabilidade urbanas

A desigualdade social se reflete na distribuição desigual dos recursos urbanos. Comunidades periféricas enfrentam falta de acesso a serviços essenciais, como saneamento básico, transporte público de qualidade e espaços públicos adequados. Além disso, essas áreas são mais suscetíveis a desastres naturais, como enchentes e deslizamentos, devido à ocupação irregular e à ausência de planejamento urbano.
3. Crise climática e desafios ambientais

As mudanças climáticas intensificam os desafios urbanos. Em cidades como o Rio de Janeiro, a sensação térmica nas favelas pode ultrapassar 60°C, devido à falta de áreas verdes, alta densidade populacional e materiais de construção que retêm calor. Esses fenômenos, conhecidos como “ilhas de calor“, afetam principalmente populações negras e de baixa renda, evidenciando o racismo ambiental presente nas cidades.
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4. Mobilidade urbana e acessibilidade

A mobilidade urbana segue como um dos grandes desafios das cidades brasileiras. De acordo com a Agenda Urbana 2024, pesquisa que ouviu 11,7 mil pessoas em todo o País, 44% dos brasileiros apontam a mobilidade como o principal problema local. Em São Paulo, o cenário é ainda mais crítico: 64,8% dos entrevistados consideram o tempo de espera do transporte público inadequado.
Essa realidade afeta diretamente tanto o cotidiano, quanto a economia. Estudos indicam que as perdas para o PIB podem variar entre 3% e 4%. A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Fierj), por exemplo, estima que o tempo perdido no trânsito nas principais capitais brasileiras representa cerca de 4,4% do PIB dessas metrópoles. Além de incentivar o aumento do uso de veículos particulares, eles também reduzem a produtividade urbana e elevam os níveis de estresse dos cidadãos.
Outubro Urbano: enfrentando as crises urbanas

Diante desses desafios, o Outubro Urbano 2025 apresenta linhas temáticas que estruturam soluções e debates:
Ação climática e meio ambiente urbano
Este eixo busca apresentar iniciativas para mitigar impactos ambientais, ampliar a resiliência urbana e impulsionar a sustentabilidade. Entre as possibilidades discutidas nos eventos estão infraestruturas verdes, como parques lineares, bem como estratégias de gestão de recursos hídricos e de áreas verdes para reduzir enchentes, ilhas de calor e vulnerabilidade ambiental.
Moradia adequada no centro do planejamento urbano
O foco é colocar a moradia digna como pilar do desenvolvimento urbano. Exemplos incluem programas que promovam a habitação social inclusiva e políticas de integração de comunidades periféricas ao tecido urbano, garantindo acesso a serviços essenciais e infraestrutura adequada.
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Redução das desigualdades urbanas
Neste eixo, o debate se concentra em propostas que abordem justiça social, inclusão e superação da segregação territorial. As discussões vão permear exemplos de planejamento participativo, promoção de espaços públicos acessíveis e infraestrutura urbana equitativa, visando reduzir desigualdades históricas e melhorar a habitabilidade em bairros periféricos.
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Dados, inovação e cidades inteligentes
Este eixo incentiva a utilização de soluções tecnológicas centradas nas pessoas, com base em evidências, para promover a equidade urbana. Possíveis exemplos incluem plataformas digitais de participação cidadã, monitoramento ambiental em tempo real e sistemas de gestão urbana inteligentes, que auxiliam governos e comunidades a tomar decisões mais informadas e inclusivas.
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Construindo o futuro das cidades
O Outubro Urbano 2025 não é apenas um calendário de eventos; é um convite à reflexão e à ação concreta. O que emerge desse debate é a necessidade de um pacto urbano centrado nas pessoas. Um pacto que reconheça a complexidade dos desafios contemporâneos, mas que também valorize as oportunidades de inovação e colaboração entre governos, sociedade civil, iniciativa privada e comunidades, pois habitabilidade não é apenas conforto ou infraestrutura, é a capacidade de viver com dignidade, segurança e participação plena no espaço urbano.