Risco de deslizamentos e vulnerabilidade social: como a ciência pode ajudar a priorizar e agir

Em entrevista, a pesquisadora Franciele Zanandrea explica como um novo método ajuda a hierarquizar áreas de risco e orientar a prevenção de desastres em periferias urbanas

Por Paula Maria Prado em 19 de janeiro de 2026 7 minutos de leitura

Pesquisadora Franciele Zanandrea fala entrevista sobre risco de deslizamentos. Na foto ela está em um ambiente com paisagem verde
Franciele Zanandrea (Foto: Arquivo pessoal)

Quando a chuva aperta, os deslizamentos de terra deixam de ser apenas uma ameaça distante para se tornar um risco urgente, sobretudo em bairros periféricos construídos sobre encostas instáveis, onde condições naturais e urbanização precária se combinam com uma emergência climática que torna eventos extremos de chuva mais frequentes e intensos.

Deslizamento de terra na cidade de Petrópolis causado por risco de deslizamentos, com estruturas destruídas e equipes de resgate no local.
Foto Focus Pix/ Shutterstock

Foi para enfrentar essa realidade que pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) desenvolveram uma forma nova de identificar e hierarquizar áreas de risco de deslizamentos, combinando não só a topografia e o histórico de ocorrências, mas também a vulnerabilidade socioeconômica das famílias que vivem nos locais mais expostos.

O método foi testado em Niterói/RJ, cidade que abriga mais de 100 comunidades em terrenos inclinados, e resultou em um índice de risco qualitativo que orienta a priorização de ações de prevenção e mitigação no Plano Municipal de Redução de Riscos, com foco em intervenções técnicas e adaptações estruturais.

Nesta entrevista, a pesquisadora Franciele Zanandrea, autora do estudo “Os desafios da gestão de risco a movimentos de massa em periferias brasileiras: proposição de método para hierarquização de áreas a serem analisadas no Plano Municipal de Redução de Risco de Niterói, RJ”, publicado na Revista Brasileira de Recursos Hídricos, explica como essa abordagem ajuda a converter dados complexos em decisões públicas mais técnicas e eficazes, ampliando a possibilidade de proteção para quem vive sob risco constante nas periferias. Confira.

O estudo de vocês propõe uma nova forma de identificar e hierarquizar áreas de risco de deslizamentos. O que motivou essa pesquisa e qual lacuna vocês buscavam preencher?

Equipe de pesquisadores analisando mapa de áreas de risco de deslizamentos em projeto de prevenção na cidade de Niterói, RJ, com foco na hierarquização de zonas suscetíveis.
Imagem gerada digitalmente

Franciele Zanandrea: Essa pesquisa surgiu de um projeto entre o Ministério das Cidades, através da Secretaria de Periferias, e algumas universidades do País, com foco na prevenção e mitigação de riscos de desastres. Nessa parceria, a Universidade Federal Fluminense (UFF) realizou um estudo para a elaboração do Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR) das áreas prioritárias do município de Niterói/RJ que, devido ao seu relevo, possui muitas regiões suscetíveis a deslizamentos. O grande desafio era definir, de maneira técnica e objetiva, quais áreas deveriam ser priorizadas neste primeiro levantamento, ou seja, identificar as áreas com maior risco de forma precisa para nortear os próximos passos do projeto.

De forma simples, como o índice de risco funciona? Que tipos de dados ele combina e o que o torna diferente das abordagens tradicionais de mapeamento?

Equipe de pesquisadores analisando mapa de áreas de risco de deslizamentos em projeto de prevenção na cidade de Niterói, RJ, com foco na hierarquização de zonas suscetíveis.
Imagem gerada digitalmente

Franciele Zanandrea: A metodologia proposta permite uma análise espacial detalhada e operacionalmente viável do mapeamento do risco de deslizamentos, integrando atributos topográficos e dados observados de deslizamentos com informações de vulnerabilidade das famílias expostas a esse perigo. O principal diferencial é o uso das informações locais do município, que permite um nível maior de detalhe, alinhado com a realidade de cada cidade. Isso possibilita um direcionamento mais eficiente das ações de redução de riscos, fundamentadas em critérios técnicos.

O método foi desenvolvido com base em Niterói, uma cidade com histórico de desastres em áreas de encosta. O que o caso de Niterói revela sobre o desafio mais amplo das cidades brasileiras?

Casal de moradores observando a cidade de Niterói, com áreas de encosta vulneráveis a desastres, destacando o desafio das cidades brasileiras de gestão de riscos.
Imagem gerada digitalmente

Franciele Zanandrea: Acredito que, em termos técnicos, o maior desafio nos municípios brasileiros está na disponibilidade de dados históricos detalhados sobre desastres anteriores. Ainda não temos a cultura no Brasil de registrar com detalhes os eventos passados. No entanto, essas informações são essenciais para estudos de mapeamento e sistemas de alerta, entre outros, que possam mitigar os impactos dos desastres nas cidades brasileiras, considerando as peculiaridades locais. Outra questão importante no Brasil é a expansão urbana, muitas vezes informal, que ocorre em áreas de maior suscetibilidade a movimentos de massa e inundações devido à falta de planejamento urbano e à pressão imobiliária que acaba “empurrando” pessoas em situação de maior vulnerabilidade para essas regiões.

O estudo destaca a integração entre fatores físicos, como a estabilidade do terreno, e sociais, como a renda e a vulnerabilidade das famílias. Por que essa combinação é fundamental para entender o risco de deslizamentos?

Malha de aço protetora instalada nas encostas entre Itaara e Santa Maria, RS, Brasil, para evitar deslizamentos de terra e garantir a segurança rodoviária.
Foto: Alex Rodrigo Brondani/ Shutterstock

Franciele Zanandrea: Deslizamentos de terra são fenômenos naturais, que causam desastres quando impactam a sociedade. Portanto, para compreender os riscos de desastres é necessário entender além das características físicas do fenômeno, mas também considerar quem está exposto a esses fenômenos. As informações do grau de vulnerabilidade social das famílias, como a situação econômica, a qualidade da habitação e o acesso a serviços públicos, influencia diretamente na capacidade de resposta e recuperação frente a um desastre. Integrar essas duas dimensões, física e social, permite uma visão mais completa do risco, além de orientar políticas públicas mais eficazes para a redução de desastres.

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A metodologia foi testada e validada em campo. O que mais surpreendeu vocês nesse processo de validação — houve alguma discrepância entre o que o modelo previa e o que foi observado?

Franciele Zanandrea: Não foi exatamente uma surpresa, mas o caso da comunidade Boa Esperança que, apesar de estar ranqueada entre as áreas prioritárias, no mapeamento técnico, realizado posteriormente, indicou risco médio. O motivo foi que o IR captou os registros históricos concentrados em um único desastre (2018), o que inflacionou o índice. Além disso, obras de contenção já haviam sido realizadas, mas não constavam na base de dados disponível no momento da análise.

Esse caso evidenciou a necessidade de atualização constante dos dados utilizados e do cuidado na interpretação dos índices — especialmente aqueles oriundos de registros administrativos, além da importância das atividades de campo.

Um ponto forte do trabalho é a possibilidade de replicação por outras prefeituras, mesmo com poucos recursos. Quais são as condições mínimas para que um município possa adotar essa metodologia?

Franciele Zanandrea: Para que as prefeituras possam adotar a metodologia proposta é necessário que disponham de dados como mapas topográficos, cadastros socioeconômicos e registros de ocorrências. É fundamental a disponibilidade de informações topográficas em escala adequada, que permita a correta caracterização do relevo. Também são indispensáveis os registros históricos de ocorrências de deslizamentos de terra, geralmente disponíveis junto às Defesas Civis municipais ou estaduais.

Além disso, a aplicação do índice requer dados socioeconômicos das famílias em situação de vulnerabilidade, como aqueles provenientes do Cadastro Único (CADÚnico), que possibilitam a identificação e a geolocalização das residências cadastradas. Por fim, embora a metodologia possa ser aplicada mesmo em contextos de recursos limitados, é importante que a prefeitura disponha de um corpo técnico minimamente capacitado para realizar a aplicação do método e interpretar adequadamente os resultados, garantindo sua utilização como ferramenta de apoio à tomada de decisão.

O estudo fala em “democratizar o acesso ao planejamento urbano integrado à gestão de desastres”. Na prática, o que isso significa para comunidades periféricas que vivem sob risco constante?

Franciele Zanandrea: Na prática, democratizar o acesso ao planejamento urbano integrado à gestão de desastres significa oferecer às comunidades periféricas, que historicamente convivem com riscos elevados e pouca atenção do poder público, a possibilidade de serem incluídas de forma mais justa e transparente nas ações de redução de risco. O método proposto fornece uma ferramenta técnica, de baixo custo e replicável, capaz de orientar a alocação de recursos públicos em ações de prevenção e mitigação de riscos, fortalecendo uma gestão baseada em evidências.

Para essas comunidades, isso se traduz em maior visibilidade das áreas de risco onde vivem, na priorização de intervenções estruturais e não-estruturais e no apoio à formulação de políticas públicas que considerem simultaneamente fatores físicos e socioeconômicos, bem como incorporem as áreas de risco de deslizamentos no planejamento territorial do município.

Dessa forma, o planejamento urbano deixa de ser um instrumento restrito a contextos com maior capacidade institucional e passa a atuar como um meio de redução de desigualdades, contribuindo para a proteção de vidas e para o fortalecimento da resiliência urbana.

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Pensando no futuro, como você enxerga o papel da ciência e das universidades na criação de ferramentas que aproximem a gestão pública da realidade das periferias urbanas?

Franciele Zanandrea: A ciência e as universidades desempenham um papel crucial na criação de ferramentas que aproximam a gestão pública das realidades das periferias urbanas, mas não sozinhas. A sociedade também é protagonista nesse processo, pois as informações locais geradas pelas comunidades são essenciais para entender os desafios específicos de cada território.

Quem vive nessas áreas conhece melhor os riscos e as necessidades, e essa troca de conhecimento com a universidade e o poder público é fundamental para a construção de soluções mais eficazes e justas. Nesse sentido, nosso grupo de pesquisas, o Grupo de Análises e Pesquisas em Hidrologia e Desastres (GRAPHID), da Universidade Federal Fluminense (UFF), tem como foco a pesquisa aplicada na área de desastres relacionados aos processos hidrológicos. Entre as linhas de pesquisa em andamento, destaca-se o desenvolvimento de sistemas de alerta, como o projeto Sistema de Alerta Antecipado para Deslizamentos (SALAD), financiado pelo CNPq.

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A identificação e hierarquização das áreas de maior risco, como proposto neste estudo, representa uma etapa fundamental nesse processo, servindo como base técnica para a definição de pontos críticos onde os sistemas de alerta e outras ações preventivas podem ser implementados de forma prioritária.

Dessa maneira, a atuação da universidade contribui não apenas para o avanço científico, mas também para o fortalecimento da gestão pública baseada em evidências e para a redução das vulnerabilidades que afetam, de forma desproporcional, as populações periféricas.

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