Quando a chuva aperta, os deslizamentos de terra deixam de ser apenas uma ameaça distante para se tornar um risco urgente, sobretudo em bairros periféricos construídos sobre encostas instáveis, onde condições naturais e urbanização precária se combinam com uma emergência climática que torna eventos extremos de chuva mais frequentes e intensos.

Foi para enfrentar essa realidade que pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) desenvolveram uma forma nova de identificar e hierarquizar áreas de risco de deslizamentos, combinando não só a topografia e o histórico de ocorrências, mas também a vulnerabilidade socioeconômica das famílias que vivem nos locais mais expostos.
O método foi testado em Niterói/RJ, cidade que abriga mais de 100 comunidades em terrenos inclinados, e resultou em um índice de risco qualitativo que orienta a priorização de ações de prevenção e mitigação no Plano Municipal de Redução de Riscos, com foco em intervenções técnicas e adaptações estruturais.
Nesta entrevista, a pesquisadora Franciele Zanandrea, autora do estudo “Os desafios da gestão de risco a movimentos de massa em periferias brasileiras: proposição de método para hierarquização de áreas a serem analisadas no Plano Municipal de Redução de Risco de Niterói, RJ”, publicado na Revista Brasileira de Recursos Hídricos, explica como essa abordagem ajuda a converter dados complexos em decisões públicas mais técnicas e eficazes, ampliando a possibilidade de proteção para quem vive sob risco constante nas periferias. Confira.
O estudo de vocês propõe uma nova forma de identificar e hierarquizar áreas de risco de deslizamentos. O que motivou essa pesquisa e qual lacuna vocês buscavam preencher?

Franciele Zanandrea: Essa pesquisa surgiu de um projeto entre o Ministério das Cidades, através da Secretaria de Periferias, e algumas universidades do País, com foco na prevenção e mitigação de riscos de desastres. Nessa parceria, a Universidade Federal Fluminense (UFF) realizou um estudo para a elaboração do Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR) das áreas prioritárias do município de Niterói/RJ que, devido ao seu relevo, possui muitas regiões suscetíveis a deslizamentos. O grande desafio era definir, de maneira técnica e objetiva, quais áreas deveriam ser priorizadas neste primeiro levantamento, ou seja, identificar as áreas com maior risco de forma precisa para nortear os próximos passos do projeto.
De forma simples, como o índice de risco funciona? Que tipos de dados ele combina e o que o torna diferente das abordagens tradicionais de mapeamento?

Franciele Zanandrea: A metodologia proposta permite uma análise espacial detalhada e operacionalmente viável do mapeamento do risco de deslizamentos, integrando atributos topográficos e dados observados de deslizamentos com informações de vulnerabilidade das famílias expostas a esse perigo. O principal diferencial é o uso das informações locais do município, que permite um nível maior de detalhe, alinhado com a realidade de cada cidade. Isso possibilita um direcionamento mais eficiente das ações de redução de riscos, fundamentadas em critérios técnicos.
O método foi desenvolvido com base em Niterói, uma cidade com histórico de desastres em áreas de encosta. O que o caso de Niterói revela sobre o desafio mais amplo das cidades brasileiras?

Franciele Zanandrea: Acredito que, em termos técnicos, o maior desafio nos municípios brasileiros está na disponibilidade de dados históricos detalhados sobre desastres anteriores. Ainda não temos a cultura no Brasil de registrar com detalhes os eventos passados. No entanto, essas informações são essenciais para estudos de mapeamento e sistemas de alerta, entre outros, que possam mitigar os impactos dos desastres nas cidades brasileiras, considerando as peculiaridades locais. Outra questão importante no Brasil é a expansão urbana, muitas vezes informal, que ocorre em áreas de maior suscetibilidade a movimentos de massa e inundações devido à falta de planejamento urbano e à pressão imobiliária que acaba “empurrando” pessoas em situação de maior vulnerabilidade para essas regiões.
O estudo destaca a integração entre fatores físicos, como a estabilidade do terreno, e sociais, como a renda e a vulnerabilidade das famílias. Por que essa combinação é fundamental para entender o risco de deslizamentos?

Franciele Zanandrea: Deslizamentos de terra são fenômenos naturais, que causam desastres quando impactam a sociedade. Portanto, para compreender os riscos de desastres é necessário entender além das características físicas do fenômeno, mas também considerar quem está exposto a esses fenômenos. As informações do grau de vulnerabilidade social das famílias, como a situação econômica, a qualidade da habitação e o acesso a serviços públicos, influencia diretamente na capacidade de resposta e recuperação frente a um desastre. Integrar essas duas dimensões, física e social, permite uma visão mais completa do risco, além de orientar políticas públicas mais eficazes para a redução de desastres.
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A metodologia foi testada e validada em campo. O que mais surpreendeu vocês nesse processo de validação — houve alguma discrepância entre o que o modelo previa e o que foi observado?
Franciele Zanandrea: Não foi exatamente uma surpresa, mas o caso da comunidade Boa Esperança que, apesar de estar ranqueada entre as áreas prioritárias, no mapeamento técnico, realizado posteriormente, indicou risco médio. O motivo foi que o IR captou os registros históricos concentrados em um único desastre (2018), o que inflacionou o índice. Além disso, obras de contenção já haviam sido realizadas, mas não constavam na base de dados disponível no momento da análise.
Esse caso evidenciou a necessidade de atualização constante dos dados utilizados e do cuidado na interpretação dos índices — especialmente aqueles oriundos de registros administrativos, além da importância das atividades de campo.
Um ponto forte do trabalho é a possibilidade de replicação por outras prefeituras, mesmo com poucos recursos. Quais são as condições mínimas para que um município possa adotar essa metodologia?
Franciele Zanandrea: Para que as prefeituras possam adotar a metodologia proposta é necessário que disponham de dados como mapas topográficos, cadastros socioeconômicos e registros de ocorrências. É fundamental a disponibilidade de informações topográficas em escala adequada, que permita a correta caracterização do relevo. Também são indispensáveis os registros históricos de ocorrências de deslizamentos de terra, geralmente disponíveis junto às Defesas Civis municipais ou estaduais.
Além disso, a aplicação do índice requer dados socioeconômicos das famílias em situação de vulnerabilidade, como aqueles provenientes do Cadastro Único (CADÚnico), que possibilitam a identificação e a geolocalização das residências cadastradas. Por fim, embora a metodologia possa ser aplicada mesmo em contextos de recursos limitados, é importante que a prefeitura disponha de um corpo técnico minimamente capacitado para realizar a aplicação do método e interpretar adequadamente os resultados, garantindo sua utilização como ferramenta de apoio à tomada de decisão.
O estudo fala em “democratizar o acesso ao planejamento urbano integrado à gestão de desastres”. Na prática, o que isso significa para comunidades periféricas que vivem sob risco constante?
Franciele Zanandrea: Na prática, democratizar o acesso ao planejamento urbano integrado à gestão de desastres significa oferecer às comunidades periféricas, que historicamente convivem com riscos elevados e pouca atenção do poder público, a possibilidade de serem incluídas de forma mais justa e transparente nas ações de redução de risco. O método proposto fornece uma ferramenta técnica, de baixo custo e replicável, capaz de orientar a alocação de recursos públicos em ações de prevenção e mitigação de riscos, fortalecendo uma gestão baseada em evidências.
Para essas comunidades, isso se traduz em maior visibilidade das áreas de risco onde vivem, na priorização de intervenções estruturais e não-estruturais e no apoio à formulação de políticas públicas que considerem simultaneamente fatores físicos e socioeconômicos, bem como incorporem as áreas de risco de deslizamentos no planejamento territorial do município.
Dessa forma, o planejamento urbano deixa de ser um instrumento restrito a contextos com maior capacidade institucional e passa a atuar como um meio de redução de desigualdades, contribuindo para a proteção de vidas e para o fortalecimento da resiliência urbana.
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Pensando no futuro, como você enxerga o papel da ciência e das universidades na criação de ferramentas que aproximem a gestão pública da realidade das periferias urbanas?
Franciele Zanandrea: A ciência e as universidades desempenham um papel crucial na criação de ferramentas que aproximam a gestão pública das realidades das periferias urbanas, mas não sozinhas. A sociedade também é protagonista nesse processo, pois as informações locais geradas pelas comunidades são essenciais para entender os desafios específicos de cada território.
Quem vive nessas áreas conhece melhor os riscos e as necessidades, e essa troca de conhecimento com a universidade e o poder público é fundamental para a construção de soluções mais eficazes e justas. Nesse sentido, nosso grupo de pesquisas, o Grupo de Análises e Pesquisas em Hidrologia e Desastres (GRAPHID), da Universidade Federal Fluminense (UFF), tem como foco a pesquisa aplicada na área de desastres relacionados aos processos hidrológicos. Entre as linhas de pesquisa em andamento, destaca-se o desenvolvimento de sistemas de alerta, como o projeto Sistema de Alerta Antecipado para Deslizamentos (SALAD), financiado pelo CNPq.
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A identificação e hierarquização das áreas de maior risco, como proposto neste estudo, representa uma etapa fundamental nesse processo, servindo como base técnica para a definição de pontos críticos onde os sistemas de alerta e outras ações preventivas podem ser implementados de forma prioritária.
Dessa maneira, a atuação da universidade contribui não apenas para o avanço científico, mas também para o fortalecimento da gestão pública baseada em evidências e para a redução das vulnerabilidades que afetam, de forma desproporcional, as populações periféricas.