Plantas e colonialismo: o que os nomes da flora revelam sobre nossa história

Giselle Beiguelman, artista e professora titular da FAU-USP, analisa como nomenclaturas botânicas carregam memórias de colonialismo, hierarquias e preconceitos.

Por Paula Maria Prado em 9 de fevereiro de 2026 7 minutos de leitura

Na foto Giselle Beiguelman, artista e professora titular da FAU-USP, que analisa em entrevista como nomenclaturas botânicas carregam memórias de colonialismo, hierarquias e preconceitos.
Giselle Beiguelman (Foto: Leila Fugii)

Antes de ser um nome em latim ou uma plaquinha no jardim, uma planta carrega histórias — algumas belas, outras nem tanto. Há folhas que não brotam apenas da terra, mas também de contextos históricos marcados por colonialismo, hierarquias e exclusões, muitas vezes invisíveis na linguagem cotidiana. É nesse território pouco explorado entre plantas e colonialismo que transita Giselle Beiguelman, artista e professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e Design, Universidade de São Paulo (FAU-USP). Autora de “Políticas da imagem” (UBU Editora, 2021) e “Naturezas desviantes” (Afluente, 2025), seus projetos fazem parte de coleções de museus no Brasil e no exterior e já receberam diversos prêmios nacionais e internacionais.

Em trabalhos que combinam pesquisa histórica, artes visuais e inteligência artificial, Giselle investiga como imaginários e fabulações se construíram em torno da botânica e ajudaram a naturalizar maneiras de ver, classificar e dominar o mundo.

Nesta entrevista, a pesquisadora fala sobre preconceitos embutidos na nomeação da flora, os paralelos entre ciência e colonialismo, os “fantasmas algorítmicos” da inteligência artificial e o papel da arte em revelar aquilo que a linguagem tenta normalizar. Um convite para repensar, a partir das plantas, as formas como organizamos o mundo.

De que forma a relação entre plantas e colonialismo se manifesta nos nomes de plantas (científicos e comuns) – e carregam preconceitos?

Na foto a flor Erythrina caffra que passou a se chamar Erythrina affra. Ilustrando parte da temática da entrevista sobre plantas e colonialismo
A Erythrina caffra que passou a se chamar Erythrina affra (Foto: goumi/ Shutterstock)

Giselle Beiguelman: Acho que precisamos diferenciar duas coisas. A primeira é a nomenclatura científica, que vem sendo contestada nos últimos anos por carregar, em muitos casos, um mundo de preconceitos embutidos nos próprios nomes em latim. Pouco tempo atrás, por exemplo, foram renomeadas plantas que tinham relação com a palavra “cafir”, em variações como “cafrum” ou “cafra”. Trata-se de uma palavra de origem árabe usada para designar herege, infiel. Ela foi incorporada por vários países europeus e, conforme esses países foram colonizando regiões da África, o termo tornou-se sinônimo de barbárie, selvageria, entre outros significados racistas. Tanto que, na África do Sul, passou a ser considerado equivalente à “palavra N”, em inglês, que hoje sequer pronunciamos, pela carga de violência racial que carrega. Esse não é o único termo racista incorporado na nomenclatura científica e há também o problema dos epônimos que homenageiam reis, rainhas, patrocinadores e agentes do tráfico transatlântico de africanos e do genocídio indígena.

A segunda dimensão diz respeito a como o preconceito e o racismo, incorporados e legitimados pelas ciências, especialmente a partir do fim do século 18, vai se traduzindo também em um imaginário coletivo, dentro do qual se consolidam as chamadas nomenclaturas comuns, esses nomes populares que vão de Judeu Errante a Erva-de-Turco, passando por Cabeça-de-negro e Bunda-de-mulata, entre muitos outros e em várias línguas, refletindo as tônicas racistas e de preconceitos dos lugares. Esses nomes (preconceituosos, racistas, misóginos e extremamente sexistas) não refletem aquilo que a botânica é hoje, mas fazem parte de um quadro de ciências hegemônicas constituídas e consolidadas no âmbito do colonialismo, e que passam a ser instrumentais para o sucesso econômico das potências europeias, como a Inglaterra, por exemplo, a partir do século 19.

O que nos impressiona, quando nos defrontamos com esses nomes, é a maneira como esse imaginário colonialista persiste e se irradia — aliás, não só se irradia, mas se capilariza — por meio de uma linguagem que traduz a nossa própria maneira de ver o mundo.

É daí que você criou o termo “botânica tirânica”?

Giselle Beiguelman: A botânica não é racista. Pelo contrário. O uso da expressão “botânica tirânica” no título de um dos meus projetos (Botannica Tirannica) refere-se a um conjunto de fabulações criadas em determinado contexto histórico e que, por meio da linguagem e da forma, organizam a nossa compreensão ecossistêmica (separando, por exemplo, natureza e cultura como incompatíveis). Trata-se de um modo de ser e de pensar que vêm sendo contestado por uma série de outros saberes e tem ganhado cada vez mais espaço nos debates acadêmicos e políticos. Ainda assim, vemos que, nessa gramática de organização do mundo, o imaginário colonialista persiste.

O que a maneira como classificamos plantas ao longo da história nos diz sobre como classificamos pessoas e comportamentos no presente?

Giselle Beiguelman: Acho que isso diz muito, em última instância, sobre o imaginário colonialista e sobre como ele se constrói e se impõe a partir de classificações e hierarquias que foram (e são) instrumentais para violências sociais e de seus processos de expropriação — não apenas dos corpos, mas também do próprio meio ambiente.

Isso se dá por meio de um conjunto de saberes que se entranha de tal modo nas instituições, nas microdinâmicas do cotidiano e na linguagem, que acabam não só legitimando preconceitos e formas de racismo que hoje contestamos, mas também legitimando processos de dominação que vão da racialização dos corpos à apropriação da natureza.

Você costuma falar sobre apagamentos e silenciamentos. Que paralelos emergem entre a história da botânica e outras formas de esquecimento institucionalizado? O que o Brasil insiste em lembrar ou em esquecer?

Giselle Beiguelman: Volto a repetir: a botânica não é a matriz do preconceito nem de todos os processos colonialistas. A botânica é uma ciência e um saber que, em determinado momento histórico, foi uma das principais tecnologias de poder, instrumental no processo de dominação colonialista. O que podemos observar é como esse imaginário colonialista persiste e penetra em tecnologias e formas de conhecimento absolutamente contemporâneas, como a inteligência artificial. Modelos de grande porte e extremamente populares têm fundamentos essencialmente estatísticos. Como esses modelos são treinados com grandes datasets (conjuntos de dados) enviesados — porque a nossa cultura é uma cultura de assimetrias de poder –, essa metodologia faz com que os dados dominantes sejam os dados da cultura dominante.

Como você avalia o desdobramento dessas questões nesse contexto tecnológico?

Giselle Beiguelman: Nesse contexto, apagamentos e violências não apenas se repetem, mas se aprofundam. É fundamental, portanto, compreender que os dados são socialmente produzidos. No entanto, não podemos esquecer um outro aspecto dessa produção social dos dados, que abordei no projeto “Venenosas, nocivas e suspeitas”: por lidarem com uma escala massiva de dados em seus treinamentos, as inteligências artificiais  também lidam com memórias que foram sufocadas ao longo de séculos de história.

É no nosso corpo a corpo com esses sistemas, no nosso investimento de trabalho, que se torna possível fazer com que os “fantasmas algorítmicos” embutidos nessas varreduras tragam à tona também memórias silenciadas e apagamentos históricos, ainda que a tendência do modelo estatístico seja generalizar, fazer a média a partir do comportamento dominante.

O que seria necessário, no mundo real, para que um “jardim decolonial” existisse além da metáfora artística?

Giselle Beiguelman: A própria ideia do jardim de paisagem vem do colonialismo, essa mania de organizar a natureza como cultura. Mas não me sinto confortável em dar fórmulas sobre como solucionar isso. Como professora, acredito que o papel da educação é o mais estratégico: toda e qualquer política de mudança passa pela educação e pela informação qualificada.

Que paralelos você vê entre o vocabulário depreciativo tão presentes na nomeação das plantas e os discursos políticos contemporâneos de exclusão?

Giselle Beiguelman: É uma continuidade. É a capilarização desse imaginário que se evidencia nessas permanências, tanto no campo da linguagem, quanto no campo da organização da vida como um contraponto entre natureza e cultura, que é um dos desastres do Antropoceno, a tal ponto introjetado, que ele passa a parecer neutro.

Entre o que se esquece e o que se preserva, onde você vê espaço para reconstruirmos nossos modos de nomear e, portanto, de existir no mundo?

Giselle Beiguelman: É a partir, especialmente, da escuta dos movimentos sociais e dos grupos que se sentem violentados. Não se trata apenas de uma questão de vocabulário, mas de imaginário. E esse imaginário é uma dimensão das práticas sociais. Por isso, é uma discussão interdisciplinar, que envolve as ciências humanas, as ciências da botânica e a antropologia, entre outras.

Ainda assim, há muito por fazer e muita resistência, que insiste em tratar esse modelo como neutro. E é curioso falar disso a partir do Brasil, onde 80% da nomenclatura comum da flora e da fauna ainda é composta por nomes indígenas. Por exemplo, Jacarandá, Ipê. Isso é uma espécie de resiliência, uma área simbólica de resistência. Afinal, o primeiro marco de violência colonialista da nomenclatura científica começa com o apagamento dos saberes ancestrais e sua renomeação, muitas vezes, rendendo homenagens a reis, rainhas e patrocinadores do extermínio desses povos. Acho que estamos vivendo há algumas décadas um momento de grandes reviravoltas nesse sentido, com a consciência de que nenhuma tecnologia — como a inteligência artificial ou qualquer outra — é neutra. É aí que a educação se aproxima da política.

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Que tipo de reação do público interessa a você provocar quando ele se depara com esse “jardim” que enfrenta a violência pela via das imagens?

Giselle Beiguelman: “Botannica Tirannica” combina plantas vivas e plantas fabuladas com Inteligência Artificial. É um projeto que eu não parei de expor desde que foi apresentado pela primeira vez, em 2022, no Museu Judaico, aqui em São Paulo. Desde então, ele já passou pelo Paquistão, Canadá, Itália, Alemanha e, no Brasil, em cidades como Porto Alegre/RS, Santa Maria/RS, Taubaté/SP e Campinas/SP. O conjunto de plantas que exponho já cresceu muito ao longo dos anos, pois uma longa pesquisa que vai atentando a outras camadas de problemas embutidas nas nomenclaturas e incorporando questões da flora e dos preconceitos locais.

Acho que a circulação e os movimentos de atualização são a força desse projeto. Eles colocam as pessoas diante de algo que é muito corriqueiro, e é justamente aí que se evidencia a força desse imaginário: a capilarização, a forma como ele se neutraliza. E isso se dá a partir de um estado que é, ao mesmo tempo, de descoberta, conscientização e choque. Não é apenas a violência dos nomes, mas a percepção de que nós, que supostamente militamos pelo antirracismo, pelo feminismo, pela multiplicidade, pela diversidade, ignoramos as plantas de tal maneira que elas passam a servir apenas para ser consumidas como alimento ou como ornamento. Com isso, simplesmente perdemos a capacidade de enxergá-las, de aprender com as histórias que elas narram sobre nós.

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