Marco Akerman: Saúde urbana não é (apenas) sobre serviços de saúde de qualidade

Professor da Faculdade de Saúde Pública da USP defende um novo pacto urbano, com mais participação social, justiça tributária e planejamento estratégico.

Por Paula Maria Prado em 30 de julho de 2025 4 minutos de leitura

Marco Akerman
Marco Akerman (Foto: Arquivo pessoal)

O que faz uma cidade ser saudável? Para além de hospitais, centros de saúde ou remédios disponíveis na rede pública, o verdadeiro indicador de bem-estar pode estar nas calçadas bem cuidadas, nas praças seguras, no transporte acessível e na escuta ativa da população — especialmente a mais vulnerável. Em um cenário de crise climática, desigualdade crescente e decisões políticas concentradas, pensar a saúde urbana é mais urgente do que nunca. 

Essa é a defesa de Marco Akerman, médico sanitarista e professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), também pesquisador do Cidades Saudáveis (Cepedoc), ONG que atua como Centro Colaborador da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) nas áreas de Promoção da Saúde e de Cidade Saudáveis.

Para ele, planejar territórios que cuidem da vida em todas as suas dimensões — da infância à velhice, da moradia à mobilidade — é um projeto coletivo que exige visão de longo prazo e coragem política. Isso significa, por exemplo, inverter prioridades: levar mais recursos às periferias, garantir justiça tributária e proteger o meio ambiente como condição básica de saúde pública.

Nesta entrevista ao “Habitability”, Akerman propõe caminhos para construir cidades que promovam bem-estar, inclusão e sustentabilidade. E reforça um ponto essencial: saúde urbana não é uma questão setorial, mas um compromisso de toda a sociedade.

Confira!

Em termos práticos, o que faz uma cidade ser promotora da saúde urbana?

saúde urbana
Foto: goffkein.pro/ Shutterstock

Marco Akerman: Primeiramente, é preciso que a gestão municipal amplie o conceito de saúde urbana e vá além da ideia, ainda muito presente no imaginário social, de que o único papel da prefeitura nesse campo é garantir acesso a serviços de saúde de qualidade. Isto é uma necessidade imperiosa. Mas a saúde da população também melhora quando há múltiplas ações de promoção da saúde em diferentes áreas das políticas públicas, como saneamento básico, acesso à água limpa, habitação, alimentação e nutrição, educação, impostos, lazer, infância e proteção do meio-ambiente, entre outras. 

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O conceito de cidade saudável já foi incorporado em algumas experiências territoriais, mas ainda parece distante da realidade de muitos municípios. O que o senhor diria ser o primeiro passo essencial para qualquer cidade brasileira que deseje trilhar esse caminho?

Marco Akerman: Tornar pública a pergunta “o que nossa cidade pretende ser nos próximos 20 anos?” e operar um movimento de planejamento estratégico e participativo que tenha esta pergunta como motor do movimento.

Como podemos avançar na construção de cidades mais saudáveis em territórios marcados pela exclusão e vulnerabilidade, como periferias urbanas e comunidades informais?

Marco Akerman: O Brasil hoje vive um debate que encontra eco na sua pergunta. Precisamos, com urgência, de mais justiça tributária. A lógica regressiva da nossa carga tributária aprofunda desigualdades sociais e territoriais. É urgente inverter as prioridades na alocação de políticas públicas. Os centros urbanos e as áreas mais ricas das cidades seguem sendo privilegiados. Concentrar grande número de recursos de segurança pública na Av. Paulista, por exemplo, traz maior visibilidade ao Governo Municipal. Mas seria o mais efetivo em termos de segurança pública municipal? É necessário, também, desenvolver modos de escuta e participação da população que vive na periferia e nas favelas urbanas na escolha e formulação de políticas públicas.  

O que falta, na sua avaliação, para que governos locais consigam colocar em prática projetos de longo prazo que resistam às mudanças de gestão e ciclos eleitorais?

Marco Akerman: Desenvolver modos de escuta e participação da população na escolha e formulação de políticas públicas poderia dar mais sustentabilidade às políticas públicas.

A construção de cidades saudáveis envolve governo, setor privado e sociedade civil. Como fortalecer a participação social e o controle popular para garantir políticas urbanas mais justas e saudáveis?

Marco Akerman: Explicitar claramente os interesses distintos entre os três setores e aceitar mediação para uma possível construção de objetivos comuns, mesmo que temporários, bem como responsabilidades, competências e recursos disponíveis de cada um dos setores para a negociação que estiver em questão.

Mobilidade urbana, habitação digna e lazer. Quais dessas áreas são mais urgentes no contexto das grandes cidades brasileiras e por quê?

Marco Akerman: As três são urgentes, mas são sintomas da priorização do centro em detrimento das periferias onde há poucas oportunidades de trabalho, lazer e transporte. Uma cidade com melhor distribuição dos postos de trabalho teria impacto imediato nas lógicas de mobilidade urbana, por exemplo. 

Como o conceito de cidade saudável dialoga com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), em especial o ODS 11, que trata de cidades e comunidades sustentáveis? Quais lacunas o Brasil ainda precisa preencher para caminhar nesse sentido?

Foto: Pedro/ Adobe Stock

Marco Akerman: O ODS11 joga luz na necessidade de valorização das cidades. Cada vez mais o mundo vai ficando mais urbano e menos rural. A concentração dos recursos públicos na mão do Governo Federal dificulta a descentralização dos recursos para as cidades, mas as emendas parlamentares não são de forma alguma o melhor mecanismo de descentralização para a melhor distribuição dos recursos públicos.

Em um momento em que a crise climática afeta diretamente a saúde das populações urbanas, como as cidades podem se preparar para serem espaços de proteção frente aos impactos ambientais?

Marco Akerman: As cidades devem atuar na diminuição do negacionismo climático e desenvolverem projetos que mostrem a insustentabilidade dos nossos meios de produção e consumo – próprio da lógica capitalista – e seus efeitos nocivos à vida e ao planeta. Também é essencial valorizar todas as medidas que, como cita Ailton Krenak, liderança indígena que faz parte da Academia Brasileira de Letras, “adiem o fim do mundo”. 

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