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Afirmar é preciso

Com oportunidade e desafios, as pessoas crescem – e o mundo se transforma

20 de dezembro de 2021 - 3 minutos de leitura
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por: Eduardo Fischer CEO da MRV

Há algumas semanas, lançamos na MRV&CO nosso programa de trainees para pessoas negras. Com essa iniciativa, estamos buscando promover a diversidade dentro da nossa empresa, e avançar na jornada de amadurecimento ESG – felizmente, um caminho sem volta.

A jornada não é só da companhia: é também das pessoas, dentro e fora dela, a começar por mim mesmo. Eu, como gestor e indivíduo, as organizações e a sociedade como um todo podemos evoluir em visões e opiniões. Implantar uma ação de recrutamento afirmativa é um arco de aprendizado que se consolida, e por isso mesmo é um momento especial.

Compartilhando com vocês um pouco da minha vivência: no passado, já questionei a ideia de cotas; mas o tempo e a experiência ensinam! Alguns bons anos no ambiente corporativo, criar filhos para o mundo, isso tem um efeito – e a gente passa a perceber que cada pessoa tem uma história que não acontece descolada de um contexto maior, e é profundamente afetada por ele. Por exemplo: gostaríamos que todos estivessem em equilíbrio de chances no mercado de trabalho, mas na prática sabemos que não é assim. Existem fatores históricos, sociais, culturais que impactam no jogo e não se pode simplesmente ignorá-los. 

É aí que entra a diferença entre os conceitos de igualdade e equidade. Ao mesmo tempo em que somos, sim, todos iguais, não dá para dizer que estamos todos em situação de equidade quando se trata de oportunidades de trabalho. Muitas vezes, é uma corrida em que alguns já estão passos atrás antes mesmo da largada. Ações afirmativas existem para tentar estabelecer uma situação de mais equilíbrio.

A noção da meritocracia pura e simples também precisa amadurecer. Claro, ninguém vai contratar um funcionário que não tenha as qualificações necessárias; no entanto, direcionar o processo de seleção pode promover uma distribuição de oportunidades que, ao mesmo tempo em que valoriza a competência, ajuda a modificar ciclos tortos de iniquidade e a deixar de lado vieses que são, às vezes, até inconscientes.

Gosto de pensar também em como a ação afirmativa opera preventivamente, em favor das pessoas que são potenciais alvos de discriminação e contrária aos que discriminam. Neste ponto, este tipo de ação atua como complemento de políticas focadas em coibir atitudes indevidas e conscientizar as pessoas dos caminhos que a empresa e a sociedade devem seguir. 

Entendo que o programa de trainees para profissionais negros caminha lado a lado com nossos valores e com as diretrizes do nosso Código de Conduta; marcos de uma mesma trilha, que é essencial inclusive para assemelhar mais o perfil dos nossos executivos às estatísticas demográficas brasileiras – até porque times diversos têm tudo a ver com melhores resultados!

Essa trilha é pavimentada também por iniciativas de empresas como Magalu, Bayer, Vivo, Itaú, Unidas… fico feliz em ver que a lista continua. As pioneiras em implantar programas afirmativos para compor seu mix de executivos são influência e inspiração para nós. Os desafios que tiveram e os resultados que alcançaram são experiências ricas – sobre como eliminar barreiras de exclusão, como lidar com as possíveis críticas, como superar obstáculos e fazer acontecer.

Vou discordar só um pouco do Belchior, que dizia que “uma nova mudança em breve vai acontecer”: ela já está acontecendo, e se alimenta da nossa capacidade de aprender e de incorporar ideias e percepções. É o amadurecer com espírito aberto à transformação: não é à toa que ele também canta – “o passado é uma roupa que não nos serve mais… e precisamos todos rejuvenescer”!

* Eduardo Fischer é CEO da MRV, empresa do grupo MRV&CO, uma plataforma habitacional composta por marcas que oferecem a solução de moradia adequada para cada necessidade e momento de vida.