A icônica Hong Kong vai passar um plano ambicioso de reconstrução urbana que envolve nada menos do que 30 mil hectares de área. Trata-se da Northern Metropolis – ou Metrópole do Norte – numa tradução livre. O projeto deve ser implantado ao longo das próximas décadas e resultará na construção de um novo centro comercial para a cidade, com parques tecnológicos, infraestrutura e milhares de novos empregos e residências. O empreendimento também deve fortalecer os vínculos de Hong Kong com a área da Grande Baía (GBA), além de uma integração maior com a cidade vizinha de Shenzen, conhecida como o Vale do Silício chinês.

A Metrópole do Norte é uma resposta do governo chinês ao crescimento da região e substitui a iniciativa de desenvolver três ou quatro novas cidades para atender as demandas locais. Um dos objetivos do plano é ajudar a diminuir o déficit habitacional em Hong Kong. 

Os dados oficiais da cidade mostram que, quando o desenvolvimento da Northern Metropolis for concluído, ela será o lar de cerca de 2,5 milhões de pessoas, contra 1 milhão atualmente. Provavelmente, haverá uma mistura de moradias populares e residências para a classe média, incluindo os profissionais de ciência e tecnologia que trabalharão lá. Além do foco habitacional, o projeto também envolve grandes empreendimentos comerciais.

Não só ecologicamente, mas também na parte econômica, a Northern Metropolis é um projeto de longo prazo. É provável que ele ocorra em várias fases e os planos podem evoluir ao longo do tempo, principalmente em resposta às mudanças no ambiente local e global. 

Um exemplo de como essa evolução gradativa deve ocorrer está na Nova Área de Pudong de Xangai, construída gradualmente desde a década de 1990, com os planos mudando à medida que a economia chinesa cresceu rapidamente durante este período. Geograficamente, o projeto envolve desde cidades maduras, como Tin Shui Wai, Yuen Long, Fanling e Sheung Shui, bem como seis novas áreas de desenvolvimento: Kwu Tung North e Fanling North, Hung Shui Kiu e Ha Tsuen, Yuen Long South, San Tin e Lok Ma Chau, Man Kam To, além da nova cidade do Norte dos Novos Territórios.

Rede de transporte é essencial para a Northern Metropolis

De acordo com Augustine Wong, diretor-executivo da Henderson Land Development, algumas das terras que fazem parte do novo projeto já tinham sido identificadas para desenvolvimento potencial pelo governo chinês. A novidade é que o projeto atual envolve a ideia de uma nova cidade autossustentável e com a presença de empresas de tecnologia, especialmente as indústrias inovadoras e criativas. 

Para Wong, o novo plano da Northern Metropolis é bastante diferente das novas cidades que foram construídas em Hong Kong, especialmente entre os anos 1960 e 1980. Afinal, a primeira geração baseou-se na necessidade de mais terras para o setor fabril e foi seguida por uma onda de projetos por mais moradias públicas. A terceira geração envolveu a criação de novas cidades-dormitório. 

Um dos problemas das cidades desenvolvidas no entorno de Hong Kong é a questão do deslocamento. Muitos residentes de Hong Kong agora viajam da região dos Novos Territórios em direção ao Centro para chegar ao trabalho, o que resulta em trens lotados e estradas congestionadas na direção do sul da cidade em todas as manhãs. No mesmo horário – e em sentido oposto – há uma capacidade ociosa. A Metrópole do Norte ajudará a resolver esse problema, fornecendo cerca de 650 mil empregos no total. Isso deverá atenuar o desequilíbrio do fluxo de tráfego e, ao mesmo tempo, usará a infraestrutura de transporte que já existe.

A rede de transporte, aliás, será a chave para o sucesso do desenvolvimento da Northern Metropolis segundo Chiu Kam-kuen, especialista da Cushman & Wakefield. De acordo com ele, uma nova linha ferroviária norte-sul deve ser adicionada ao plano para que a população do norte possa viajar diretamente para as áreas urbanas do sul. “A infraestrutura é a veia da cidade que cria capacidade e atrai cidadãos para morar e trabalhar na região”, argumentou em artigo do South China Morning Post

Ele destacou também que a Northern Metropolis poderá agregar pelo menos 900 mil unidades residenciais para abrigar cerca de 2,5 milhões de pessoas.

Northern Metropolis também deverá ser autossustentável

Além da criação de novas ligações ferroviárias e rodoviárias, a construção de mais casas e a oferta de novos empregos são propostas importantes. O plano da Northern Metropolis também aponta para conexões muito mais profundas com as cidades do continente da Grande Baía de Hong Kong. 

Para os especialistas envolvidos no projeto, a aposta é de uma remodelação econômica com a atração de novas indústrias para a região. O projeto também teria a capacidade de maior integração da cidade com o continente chinês, processo que vem sendo buscado desde que Hong Kong passou a ser território da China há 24 anos. A integração envolveria a famosa Shenzen, polo dos novos modelos de crescimento do país asiático.

Para Wong, da Henderson Land, a proposta da Metrópole do Norte era um desenvolvimento lógico, dadas as enormes oportunidades através da fronteira e o rápido crescimento da Grande Baía. Ele destaca ainda que as duas cidades vizinhas – Hong Kong e Shenzhen – não devem ser consideradas entidades diferentes ou totalmente separadas. 

Segundo ele, faz sentido ter um plano para Hong Kong em coordenação com Shenzen. Uma das razões é a ocupação das margens do rio Shenzhen: no lado norte da margem há edifícios modernos e comércio ativo, enquanto na margem sul o cenário é de terras verdes não gerenciadas e armazenamento de contêineres. Um plano conjunto vai aproveitar melhor a situação atual das duas cidades.

O aspecto autossustentável da nova região deverá considerar a presença dos pântanos e lagoas de pesca, montanhas e áreas costeiras atuais. O que se espera é um papel mais ativo do governo na gestão das áreas úmidas para melhor proteger a fauna local. As soluções poderão envolver a recuperação de uma pequena proporção dos tanques de pesca, mas sem danificar o meio ambiente em geral. Por um lado, algumas das lagoas de pesca serão usadas para o desenvolvimento, mas, por outro, mais dinheiro será fornecido para proteger ativamente e melhorar as lagoas restantes. 

A proteção ambiental e o desenvolvimento do ecoturismo, aliás, são partes essenciais do plano, que visa aumentar os esforços de conservação e, ao mesmo tempo, permitir que mais pessoas tenham acesso a áreas como o Geoparque de Hong Kong e a Baía Mirs, no leste.

Inteligência artificial e hub de saúde estão nos planos

Os planos para encorajar indústrias inovadoras incluem o “San Tin Technopole”, que inclui o Parque de Inovação e Tecnologia de Hong Kong-Shenzhen e as áreas ao redor de Lok Ma Chau. Este pretende ser um rival do Vale do Silício e é mais de 16 vezes maior do que o Parque Científico de Hong Kong.

O plano inclui um investimento considerável em infraestrutura de transporte, com novos cruzamentos rodoviários e ferroviários, com uma ligação ferroviária entre Hung Shui Kiu e Qianhai no distrito de Nanshan em Shenzhen, e estendendo a conexão planejada para o norte ao novo porto de Huanggang. 

O setor de Inovação Tecnológica (I&T) deve contribuir com a geração de 150 mil empregos, que estão dentro do volume de 650 mil citados anteriormente. Em comparação com a realidade atual, são quase seis vezes mais empregos do que os 116 mil existentes hoje.

Para dar conta dessa demanda, os projetos envolvem a criação de empreendimentos como o InnoLife Healthtech Hub, com foco em áreas como prevenção de doenças, diagnóstico, medicina e micro-robôs cirúrgicos. Essa iniciativa aproveitaria a riqueza de Hong Kong em profissionais clínicos experientes. 

Outra frente seria a Inteligência Artificial, na qual a cidade é mais carente quando comparada com Shenzhen, onde tais tecnologias e aplicativos são desenvolvidos na “velocidade da luz”. A ideia seria investir em P&D, mas envolve desafios como a contratação de profissionais e a comercialização dos softwares. O polo tecnológico , projetado para ocupar uma área bruta total de 1.100 hectares (16,5 vezes o tamanho do Parque Científico de Hong Kong) é apelidado de “Vale do Silício de Hong Kong”.