Maria Salette Weber foi servidora pública de carreira do antigo Ministério do Planejamento durante 35 anos. Por 20 deles foi cedida ao antigo Ministério das Cidades (agora Ministério do Desenvolvimento Regional), onde atuou como Coordenadora Geral do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H), se tornando uma das principais referências brasileiras no desenvolvimento de iniciativas e programas de modernização da construção civil para a melhoria da qualidade e desenvolvimento tecnológico das construções e combate ao déficit habitacional. 

Hoje, ela é consultora especialista em Gestão da Qualidade, Desenvolvimento Tecnológico e Sustentabilidade na construção civil, e leva na bagagem a liderança na criação do Sistema Nacional de Avaliações Técnicas de Produtos Inovadores e Sistemas Convencionais (Sinat), no âmbito do PBQP-H, considerado o “pilar” para a inovação na construção civil para Habitação de Interesse Social, entre outros feitos. Nesta entrevista exclusiva ao Habitability, ela confirma a defesa pelo uso de métodos construtivos com novas tecnologias, ênfase para a construção industrializada e mostra como a inovação tecnológica é imprescindível para atacarmos tanto o déficit habitacional quanto os preceitos de habitabilidade.

Quais são os desafios da habitabilidade?

Há vários, mas eu destaco a integração na implementação dos Programas habitacionais de uma infraestrutura urbana de melhor qualidade. Um dos grandes problemas que as nossas políticas habitacionais enfrentam nos últimos anos é a localização onde são construídas moradias de interesse social. E isso ocorre por conta do custo do solo. É assim no mundo todo, infelizmente, mas há formas de reduzir esse problema e o uso de tecnologias construtivas é uma delas, pois permite o aumento da produtividade, otimizando os custos e atacando, ao mesmo tempo, a questão quantitativa e quantitativa do déficit habitacional com mais eficiência.

tecnologia construtiva

Como as tecnologias construtivas auxiliam?

O uso de tecnologias construtivas é um facilitador para as construções em bairros já existentes, promovendo a mescla de tipos de construções e a inclusão social. Me refiro à integração de moradias de baixa renda a locais onde estão as moradias de alta renda, geralmente mais próximas aos centros urbanos. Isto, aliás, é uma questão de política pública.

Mesmo nas políticas habitacionais de grandes centros urbanos, os conjuntos ficam nas periferias, o que compromete aspectos da habitabilidade, como a dificuldade de locomoção, a distância dos equipamentos urbanos (como escolas, creches, postos de saúde, etc), a falta de espaço de convívio social e outros. Precisamos gerar moradias que transmitam sensação de pertencimento, de integração. Há de se ter muito cuidado com as intervenções sociais muito radicais, que removem as comunidades para outros locais, pois costumam gerar problemas para essas comunidades.

Há modelos bem-sucedidos no Brasil?

Alguns grandes centros urbanos têm tentado atuar na renovação, tanto no nível da construção de novas moradias quanto na recuperação de centros urbanos degradados e  favelas. O centro de São Paulo e as favelas no Rio de Janeiro são exemplos. Não quero aqui pontuar as dificuldades, que são muitas. Mas ressalto do ponto de vista de planejamento urbano, de integração da comunidade. Houve um esforço interessante tanto da população quanto do poder público para que essas ações fossem bem-sucedidas. Agora, falando a nível de Brasil, uma solução também é investir mais em cidades de porte médio. E pouco se fala disso.

Como assim?

Todos focam na ideia de morar em regiões metropolitanas, cujos espaços estão cada vez mais escassos e custam caro. Deveria haver mais estímulo para tornar atrativo, sócioeconomicamente, ao habitante permanecer em cidades menores. Isso torna a questão da habitabilidade mais plausível e desafoga os grandes centros urbanos. Agora, com a pandemia, estamos tendo essa lição. O home office mostrou que as pessoas se interessam por qualidade de vida, vivendo em cidades menores, mas para isso precisam ter acesso a atividades econômicas (emprego) e aos serviços e atividades de convívio social (considerando as recomendações de afastamento social). Isso imprime um grande avanço em relação aos conjuntos habitacionais das grandes cidades, onde os hospitais, os centros comerciais, o lazer, etc., costumam estar distantes.

A qualidade de vida e as condições dos centros urbanos têm de ser contabilizados em todos os aspectos, inclusive os lúdicos e emocionais. Então, a inovação e a tecnologia vêm para nos servir e é uma aliada nesse processo. Me refiro ao uso da tecnologia em todos os seus formatos, desde a conectividade até as soluções de construção, que vão do projeto – transformando coisas que antes eram de difícil confecção em totalmente modeláveis – até a obra em si, com mecanização, supervisão por drones, etc.

Na construção, como está o avanço tecnológico no Brasil?

Diante da crise, infelizmente não temos a celeridade que chegamos a ter quando o Sistema Nacional de Avaliações Técnicas (Sinat) foi lançado, em 2009, e a economia estava aquecida. Mesmo retirando esse aspecto da economia, avançamos pouco porque o setor da construção fica mais cioso de investir em inovação, principalmente aquelas mais paradigmáticas. Em contrapartida, se investe mais em pequenos incrementos, que requerem menor aporte em máquinas, equipamentos e fábricas. Pondero que essa resistência à inovação decorre também pelo sentimento de insegurança econômica, que é legítimo, pois vivemos em constantes crises. 

O que é o Sinat?

O Sinat é um sistema que avalia produtos inovadores utilizados nos processos de construção e que ainda não possuem normas técnicas estabelecidas pela ABNT. Ele atesta a conformidade, garante a qualidade e avalia o desempenho das construções. O sistema também avalia os sistemas convencionais, com o objetivo de contribuir para o atendimento à Norma de Desempenho (ABNT NBR 15.575).

Houve evoluções tecnológicas nos últimos anos?

Sim, e eu esclareço que as tecnologias vêm sendo adotadas. A questão aqui é que elas devem ser ainda mais alavancadas, estimulando o aumento da produtividade na construção civil. Acho que o Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H) ajudou bastante enquanto indutor da modernização do setor, possibilitando que as empresas tivessem mais estímulo para investir na industrialização. Isso foi respaldado por um volume grande de financiamentos que tivemos há alguns anos. Agora, porém, o crédito está prejudicado para estimular a inovação. Mas considero isso circunstancial dada a conjuntura econômica. No todo, porém, a inovação é um caminho sem volta. E não é só no Brasil, mas no mundo todo. Então, mesmo que sejam incrementais, e não totalmente revolucionárias, as inovações tecnológicas sempre se mostram bem-vindas.

drywall

Quais tecnologias de construção avançaram?

Eu destaco o avanço do wood frame. Sou fã dessa tecnologia e desejo que ela continue crescendo. O drywall também avançou bastante, desmistificando conceitos prévios sobre segurança, isolamento térmico e acústico, entre outros. O concreto industrializado, cujo uso vem crescendo já há décadas, ainda pode ser melhor aproveitado, pois é um sistema de ótima qualidade e que ajuda muito no aumento da produtividade, principalmente na industrialização das construções de habitações de interesse social.

Sobre a questão habitacional, quais foram os avanços recentes?

Do ponto de vista quantitativo, foram muitos. Em ordem de grandeza, falávamos de déficit habitacional superior a dez milhões de moradias no início dos anos 2000. Hoje falamos de menos de seis milhões. E isso ocorreu porque houve um investimento grande para a construção de habitação de interesse social, algo que foi aliada a uma medida anticíclica que favorecia a economia. Afinal, o investimento na construção imobiliária gera emprego, que gera renda e que gera obras, demonstrando como o setor aquece a economia.

Nos fale mais dessa cadeia, por favor.

O setor da construção civil é um excelente parceiro para o Estado, pois é responsável por grande parte da geração de emprego e crescimento do PIB. Essa parceria precisa ser reforçada, pois nem o setor privado e nem o público vão resolver o problema sozinho. O envolvimento do usuário final, do morador, também é fundamental. Esclareço que, quando eu falo de poder público, eu me refiro a todos os entes federativos, pois já vimos que não adianta apenas a Caixa Econômica e a incorporadora disponibilizarem o financiamento. É preciso haver envolvimento dos estados e municípios e também das comunidades (beneficiário final) para um atendimento adequado da demanda existente. Além disso, cabe ao poder público desenvolver programas diferentes, tais como o aluguel social, para atacar o déficit habitacional. Cabe a ele também estimular a inovação tecnológica, tendo em vista que a construção civil sempre foi alavancador de empregos, mas, hoje, para termos modernização e produtividade, o setor precisa qualificar e formalizar a mão de obra. E isso requer investimentos em educação e capacitação.

Qual é o papel das empresas nessa relação?

O primeiro é atuar como parceiro junto ao gestor público, demonstrando economicamente como o uso de tecnologias para industrializar a construção é possível e vantajoso. Também deve ser persistente na questão tributária, pois muitas das inovações construtivas travam por isso, devido a uma excessiva tributação ao instalar uma fábrica e também no acesso aos equipamentos e máquinas para a montagem. Se for tributado na fábrica não pode ser tributado novamente no canteiro. Depois, é preciso pensar mais em reciclar, recuperar empreendimentos, ao invés de apenas construir novos. Por isso, no começo desta entrevista, eu destaquei o custo do solo. Em alguns centros, temos prédios deteriorados e o poder público não sabe o que fazer com eles. Com o uso de tecnologias, as empresas de construção podem recuperá-los, gerando habitações a custos interessantes para ela própria, para o comprador, para o poder público e para toda a sociedade.

Quais modelos de negócios você destaca nesse sentido?

Vejo com muito bons olhos os consórcios de empresas de construção imobiliária, de edificações, com empresas de infraestrutura. Isso viabiliza projetos de bairros inteiros, construídos com base em estudos socioeconômicos, que tornam mais atrativas as construções de empreendimentos fora dos grandes centros. Repito que o Brasil tem um mercado enorme de médias cidades, mas se não houver esse planejamento, persistiremos no erro da falta de habitabilidade, concluindo que tivemos muitos empreendimentos abandonados, afastados dos grandes centros e isolados em relação ao acesso a uma infraestrutura adequada. 

Como você avalia o futuro da habitabilidade no Brasil?

Acredito que dependerá em grande parte de uma política que vise a sustentabilidade de nossas cidades. Os instrumentos existem, mas é preciso que o gestor público, os empresários e a sociedade valorizem a imediata adoção de medidas que podem comprometer o futuro de nossas cidades. Não podemos mais adotar soluções que não levem em conta aspectos como as mudanças climáticas, tais como a eficiência energética, ou problemas sociais e a violência urbana. O mesmo vale para as questões tecnológicas, para gerar construções que assegurem maior durabilidade e um bom desempenho para nossas edificações.