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Por que Paraisópolis é mais futuro do habitar que o Morumbi

Pontuando os problemas sociais, o economista Matheus Hector Garcia propõe menos restrições para construções formais e maior adensamento de moradias nos centros das cidades brasileiras

9 de dezembro de 2021 - 2 minutos de leitura

Autor: Redação

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A favela de Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, é a segunda maior do Estado – e uma das maiores do Brasil. A estimativa é que mais de 100 mil pessoas morem lá, apesar de os dados oficiais só registrarem 43 mil. Vizinho, o bairro do Morumbi abriga cerca de 32 mil moradores (aqui a estimativa e os dados oficiais concordam). Ocorre que Paraisópolis – subdivida em cinco bairros internos – ocupa uma área de 0,8 quilômetros quadrados. Já o Morumbi está estabelecido em 11,4 quilômetros quadrados (14 vezes mais).

Essa diferença foi exposta em um artigo escrito pelo economista Matheus Hector Garcia, publicado inicialmente no site Caos Planejado e depois reverberado em outras mídias. A defesa dele é que Paraisópolis tem mais a ensinar ao Morumbi do que o contrário quando o assunto é planejamento para moradias do século XXI.

Paraisópolis tem mais a ensinar ao Morumbi do que o contrário

O bairro do Morumbi, projetado nos anos 1920, consiste em uma área de grandes espaços verdes, planejada para ser uma espécie de condomínio de luxo com grandes casas unifamiliares. Com o tempo, surgiram os prédios, que foram ocupando o próprio bairro do Morumbi e outros adjacentes, como o Panamby. Isso, contudo, não tirou a característica de região pouco densa (habitada), em razão das grandes áreas verdes – e pouco frequentadas – que permaneceram.

Em Paraisópolis, consideradas as condições precárias de infraestrutura e saneamento básico, há uma densidade demográfica de 125 mil pessoas por km quadrado, enquanto no bairro vizinho são apenas 3 mil hab/km². Garcia não propõe, obviamente, que as dificuldades de moradia de Paraisópolis sejam transportadas ao Morumbi e outros bairros nobres. Em trocadilho, ele diz inclusive que Paraisópolis não tem nada de paraíso. A sua defesa é sobre as limitações impostas às construções de moradias nas cidades brasileiras, o que gerou extremos como o Morumbi e Paraisópolis.

Isso, disse ele, reduz a oferta de imóveis nas principais regiões da cidade e limita as construções imobiliárias, inflacionando os preços e tornando os imóveis bem localizados inacessíveis para grande parte da população. “Se um cidadão não tem condições de comprar o produto mínimo permitido no mercado formal, lhe resta apenas as alternativas do mercado informal (favelas). A revisão dessas regras [de construção] é medida importantíssima para a democratização das cidades brasileiras no século XXI”, escreveu ele.

Em suma, esta é a lição de Paraisópolis e outras favelas brasileiras: “quando tiramos as restrições para a construção, a tendência das grandes cidades é aproveitar os terrenos da melhor maneira possível, promovendo o adensamento em áreas bem localizadas”.

Garcia faz uma projeção de que, se a cidade de São Paulo tivesse a densidade da favela de Paraisópolis, cerca de 23,6 milhões de pessoas (o dobro dos habitantes de São Paulo atualmente) poderiam morar nas regiões mais desejadas, próximas ao centro. “E nem o Morumbi e nem Paraisópolis existiriam neste cenário, já que ambos bairros têm a mesma causa: criamos uma série de restrições para se construir e a cidade começou a espraiar para longe do centro”, defendeu ele.