A pegada ambiental da IA: entre custos ocultos e oportunidades verdes

Apesar da retórica da “nuvem”, a IA depende de uma base material robusta. Saiba como ela funciona e impacta as cidades.

Por Marcia Tojal em 12 de fevereiro de 2026 3 minutos de leitura

Ciclovia ativa em uma rua movimentada de uma cidade, com ciclistas, pedestres, sinalizações e clima de calor de 30°C, destacando a pegada ambiental da IA na mobilidade sustentável.
Foto: Alf Ribeiro/ Shutterstock

Ainda é madrugada quando a cidade começa a se mover. Antes que o primeiro ônibus dobre a esquina, sensores ajustam semáforos, algoritmos recalculam rotas e sistemas antecipam picos de consumo de energia. Nada disso é visível a olho nu. A inteligência artificial, cada vez mais integrada à gestão urbana, opera nesse plano silencioso do cotidiano automatizado. Mas a pegada ambiental da IA é marcada por uma infraestrutura de alto consumo energético, uso intensivo de água e concentração tecnológica. A pergunta não é apenas o que a IA faz pelas cidades, mas que tipo de cidade ela ajuda a construir e, principalmente, a que custo.

Infraestrutura invisível e a pegada ambiental da IA

Apesar da retórica da “nuvem”, a IA depende de uma base material robusta. Data centers funcionam 24 horas por dia para processar volumes crescentes de dados urbanos. Segundo a International Energy Agency (IEA), essas instalações já representam cerca de 1% do consumo global de eletricidade, com tendência de crescimento acelerado impulsionada por aplicações de inteligência artificial e aprendizado de máquina.

O impacto climático dessa infraestrutura começa a ser quantificado pela ciência. Um estudo publicado na revista Nature, intitulado Carbon emissions of large neural network training, demonstrou que o treinamento de grandes modelos de IA pode gerar emissões de carbono comparáveis às de atividades industriais intensivas, especialmente quando realizado em regiões com matrizes energéticas baseadas em combustíveis fósseis.

Análises recentes da MIT Technology Review reforçam que a popularização da IA generativa ampliou significativamente a demanda computacional, tornando o consumo energético um dos principais gargalos ambientais da tecnologia.

Água, território e pressão sobre recursos urbanos

Centro de dados com monitor exibindo código e análise de pegada ambiental de IA, destacando a importância da sustentabilidade na tecnologia.
Foto: DC Studio/ Shutterstock

Além da energia, a operação de data centers exige grandes volumes de água para resfriamento, grandes responsáveis pela pegada ambiental da IA. Relatório da UNESCO alerta que o uso crescente de IA pode intensificar disputas por recursos hídricos, sobretudo em áreas urbanas sujeitas a estresse hídrico, agravando desafios de sustentabilidade e governança.

De acordo com matéria do The Guardian, em regiões afetadas por secas, data centers passaram a competir diretamente com os abastecimentos urbano e agrícola, levantando questionamentos sobre justiça ambiental e planejamento territorial.

IA como aliada da eficiência urbana e da ação climática

Por outro lado, a IA também vem sendo apresentada como ferramenta estratégica para enfrentar desafios ambientais nas cidades. O relatório Harnessing AI for the Earth, do World Economic Forum, aponta aplicações que incluem otimização de transporte público, redução de perdas energéticas, monitoramento ambiental em tempo real e apoio a políticas de economia circular.

No campo do planejamento urbano, a UN-Habitat defende que tecnologias inteligentes podem contribuir para cidades mais resilientes e inclusivas, desde que orientadas por princípios de centralidade nas pessoas, transparência e governança democrática.

Desigualdade digital e riscos sociais

Vista aérea de condomínios altos e área residencial de baixa demanda em uma cidade brasileira, com muitas áreas verdes ao fundo.
Foto: Paulo Pampolin/ Shutterstock

Os benefícios da IA, no entanto, não se distribuem de forma uniforme. O Human Development Report 2023/2024 (UNDP), destaca que a adoção desigual de tecnologias inteligentes pode aprofundar assimetrias urbanas, criando territórios hiperconectados ao lado de áreas excluídas dos serviços digitais.

Pesquisas do instituto Data & Society indicam que o uso de sistemas algorítmicos em políticas públicas pode reproduzir ou até aprofundar desigualdades sociais quando esses sistemas operam sem critérios claros de auditoria, transparência e controle social. Nesses casos, decisões automatizadas tendem a refletir vieses já presentes nos dados e nas estruturas institucionais, afetando de forma desproporcional determinados grupos e territórios urbanos.

Caminhos para uma IA mais verde e responsável

Diante desse cenário, cresce o debate em torno da chamada Green AI, que propõe reduzir a intensidade energética dos sistemas desde a fase de projeto. A Green Software Foundation reúne empresas e pesquisadores em torno de métricas de carbono, eficiência computacional e boas práticas no desenvolvimento de software e IA.

No campo regulatório, a European Commission avança com o AI Act, marco legal que incorpora preocupações éticas, sociais e ambientais ao uso da inteligência artificial, com impactos diretos sobre sua adoção em serviços urbanos.

Relatórios como o AI Index Report, da Stanford University reforçam a necessidade de monitorar não apenas o desempenho da IA, mas também seus efeitos sistêmicos sobre energia, emissões e sociedade.

Entre promessa e responsabilidade

A inteligência artificial tem potencial para tornar as cidades mais eficientes e adaptadas às mudanças climáticas, mas seus impactos mostram que não existe tecnologia neutra ou desmaterializada. A sustentabilidade da chamada cidade inteligente dependerá menos da sofisticação dos algoritmos e mais da capacidade de integrar tecnologia, planejamento urbano e justiça socioambiental. Entre custos ocultos e oportunidades verdes, a IA coloca um desafio central para o futuro urbano: transformar eficiência tecnológica em benefício coletivo real, sem deslocar impactos para fora do campo de visão.

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