À medida em que as cidades se tornam mais densas e complexas, alguns desafios crescem em silêncio. Entre eles, a gestão de resíduos orgânicos produzidos por animais de companhia, um tema raramente tratado como política urbana, embora faça parte do cotidiano de milhões de pessoas. Cães e gatos ocupam hoje um lugar central na vida das famílias, impactam positivamente na saúde mental, na convivência e até na forma como se experimenta o espaço urbano. Mas essa relação também gera impactos que exigem soluções à altura da cidade contemporânea.
Em Medellín, na Colômbia, esse desafio foi encarado como uma oportunidade. O que antes seria apenas um problema de saneamento passou a integrar uma estratégia mais ampla de bem-estar animal, gestão ambiental e paisagem urbana. No Centro de Bem-Estar Animal La Perla, as fezes de milhares de cães e gatos deixam de ser descartadas como lixo e passam por um processo de compostagem, que as transforma em adubo utilizado nas áreas verdes da cidade. Mais que uma iniciativa ambiental, trata-se de uma mudança de perspectiva: entender que políticas de cuidado com os animais, com o solo e com o espaço público, também são infraestrutura.
La Perla no centro de políticas públicas

O Centro de Bem-Estar Animal La Perla é hoje o maior abrigo para animais de companhia do departamento de Antioquia e funciona como uma peça estratégica da engrenagem urbana da cidade de Medellín. Ali, o cuidado com cães e gatos vai além do resgate e da assistência veterinária: ele se conecta diretamente à saúde pública, à educação ambiental e à gestão de resíduos.
La Perla recebe diariamente animais feridos, atropelados, vítimas de maus-tratos, além de fêmeas gestantes, lactantes e filhotes. O centro oferece atendimento clínico completo, internações, cirurgias, esterilizações, abrigo temporário e ações de incentivo à adoção. Só no último ano, mais de 1,6 mil animais de companhia em situação de abuso ou abandono passaram pelo local.
Mas o papel de La Perla não se limita à proteção animal. O centro também atua como um laboratório de práticas ambientais, testando soluções que respondem a desafios urbanos reais. Em um espaço que abriga cerca de 2 mil a 2,5 mil cães e gatos, a gestão adequada dos resíduos deixa de ser um detalhe operacional e se torna parte central da estratégia de cidade, abrindo caminho para uma abordagem inédita de saneamento e paisagem urbanos.
A compostagem de fezes de animais
A resposta encontrada em La Perla foi tratar as fezes dos animais como matéria-prima. O processo começa com a mistura dos resíduos com madeira serrada e utensílios de madeira, o que evita a lixiviação e ajuda a manter a estrutura do material. Em seguida, essa mistura é depositada em composteiras especialmente projetadas, onde permanece em decomposição por um período de 28 dias. Durante esse tempo, a temperatura interna chega até 80 °C, nível suficiente para eliminar bactérias e microrganismos nocivos, tornando o composto final seguro para uso urbano.
A estrutura física do sistema inclui cubículos distribuídos por sete áreas de compostagem, cada um com capacidade para três metros cúbicos. Esses espaços foram pensados para permitir a circulação de ar, ao mesmo tempo em que retêm odores no interior. O controle da umidade é feito com o uso de carvão vegetal e nitrogênio, garantindo um processo estável e eficiente. O resultado é um ciclo fechado que transforma um resíduo sensível em insumo ambiental, alinhando saneamento, gestão de resíduos e economia circular.
Adubo para áreas verdes e solução de saneamento

A cada mês, o sistema de La Perla produz cerca de 30 mil quilos de fertilizante orgânico, utilizado exclusivamente em árvores não frutíferas e em projetos de paisagismo. O que antes representava um desafio de saneamento passa a contribuir diretamente para a manutenção e a expansão das áreas verdes de Medellín.
Além de reduzir o volume de resíduos destinados ao descarte convencional, a iniciativa diminui a necessidade de fertilizantes industriais e otimiza o uso de recursos públicos. O adubo produzido retorna ao solo urbano, melhora suas condições e fortalece a infraestrutura verde, elemento cada vez mais central para cidades que enfrentam ilhas de calor e eventos climáticos extremos.
Medellín e a construção de uma política pública integrada

A experiência de La Perla é parte de um movimento mais amplo de Medellín para incorporar o bem-estar animal às políticas públicas da cidade, tratando o tema como uma questão social, ambiental e urbana. Em 2019, o município criou a Subsecretaria de Proteção e Bem-Estar Animal, consolidando uma estrutura dedicada ao cuidado, à proteção e à convivência responsável entre pessoas e animais no espaço urbano.
Desde então, a capital de Antioquia vem investindo de forma contínua em programas que vão além do resgate e da adoção. Campanhas de controle populacional de cães e gatos, diretrizes para a interação respeitosa com pombos, cuidados com animais de grande porte e ações educativas passaram a integrar uma agenda que reconhece os animais como parte do ecossistema urbano.
Esse posicionamento colocou Medellín na vanguarda do tema na Colômbia e abriu caminho para a cooperação entre cidades. A assinatura de memorandos de entendimento com municípios como Bogotá, Cali, Barranquilla, Popayán e Villavicencio, além do departamento de Cundinamarca, formalizou o compromisso de compartilhar conhecimento, estratégias e aprendizados. Dessa forma, problemas urbanos complexos podem ter soluções colaborativas, e a proteção animal, quando integrada ao planejamento da cidade, pode gerar benefícios que vão muito além desse campo específico.
Cuidar da vida como compromisso urbano
A política de bem-estar animal em Medellín tem um eixo claro: cuidar dos animais é também cuidar da cidade e das pessoas que a habitam. Para o prefeito Daniel Quintero Calle, essa visão parte do reconhecimento dos papéis afetivo e social dos animais de companhia na vida urbana. Em evento oficial, Quintero salienta que cães e gatos ensinam sobre respeito, sentimentos e empatia, valores que, quando incorporados às políticas públicas, ajudam a construir cidades mais humanas.
Esse entendimento é compartilhado pela Subsecretaria de Proteção e Bem-Estar Animal. Ao destacar o processo de compostagem realizado em La Perla, a subsecretária Diana Marcela Santacruz ressalta que a iniciativa resolve simultaneamente um problema de saneamento e uma questão ambiental, ao transformar um resíduo sensível em adubo utilizado nos jardins e árvores não frutíferas da cidade. Para ela, o reconhecimento internacional recebido pelo centro reforça o compromisso de Medellín com soluções urbanas responsáveis e integradas.
Aliás, a experiência desenvolvida em La Perla ultrapassou os limites de Medellín e passou a ser reconhecida como uma referência em práticas ambientais aplicadas ao bem-estar animal. A iniciativa, pioneira na Colômbia, foi selecionada para integrar o livro Medicina de Abrigo: Princípios e Diretrizes, publicação da Universidade Federal do Paraná, que reúne experiências inovadoras de diferentes países.
Esse reconhecimento acadêmico reforça não apenas a eficiência técnica da compostagem de fezes de animais, mas também seu potencial de replicabilidade em outros contextos urbanos. A compostagem das fezes de cães e gatos passa a ser compreendida como uma solução possível para cidades que lidam com desafios semelhantes de saneamento, gestão de resíduos e manutenção de áreas verdes.
O que o Brasil já faz e o que ainda pode aprender

Embora a compostagem de fezes de cães e gatos em escala pública ainda seja rara no Brasil, diversas cidades já avançam na ideia de tratar resíduos orgânicos como parte da infraestrutura urbana, princípio que sustenta a experiência de Medellín.
Em Belo Horizonte, o Serviço de Limpeza Urbana opera um programa municipal de compostagem que converte restos orgânicos em adubo utilizado em praças, parques e jardins públicos. O composto gerado retorna ao território como solo mais fértil e espaços públicos mais qualificados.
Em Curitiba, a gestão de resíduos orgânicos está integrada a uma visão mais ampla de planejamento urbano. Programas como o COM-POS-TE incentivam a compostagem doméstica e comunitária, reduzem a pressão sobre aterros sanitários e fortalecem a educação ambiental como parte da vida cotidiana.
Já São Paulo tem avançado por meio de iniciativas de compostagem associadas a feiras livres, podas urbanas e projetos comunitários. Em um contexto de alta densidade, esses pátios de compostagem demonstram que é possível operar sistemas de tratamento de orgânicos mesmo em metrópoles complexas, criando insumos para áreas verdes e reduzindo o volume de lixo destinado a aterros.
Essas experiências indicam que o caminho já está sendo trilhado no Brasil, ainda que de forma fragmentada. O caso de Medellín demonstra que cidades mais habitáveis surgem quando políticas de cuidado, saneamento e meio ambiente passam a conversar entre si. Até mesmo aquilo que parecia irrelevante ou incômodo, como as fezes de animais, pode se tornar parte da solução urbana quando tratado com método, escala e visão de cidade.