Haydée Svab: a engenheira que virou cientista de dados. E quer mudar as cidades

Haydée Svab migrou da engenharia para o urbanismo e encontrou na análise de dados a forma de trazer a diferença para os espaços urbanos.

Por Camila de Lira em 11 de outubro de 2022 5 minutos de leitura

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Haydée Svab vive entre números, linguagem de programação, dados, modelos matemáticos, mapas de transporte e, mais recentemente, risos do seu filho mais novo, o pequeno David. Como fio condutor que une a trajetória da pesquisadora da Universidade de São Paulo, cientista de dados, especialista em democracia participativa pela UFMG, membro do Conselho Deliberativo da Associação dos Engenheiros e Arquitetos do Metrô de São Paulo e atual membro do conselho curador do primeiro Prêmio Habitability, está a cidade. “O urbanismo foi onde a engenharia e a arquitetura se encontraram para mim e onde tudo que aprendi fez sentido”, lembra Haydée, que iniciou sua carreira estudando simultaneamente, engenharia civil e arquitetura na USP, e viu nas disciplinas de transporte um caminho para entender o mundo.

Logo depois, trabalhou na Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô-SP), com fiscalização de obras, gestão de projetos e planejamento. Nesse meio tempo, a engenheira, que foi a primeira mulher presidente do tradicional Grêmio Politécnico da USP, iniciou seu mestrado em que abordou análise de gênero e mobilidade urbana. 

Foi nesse momento que Haydée entrou em contato com a ciência de dados. Na pesquisa ela analisou os padrões de mobilidade das mulheres na região metropolitana de São Paulo. “O Excel não dava conta da quantidade de dados e eu precisava de uma forma mais eficiente de trabalhar com volumes maiores. Foi então que comecei a programar, a me aprofundar na análise de dados”, comenta a pesquisadora. 

Para ela, a mobilidade urbana é senão uma forma de lutar em favor de uma causa mais importante: o acesso democrático a direitos. “As mulheres se deslocam na cidade de uma forma diferente dos homens, mais ligada à economia do cuidado. São elas que carregam os filhos, levam familiares para o médico, fazem compras para a família, constituindo padrões particulares de deslocamento. Assim, seja uma calçada esburacada até uma estação de metrô longe, seja um aumento de tarifa,  isso vai afetar mais as mulheres, e ainda mais as mulheres negras e periféricas. E pode impedi-las de acessar outros direitos na cidade, como saúde, educação, trabalho, etc.”, aponta Haydée. 

Mulheres e a cidade

Na visão de Haydée, as cidades inteligentes do futuro terão que, cada vez mais, colocar no foco as pessoas considerando suas especificidades, o que passa por entender como os diferentes grupos sociais se movem pela cidade. E isso significa considerar que mulheres, por exemplo, usam a cidade de maneira diferente que homens. “Quando se faz planejamento urbano e de transporte, existe um equívoco: pressupor que há um sujeito neutro, um ‘homem universal’. E historicamente desenhamos e estudamos transportes a partir dessa premissa. Isso acaba gerando estratégias imprecisas, pois se constrói esse “cidadão genérico” que mascara as diferenças dos grupos sociais e dos gêneros”, explica Haydée.

Olhar para a mobilidade feminina inclui incorporar a chamada “economia do cuidado” no planejamento das cidades. Uma pessoa ir fazer compras para si mesma, em um shopping, é diferente de uma chefe de família fazer compras de alimento do mês para a casa, fala a cientista de dados. Os modelos clássicos de análise de mobilidade, no entanto, contabilizam igualmente essas duas naturezas de viagens como “deslocamento para compras”, invisibilizando as atividades de cuidado como tal.

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“Só ao reclassificar o motivo de viagem, a mobilidade do cuidado pode ser segundo ou terceiro maior motivo de deslocamento nas cidades. E assim é possível começar a enxergar o trabalho invisível das mulheres, a tal da jornada dupla ou tripla, que não é remunerada”, aponta a pesquisadora, ao se referir a um estudo madrileno que fez essa reclassificação

Dados e a cidade (inteligente), segundo Haydée Svab

Antes de falar de como a diversidade deve ser contabilizada pela cidade do futuro, Haydée aponta que é preciso dar um passo atrás: pensar em como os dados são captados. “Atualmente a gente coleta muitos dados do mesmo fenômeno. Por exemplo, várias cidades captam o deslocamento dos celulares a partir dos apps. E muitas vezes esses são dados das mesmas pessoas, que respondem às mesmas perguntas. Mas como ficam os grupos mais vulneráveis? Aqueles que não têm celular? Aqueles para quem os serviços públicos precisam ser endereçados? É preciso ter cuidado para não invisibilizar populações ou questões importantes por omissões na coleta de dados”, recomenda a pesquisadora.

Portanto, o futuro de cidades inteligentes não deve se tratar de ter mais pontos para coletar os mesmos dados de sempre, e sim de fazer as perguntas certas para os números que já temos. Ou ainda, apontar quais são os vazios de dados que precisamos explorar. “Quais são as perguntas que a gente vai fazer para coletar os dados? Como isso vai se transformar em informação útil? E para quem?”, questiona a especialista em smart cities.

A coleta de dados feita sem esse olhar crítico acaba por disseminar os preconceitos e os vieses da sociedade, como o que acontece com alguns algoritmos de inteligência artificial (IA). Nos Estados Unidos, houve pressão para que a Amazon deixasse de usar o algoritmo de análise de currículos porque perceberam que a plataforma estava favorecendo candidatos homens e brancos. “Os dados ensinam para a máquina os nossos preconceitos. A IA aprende e aprofunda o que a gente ensina. Ela reflete o que já estava ali. Como eu treino o algoritmo? Como coleto e seleciono dados melhores para o treinamento de algoritmos, de forma a mitigar esses vieses?”, pondera Haydée. “Cidades inteligentes, sustentáveis e resilientes precisam ter a cidadã e o cidadão no centro das suas decisões, considerando os conjuntos de diversidades física, racial, de gênero e de orientação sexual. A tecnologia é um meio. A camada digital da cidade deve servir para melhorar a qualidade de vida das pessoas que moram ali”, lembra ela. 

Aumentar o acesso das pessoas a serviços digitais também deve ser um objetivo das cidades inteligentes. Na visão de Haydée, os dados só não podem ser utilizados para promover mais exclusão dentro das cidades. Serviços como praças de wi-fi de graça e garantia de conexão de banda larga para toda a população deveriam voltar para as políticas municipais e federal.   

Falar de coleta de dados também é falar sobre privacidade. “Existiu um debate recente sobre o uso de reconhecimento facial no metrô, e essa é uma discussão que precisa ser feita pela sociedade. Precisamos discutir mais a implicação dessa tecnologia para a segurança pública, para o comércio e para a vida das pessoas. A tecnologia não é neutra, e a cidade precisa garantir um processo participativo e de governança para dar aos cidadãos e cidadãs o poder de garantir seu direito à privacidade”, conclui.