O dinamarquês Peter Kronstrøm estudou comunicação entre pessoas e organizações na Escandinávia, com MBA em Buenos Aires, na Argentina. Trabalhou com integração cultural de empresas e pesquisa de mercado, auxiliando na tomada de decisões estratégicas e também morou na Austrália, além de ter viajado para diferentes partes do mundo durante um período sabático, de autoconhecimento.

Veio ao Brasil em 2011, e aqui vive até hoje. “A minha história com o Brasil foi de amor à primeira vista. Porém, terminado o período de ‘lua de mel’, resolvi representar o Instituto de Copenhagen de Estudos Futuros (CIFS) na América Latina, especialmente no Brasil. Na minha opinião, esta já é uma grande demonstração do que devemos esperar para o futuro”, diz ele. 

Segundo Peter, que é head do CIFS para a América Latina, o instituto enxerga que o Brasil tem diferenciais, como flexibilidade para viver com grandes incertezas e a convivência com a natureza e povos indígenas, que serão essenciais para o futuro das cidades e do planeta. Veja os principais pontos da entrevista, cedida com exclusividade ao Habitability.

Como o Brasil está se preparando para o futuro?

Peter Kronstrøm – O Brasil já é o país que vive o futuro ou, ao menos, o padrão do futuro. Isso não é o futurismo [implícito quando chamam o Brasil de país do futuro], mas sim a vivência do futuro de fato. Esta avaliação é sobre a ocupação urbana, já que mais de 85% das moradias brasileiras estão em cidades com mais de 100 mil habitantes. Na Europa, essa proporção é de até 45%, e a tendência, mapeada pela ONU, é que o resto do mundo siga os padrões brasileiros.

Há previsões de que São Paulo e Rio de Janeiro vão estar conectados, assim como boa parte da costa brasileira, criando um grande corredor de cidades.

 Você quer dizer que somos um laboratório para o futuro do habitar?

Peter Kronstrøm – Isso! Alguns dizem que a tendência é despachar a população para zonas rurais, mas a é o oposto, pois a urbanização é uma das tendências mais estáveis. Seremos muito surpreendidos se o mundo desurbanizar, pois, se olharmos de maneira sustentável para o futuro, não há potencial para bilhões de pessoas viverem na natureza.

Estatisticamente, esse movimento de urbanização é naturalmente comprovado, só que a mudança nesse  período de pandemia gerou questionamentos. Avaliamos que a prática de pessoas buscando casas fora dos centros urbanos é pontual. Porém, com o trabalho híbrido, é claro, teremos mais desse potencial desenvolvido para que as pessoas vivam em áreas mais afastadas. Mas isto não é uma macrotendência.

veiculo eletrico

Como a mobilidade deve se adequar a esse futuro?

Peter Kronstrøm – Com o desenvolvimento de mobilidade e transporte nos próximos 20 anos, cerca de metade dos veículos do planeta serão robôs (autônomos). E quando temos o carro autônomo e eletrificado, a tendência é que passemos a transportar mais e a ter mais liberdade.

Com o carro autônomo, as pessoas não estão presas ao volante e a nossa análise é que os centros urbanos vão crescer mesmo que as pessoas tenham de ficar longos períodos em veículos, que se transformarão em um espaço de laser, de estudos, de trabalho, de relaxamento… Enfim, o tempo de transporte não será mais um tempo perdido. Além disso, a autonomia fará com que os percursos sejam otimizados, aliviando o problema do tráfego intenso.

Isto deve mexer com configurações de regiões no Brasil?

Peter Kronstrøm – Provavelmente. Há previsões de que São Paulo e Rio de Janeiro vão estar conectados, assim como boa parte da costa brasileira, criando um grande corredor de cidades. Ou seja, com o aumento da população, devemos ver o surgimento de megacidades, com 100 milhões ou mais de habitantes.

Uma das linhas de pesquisa do CIFS é sobre o futuro do Design Global, em atendimento ao que se chama de “Era do Design Pós-Humano”. Você pode definir esses conceitos e explicar como eles podem influenciar o futuro do habitar?

Peter Kronstrøm – O pós-humano diz respeito à cidade do futuro ser orientada a facilitar a vida das pessoas. Ou seja: o foco do design urbano passa a ser o bem-estar do ser humano. Um dos grandes impactos disso é a mobilidade, conforme vínhamos comentando. Nesse sentido, as cidades da Europa estão em um caminho interessante, onde não há carros nos centros, que viraram espaços de convivência cada vez mais intensos.

Durante a pandemia, as pessoas ficaram muito tempo em casa, valorizando o lar. Alguns viraram pais de plantas e mudaram a estrutura da residência para criar o próprio escritório em casa. Essa nova estrutura passou a ser um desafio para os designers, no sentido de como tornar determinados espaços úteis e aconchegantes, evitando que as pessoas criem escritórios no próprio quarto e se isolem, desencadeando problemas de saúde e convivência.

Os prédios também ganharam espaços multiuso, como coworking e salas de ginástica. Isso representa o Design Global, que será cada vez mais comum nas moradias do futuro e nas cidades regenerativas, com reaproveitamento de lixo orgânico em hortas comunitárias e individuais, reuso de água, autogeração de energia, etc. Enfim, as moradias do futuro precisam ser autossustentáveis e isso foi valorizado durante a pandemia, quando as pessoas passaram mais tempo em casa.

Até 2050 vai ser estabelecida a quantidade da população mundial, depois disso ela vai diminuindo.

As pessoas também retomaram o interesse em ser dono das moradias, após essa experiência da pandemia?

Peter Kronstrøm – Houve esse movimento sim, mas não é macrotendência também. A longo prazo, a tendência é que o cidadão opte cada vez mais pelo que chamamos de “liberdade de ser dono”. Ou, em outra ótica, as pessoas serão donas de curto prazo. No Brasil, talvez isso aconteça um pouco depois dos Estados Unidos e Europa, mas, de modo geral, as novas gerações valorizarão mais um smartphone ou algo multimídia que lhes dão acesso a diferentes tipos de casas, carros e outros pertences.

Esse movimento deve atrasar no Brasil por conta da instabilidade econômica?

Peter Kronstrøm – A instabilidade econômica mexe com isso sim e prolonga o “sonho” de ser dono de casa, de carro, etc. em muitas pessoas que têm o medo natural de ficarem à mercê da própria sorte. Mas, com a chegada das criptomoedas e outros sistemas descentralizados, essa cultura vai se modificando. E não se trata de uma questão geracional, pois são movimentos que se encaixam em todas as relações. O comportamento em relações, aliás, é vinculado às experiências, e as gerações têm experiências acumulativas, de modo que os jovens sêniores, por exemplo, também incorporam o mundo digital, e isso vai se estendendo às compras online, ao automóvel como serviço e a todo o ambiente descentralizado.

centro urbano

Os  centros urbanos tendem a crescer até 2050, mas também há uma corrente de que eles serão descentralizados. Como explicar essa divergência?

Peter Kronstrøm – Até 2050 vai ser estabelecida a quantidade da população mundial, depois disso ela vai diminuindo. As cidades, proporcionalmente, devem convergir e isso dependerá dos padrões de mobilidade e estilos de trabalho. Mas a previsão é que, viver em contado com a natureza e se tornar autossustentável na produção de comida, será algo possível apenas para uma classe bem privilegiada. Em paralelo, com as mudanças climáticas e o entendimento global sobre a importância da natureza, povos nativos serão cada vez mais designados como responsáveis por viver e preservar a natureza silvestre, com as cidades ampliando investimentos para eles. Nada disso está escrito em pedra, obviamente, mas pauta uma tendência de que as moradias estarão cada vez mais concentradas em centros urbanos. 

Acreditamos que a moradia será muito mais lifestyle: um tipo quando se é jovem, outro quando é casado sem filhos, ou casado com crianças, etc.

O avanço do 5G tem papel nesse contexto?

Peter Kronstrøm – A aplicação de 5G vai aumentar exponencialmente as possibilidades de conectividade e de serviços ligados a isso, como o monitoramento de segurança e a telemedicina. Há muitas soluções de privacidade de dados e reconhecimento facial, entre outras, que vão ser disponibilizadas para o bem e para o mal da saúde preventiva, da segurança, do monitoramento de trânsito e de climas. A integração desses serviços precisa ser desenvolvida pelo estado em conjunto com empresas privadas, e o mais importante é que os dados sejam disponibilizados para que vários fornecedores desenvolvam soluções como aplicativos de transportes, de medição de água e esgoto, de telemonitoramento para medicina, etc. Isso tudo, vinculado ao conceito de smart cities, se torna um facilitador para as cidades regenerativas, com uma infraestrutura baseada em centros de controle, semelhante ao que o Rio de Janeiro implementou recentemente.

Então o Centro de Operações da prefeitura do Rio exemplifica o papel do poder público nas cidades do futuro?

Peter Kronstrøm –  O poder público é essencial para não nos tornarmos um big brother, no sentido original [da obra de George Orwell]. Afinal, a ciência e a análise de dados são muito boas para prevenir crimes e outras situações, mas isso levanta questões ligadas à privacidade, evitando que os dados sejam compartilhados. Cabe ao poder público essa função.

Há anos falamos que a solução de reconhecimento facial está muito próxima de conectar dados para leitura do estado de espírito das pessoas. Com isso, se mapeia os estilos de vida delas, tornando fácil manipulá-las em certo grau. Nós prevemos que em menos de cinco anos isso estará estabelecido e atuamos fortemente em defesa dos direitos humanos para controlar essas e outras tecnologias.