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O que significa o “E” de ESG? Para Fábio Alperowitch é “ética”

Sócio e fundador da FAMA, Alperowitch pede profundidade e ética nas discussões sobre ESG.

6 de junho de 2022 - 4 minutos de leitura

Autor: Redação

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O que há por trás do ESG? Para Fábio Alperowitch, sócio fundador da FAMA Investimentos e um dos pioneiros em abordar o assunto no Brasil, a essência e a ética devem ser o norte. E qual é essa essência? “Entender que não temos o direito de roubar o futuro das próximas gerações”, disse ele.

Além disso, adaptar a abordagem à realidade onde se está é essencial. “Claro que a mudança climática é importante, mas existem dificuldades maiores que o Brasil precisa encarar. A pauta local deveria focar mais no S e menos no ‘carbono neutro’, pondera o executivo da FAMA, que tem foco em ESG desde os anos 1990, atualmente com R$ 1,7 bilhão sob sua gestão. 

Para Alperowitch, pensar no “porquê” e não no “como”, torna o ESG mais natural para as companhias. Mas, por ser uma pauta recente, ainda há um caminho tortuoso que liga a sustentabilidade à rentabilidade. E ele vai além dos ritos e práticas. Confira na entrevista a seguir:

Por que, atualmente, as ações de ESG das empresas são confundidas com ações de marketing?

Fábio Alperowitch – O assunto ESG não era mainstream até pouco tempo atrás. Era um tema nichado. Principalmente no Brasil, ninguém queria saber disso. O público interessado não era investidor, nem C’Level. Mas, por uma série de razões, houve uma virada rápida: o tema, de repente, foi alçado para os Conselhos e diretorias das empresas – áreas que estavam muito distantes da temática.

Há cinco anos, uma empresa que se dizia sustentável não ganhava um real a mais. Não valia mais crédito no banco, não tinham fundos querendo investir… não fazia a menor diferença para a empresa ser ou não sustentável. Mas, a partir do momento que o crédito ficou mais barato para as companhias ESG, a necessidade de se estar colado com essa pauta também emergiu rapidamente. Hoje há uma intencionalidade que não existia há 3 ou 4 anos.

E essa intencionalidade é o que causa o greenwashing: as empresas criando narrativas ou ações pontuais para serem percebidas como sustentáveis, quando, na verdade, fazem nada ou pouco. E quando encontram um público que não conhece bem o tema, ele aplaude. 

Eu não duvido que se amanhã o “trending topic” do mercado mundial for qualquer outro, tipo biotecnologia, vai ter um monte de empresas que vão tirar o chapéu ESG e colocar o chapéu de biotecnologia. 

O ESG acabou sendo uma preocupação “importada” dos mercados dos Estados Unidos e Europa. O que isso significou para o Brasil?

Fábio Alperowitch – O brasileiro importou agendas de fora sem considerar o que era e é pertinente ao mercado doméstico. Questões importantes como desigualdade social, transfobia, racismo, machismo, acidentes de trabalho… A gente não olhou para isso. Em vez disso, olhamos para a agenda internacional, que é mais focada em emissão de gases e mudanças climáticas. Claro que a mudança climática é importante, mas existem dificuldades maiores que o Brasil precisa encarar. A pauta local deveria focar mais no “S” e menos no “carbono neutro”. Não estou falando que olhar para a emissão de carbono é negativo, mas dependendo da empresa e do setor, a preocupação com o social é muito mais relevante.  

Como as grandes empresas podem liderar a mudança do mercado com relação ao ESG e à sustentabilidade?

grandes empresas

Fábio Alperowitch – Existe uma dicotomia falaciosa de que ou as empresas são responsáveis ou elas são rentáveis, que não dá para ser as duas coisas. Tem-se a ideia de que a empresa que segue o caminho da responsabilidade, da diversidade, da conservação está gastando dinheiro e esforço à toa. O papel da grande empresa é fundamental porque ela cria exemplos. Se a gente vê empresas grandes engajando com a pauta ESG de maneira estruturada e que, ao mesmo tempo, aumentam as margens e a rentabilidade, depois de um tempo isso vira uma referência e um exemplo a ser seguido. 

O que as empresas deveriam estar atentas quando o assunto é ESG? 

Fábio Alperowitch – O mercado que olha ESG, em geral, continua tendo uma visão individual e não coletiva. O foco é ganhar em captação ou para que seu produto ganhe destaque, não para engajar uma melhora no coletivo. A maioria das gestoras não assume compromissos formais, ela fala sobre ESG, mas não quer ter “amarras”. É um ESG de conveniência, não é um ESG de essência. Eu lamento muito isso. Enquanto não houver um ESG legítimo, de essência, a gente não avança. 

E o que significa um ESG “de essência”?

Fábio Alperowitch – A grande maioria das pessoas, quando vai falar sobre ESG, fala sobre as práticas e pouco se fala sobre a essência, mas as práticas não são mais importantes que a essência. Enquanto a gente não entender o essencial, adotar o ESG na prática não será natural. 

O ESG de essência é entender, antes de tudo, que ESG é ética. Ética para com o planeta, para com as pessoas e com os stakeholders em geral. Uma empresa que pratica a agenda ESG precisa olhar não só para o seu próprio acionista, mas para o fornecedor, cliente, colaborador e para a comunidade onde ela está inserida. Enquanto não tiver esse olhar, e os stakeholders estiverem no centro das decisões, não vai haver ESG. 

Relacionar à ética é crucial. Não temos o direito de roubar o futuro das próximas gerações. Pensar desse jeito traz uma mudança não só para as empresas, mas para o estilo de vida de cada um. 

Está tudo ligado à ética. Tem executivo que assina cheques de milhões para ser Net Zero, mas nem entende porque está fazendo isso. É muito mais pelo carimbo, e porque a sociedade pede, porque chega em casa e vai comprar mais uma SUV com 16 escapamentos. Tudo vai seguir da mesma forma enquanto a gente não incorporar a essência na agenda.