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“Sustentabilidade é sinônimo de eficiência”, diz Patrícia Iglecias, presidente da Cetesb

Incentivos a ações sustentáveis começam no individual e partem para o coletivo, falou a presidente da Cetesb, Patrícia Iglecias.

25 de abril de 2022 - 6 minutos de leitura

Autor: Redação

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Qual a melhor definição de sustentabilidade no contexto urbano e dos Estados brasileiros? Estaria entre os ODSs? Nos selos de construção verde? Ou, até mesmo, na emissão de gases zerada? Para a presidente da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), Patrícia Iglecias, “a sustentabilidade é sinônimo de eficiência e significa também garantir qualidade de vida para as pessoas”.

Em entrevista ao Habitability, Patrícia aponta a mudança da matriz energética e a ocupação dos solos como primordiais para o estado, além de colocar a despoluição do rio Pinheiros como um dos maiores desafios de São Paulo nos próximos anos. Para fazer frente a esses desafios, seja em São Paulo ou em qualquer outro espaço que demande transformação urbana, a CEO da Cetesb coloca a parceria entre as iniciativas privada e pública como protagonista. “Temos que formar redes para fomentar a sustentabilidade”, disse ela ao comentar sobre a atuação conjunta do órgão com outros estados brasileiros. 

Do ponto de vista da infraestrutura, quais são os maiores desafios para as cidades brasileiras atingirem o ODS 11? Como estão sendo acatados esses desafios em São Paulo?

Patrícia Iglecias – Não podemos deixar de lado o fato de que o Brasil ainda é um país em desenvolvimento. Por isso teremos muitos desafios de infraestrutura. A destinação inadequada de resíduos sólidos, por exemplo, ainda é um desafio: cerca de 40% têm destinação inadequada. Em algumas regiões brasileiras o acesso à água limpa e ao tratamento de resíduos é um ponto a ser trabalhado. Em centros urbanos é preciso diminuir as ocupações de áreas de risco, pois vimos eventos e desastres ligados a chuvas, que merecem nossa atenção. Em São Paulo, o ponto principal para atenção com relação ao ODS é a despoluição dos rios. 

Parte da sustentabilidade também está em situações que vão além do meio ambiente. A economia circular é um exemplo disso. Como esse conceito está sendo usado em São Paulo?

Patrícia Iglecias – Procuramos melhorar a legislação para geração de energia a partir de resíduos sólidos. Isso já se tornou uma realidade, trazendo a oportunidade de alguns setores, como o sucroalcooleiro, em usar resíduos para produção de energia. Eles conseguiram usar os resíduos da indústria para gerar combustível, que é utilizado nas usinas, fechando o ciclo de uso. Hoje em dia estamos trabalhando para que essas indústrias, que já fazem o processo com resíduos, possam fazê-lo também com resíduos sólidos urbanos em épocas de entressafra. 

Você foi uma das líderes do programa Cidades da ONU. Como esse programa, que acabou sendo encerrado, trouxe iniciativas sustentáveis para a gestão da Cetesb?

Patrícia Iglecias – Fui uma das pessoas que atuava junto ao programa cidades da ONU na Universidade de São Paulo. O objetivo era conectar a universidade com os municípios paulistas e verificar onde poderíamos trabalhar para auxiliar os municípios na implantação da agenda dos ODS. A ONU acabou descontinuando o programa e focou no Impacto Global, mas nós demos continuidade nessa rede. Criamos um centro de inovação e sustentabilidade que é voltado para projetos de pós-doutorado que atendam também às políticas públicas. A partir desse trabalho, conseguimos fazer uma cooperação entre a USP e o Tribunal de Contas, e depois incluímos a Cetesb, para criar um curso para gestores municipais no tema de gestão de resíduos sólidos. Na primeira versão foram oferecidas 60 vagas e tivemos mais de 2 mil inscritos. Devido à alta procura, agora estamos lançando uma segunda versão do curso com 500 vagas para gestores de todos os estados. 

Existem mais ações da Cetesb fora do estado de São Paulo?

Patrícia Iglecias – Fechamos um acordo com o estado do Pará para ajudar a transformar os lixões de lá em aterros sanitários. É uma situação bem factível do ponto de vista ambiental, então a Cetesb e o estado de São Paulo vão ajudar o Pará, compartilhando tecnologia e conhecimento. Temos que criar redes que vão se formando para podermos, de fato, avançarmos na agenda sustentável do Brasil. Temos também trabalhado com o estado do Amazonas nesse tema de resíduos e com o Espírito Santo na questão de emissões do setor industrial, onde ajudamos com uma modelagem para o polo industrial de Tubarão. 

cidade sustentavel

Você já comentou em outras entrevistas que as cidades precisam encarar de frente e não se fixar em um ideal ambiental. O que isso significa?

Patrícia Iglecias – O conceito de sustentabilidade não é preciso, não é uma conta de dois mais dois para dar quatro. É um tema que pede habilidade, já que não tem um ponto pra falar “olha, a sustentabilidade está pronta”. Os desafios das cidades estão sempre presentes e exigem flexibilidade. Sabemos que um dos grandes desafios quando se fala da agenda climática é a diminuição da emissão de gases e isso pode ser acatado de várias formas. Um exemplo é mudar a matriz energética, que vai dar uma condição melhor do ponto de vista das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE). E isso vai desde o uso de biocombustíveis até uma melhor gestão de energia em casos de construção. 

Uma construção sustentável talvez não seja totalmente sustentável, mas ela vai contribuir para menos emissões. Mas cidades não são apenas construções, elas também são planejamento. E com melhor planejamento é possível também acatar os problemas de emissão de gases. Há, ainda, a gestão de águas, reuso de águas. Ou seja, é um conceito multidimensional. 

Qual a importância das ações coordenadas entre os setores público e privado para as cidades conseguirem atingir os níveis necessários de desenvolvimento sustentável?

Patrícia Iglecias – O setor privado já tem trazido alternativas para diminuir as emissões. Fizemos o Acordo São Paulo, por meio do qual as empresas se voluntariam para criarem alternativas. E tem sido uma forma de trazer melhores políticas públicas como um todo, já que é uma cocriação de caminhos diferentes para diminuir as emissões. 

Um ponto que sempre levanto com o setor privado é que a questão da sustentabilidade é sinônimo de eficiência. Tenho que buscar a eficiência no processo produtivo e no processo construtivo. Precisamos também ter em mente que o principal objetivo da questão ambiental é garantir qualidade de vida para as pessoas. 

Por outro lado, as pessoas, individualmente, têm que pensar sobre seus hábitos. Quando elas optam por usar transporte público ou usar o veículo com mais pessoas, já conseguem contribuir para reduzir as emissões. Usar o etanol também é uma opção mais sustentável em comparação ao diesel e à gasolina. 

De fato, a gente precisa de comportamento individual, agora isso não prescinde do que seria o papel do governo e do poder público, que é incentivar e atuar em favor do meio ambiente. As empresas também estão começando a sofrer essas pressões para terem cadeias mais sustentáveis.

A gente percebe que as empresas começam também a aderir a uma agenda. É nesse sentido que é importante que o Estado incentive. Nesse Acordo, criamos incentivo para as empresas que assumem compromissos de redução. A adesão voluntária já tem mais de 1,3 mil dependentes. 

Quando falamos de inovação, como fica esse equilíbrio entre setor privado e público?

Patrícia Iglecias – Acho que nada substitui o papel do setor privado, principalmente na indução de novas tecnologias. Essa parte da inovação tecnológica vem muito mais do setor privado. Cabe ao setor público aderir e entender essas tecnologias. 

O que fazemos muito na Cetesb é tentar entender rapidamente a nova tecnologia e incorporar o licenciamento o mais rápido possível, como o exemplo do uso de resíduos sólidos de usinas para criação de energia. Os resíduos dessas usinas geravam problemas de acúmulo no solo, problema ambiental por causa das moscas… Aí o próprio setor desenvolveu uma tecnologia que reduziu esse efeito. Eles fizeram uma aplicação direcionada que reduziu em ⅙ o impacto ambiental. Rapidamente, mudamos o regramento no âmbito da Cetesb. 

Como a Cetesb está trabalhando para trazer resiliência para as cidades paulistas?

Patrícia Iglecias – Temos um trabalho de monitoramento de meio ambiente, como qualidade de água, ar e solo, que, com certeza, contribui para o planejamento urbano. Nós não podemos esperar o problema acontecer para atuar. A área pública tem que estar sempre à frente.

O  município precisa trabalhar muito na ocupação do solo, na gestão adequada de resíduos… programas como os cursos tentam fazer com que os municípios estejam mais preparados para enfrentar esses desafios das mudanças climáticas. 

A seu ver, como será a cidade em 2050? Como será São Paulo em 2050?

Patrícia Iglecias – Até 2050 São Paulo terá uma relação melhor com os seus rios. A ideia é que o rio Pinheiros esteja despoluído e a cidade de 2050 possa aproveitar o seu entorno, como em Paris e em Londres. Esse uso também se torna democrático, afinal de contas, não é necessário pagar para utilizá-lo. O rio despoluído trará uma reapropriação urbana deste espaço, e isso é fundamental na cidade do futuro. É importante que a cidade seja um lugar de acolher as pessoas, sem espaço para descriminação. A cidade de 2050 será mais igualitária também no acesso à moradia e na questão da saúde. Esperamos uma cidade muito mais equilibrada e que seja exemplo para o Brasil e para o mundo.