enchentes em petropolis

Tecnologia pode ajudar a evitar desastres como as enchentes em Petrópolis

Desastres como o causado pelas enchentes em Petrópolis podem ser minimizados com planejamento e inovação.

16 de março de 2022 - 4 minutos de leitura

Autor: Redação

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As chuvas que causaram as enchentes em Petrópolis, que assolaram a população no começo de fevereiro, serão mais constantes devido às mudanças climáticas. Mas a tragédia da morte de, ao menos, 170 pessoas devido a deslizamentos e inundações não precisa ser repetida. O planejamento urbano e o uso de tecnologia podem ajudar a evitar desastres dessa magnitude.

“De conhecido, apenas a certeza de que, caso não seja alterada a maneira de produzir cidades, com especial atenção à ocupação de montanhas, fundos de vale e margens de cursos d’água, o que ocorreu permanecerá acontecendo nessa e em outras cidades do estado do Rio de Janeiro, assim como em todo o Brasil”, diz a carta assinada pelas principais entidades de arquitetura e urbanismo brasileiras, entre elas, o Instituto dos Arquitetos do Brasil e o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU Brasil) .

De acordo com o documento, a “emergência climática” exige que as cidades respondam com maior planejamento e execução de medidas mitigatórias. “As ocupações ao longo das margens dos rios deixaram de existir? As margens dos rios foram requalificadas? Paramos de fazer alterações no fluxo dos rios, alterando a drenagem natural? Temos um planejamento urbano e infraestrutura eficazes para o crescimento das cidades? Não, ao contrário. As áreas urbanizadas continuam avançando sobre as encostas, mesmo as mais íngremes, e continuam cada vez mais impermeáveis à drenagem”, diz o conteúdo da carta. 

Alertas ajudam, mas não foram eficientes no caso das enchentes em Petrópolis

O chamado “nowcasting” é a habilidade de prever se algum evento adverso do clima pode atingir o espaço dentro de um tempo de seis ou sete horas. Permitindo que, por exemplo, se reorganize parte do sistema de esgoto em tempo real para acatar um volume maior de chuva. Há tempo, principalmente, de avisar a população com antecedência, evitando a mortalidade dos deslizamentos. 

Secretaria de Defesa Civil e Ações Voluntárias do Município de Petrópolis – Sirenes

Em Petrópolis, 14 sirenes foram acionadas para alertar sobre as chuvas, mas alguns moradores relataram que as sirenes não tocaram. De acordo com o engenheiro Luiz Carneiro, coordenador da Câmara Especializada de Engenharia Civil do Rio de Janeiro, esse é um sistema que também deve passar por reformulações. Em entrevista ao Último Segundo, Carneiro explicou que ele é insuficiente para conter os danos das chuvas.

As sirenes funcionam por duas horas, caso chova 45 mm em uma hora e haja previsão de precipitação moderada e muito forte para as horas seguintes. Para se ter uma ideia, no dia 15 de fevereiro, 260 mm de chuva caíram em apenas quatro horas na cidade da região serrana do Rio de Janeiro. Em um dos bairros da cidade, foram 80 mm de água em uma hora. O município conta com pelo menos 18 locais de sirenes de alerta.

O tempo de antecedência depende da precisão das previsões. Nos Estados Unidos, por exemplo, ferramentas de alertas de fenômenos climáticos mais próximos de acontecerem são usados para criar estratégias de proteção contra furacões. As tempestades mais fortes também entram nesse sistema de previsão “de curto prazo”. 

Dados são essenciais para “escanear” perigo como o das enchentes em Petrópolis

No Brasil, aplicativos como o à Prova d’Àgua tentam fazer um monitoramento em tempo real das condições de alagamento e enviar um alerta para os moradores em perigo. O projeto, criado pela parceria entre a Fundação Getúlio Vargas (FGV) com universidades europeias, utiliza a ajuda dos moradores, bem como pluviômetros nas regiões, para escanear os perigos.

aplicativo chuva

O app funciona não só para avisar os moradores, como também para coletar dados para uso do poder público. A prefeitura de Cuiabá, no Mato Grosso, utilizou as informações do Prova d’Água para entender como uma obra foi eficaz para conter alagamentos em uma região que sofria com enchentes constantes.  “Os dados também são usados para calibrar e melhorar modelos de previsão. Ele vai proporcionar melhores alertas antecipados para que a comunidade se prepare para as chuvas”, disse João Porto de Albuquerque, professor da Universidade de Glasgow e líder internacional do projeto, ao Mobile Time.

Além de dados, planejamento e tecnologia, é preciso ação

Na carta assinada pelas entidades de Arquitetura e Urbanismo, o pedido que se repete é o de urgência nas ações. “O planejamento deve ser, antes de tudo, uma resposta perene para a manutenção da vida nas cidades brasileiras”, diz a carta. Nela, os profissionais pedem a revisão do plano diretor acatando a elaboração de planos de emergência; o monitoramento contínuo e sistemático; e o incentivo para orientar o crescimento urbano em áreas que não oferecem riscos à população.  Políticas de habitação popular também são um ponto que especialistas mostram como forma de diminuir os riscos para as populações. De acordo com o engenheiro e ex-presidente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino, “é preciso uma opção para que as pessoas não ocupem as encostas. É preciso realocar as pessoas das áreas de risco”, disse ele em entrevista ao jornal Valor Econômico. Para Carneiro, a hora da mudança do planejamento precisa ser já e o caso das enchentes em Petrópolis prova isso. “Agora, se não começar amanhã, vamos ter sempre o mesmo problema”, reforçou o engenheiro.