As Dunas Verdes de Ipanema e Leblon: 15 anos de regeneração no coração do Rio

Entre o Carnaval e o mar, um projeto de restinga transformou a paisagem e fortaleceu a defesa do litoral carioca.

Por Marcia Tojal em 17 de março de 2026 3 minutos de leitura

Dia ensolarado na orla da praia de Ipanema, com uma pedestre passando. A foto ilustra a matéria sobre a restauração da restinga em Ipanema.
Foto: Catarina Belova/ Shutterstock

No início da manhã, quando o sol ainda desenha sombras longas sobre o calçadão, as dunas verdes que margeiam as Praia de Ipanema e do Leblon parecem parte natural da paisagem. Pequenos arbustos, coqueiros jovens e vegetação rasteira resistem ao vento, à maresia e ao fluxo constante de pedestres.

Mas o que hoje parece espontâneo é, na verdade, resultado de um trabalho de regeneração urbana contínua iniciado em 2009. Naquele ano, o Instituto-E deu início a um projeto de recuperação da vegetação de restinga na orla. Foram utilizadas oito espécies nativas, totalizando cerca de 38 mil mudas plantadas em 28 canteiros, ocupando aproximadamente 10 mil m². Desde o início, o projeto contou com apoio financeiro da marca brasileira Osklen, cuja atuação ambiental está ligada à valorização de biomas e cadeias produtivas sustentáveis.

Por que recuperar a restinga importa

A restinga é um ecossistema associado à Mata Atlântica, adaptado a solos arenosos, salinidade elevada e forte incidência solar. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, trata-se de uma formação vegetal fundamental para a estabilidade costeira, funcionando como barreira natural contra erosão e avanço do mar.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também reconhece a restinga como parte dos ecossistemas costeiros que desempenham papel essencial na proteção do litoral e na manutenção da biodiversidade.

Além disso, estudos, como o do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, sobre gestão costeira indicam que dunas vegetadas reduzem a velocidade do vento, estabilizam a areia e atuam como infraestrutura natural de proteção contra eventos extremos e ressacas.

Em uma cidade como o Rio de Janeiro, marcada por episódios recorrentes de ressaca e erosão costeira, amplamente documentados pela Prefeitura e pelo Instituto Estadual do Ambiente (INEA), fortalecer as dunas urbanas não é apenas uma questão paisagística, mas estratégica.

Um episódio crítico e um recomeço: o Carnaval

Milhares de pessoas lotam as ruas de Ipanema para se divertir no carnaval de rua, seguindo o desfile.
Foto: Luiz Souza/ Shutterstock

Com quase uma década, no Carnaval de 2018 o projeto sofreu um baque: a passagem de multidões pela orla provocou o pisoteamento de parte dos canteiros recém-implantados. Mas do “desastre” nasceu uma nova força, como mostrou a matéria do G1 em 2018. Alunos da rede municipal ajudaram a replantar 400 mudas como parte do projeto de recuperação das dunas de restinga. A partir dali, o projeto ganhou não apenas continuidade, mas também reconhecimento e a demonstração da força de iniciativas que são abraçadas pela comunidade e do qual esta se sente parte.

Parcerias e consolidação

Ao longo dos 15 anos de execução, as dunas se consolidaram e evidenciam a importância de projetos de longo prazo. Hoje é possível observar crescimento consistente de coqueiros e arbustos nativos, além do registro do retorno de parte da fauna típica desses ecossistemas, insetos, aves e pequenos organismos que dependem da vegetação de restinga.

Há três anos a plataforma Airbnb se tornou apoiadora da iniciativa, ampliando o modelo de financiamento baseado em parceria entre sociedade civil e iniciativa privada. Em março de 2026, o Airbnb anunciou uma doação de R$1 milhão para o projeto, evidenciando o compromisso da marca com o turismo responsável e sustentável no Brasil.

Esse tipo de arranjo dialoga com o conceito internacional de Soluções Baseadas na Natureza (SbN), definido pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) como ações que protegem, restauram e manejam ecossistemas naturais para enfrentar desafios sociais, como mudanças climáticas e riscos de desastres.

O próprio Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) reconhece que a restauração de ecossistemas costeiros é uma das estratégias mais eficientes e custo-efetivas para aumentar a resiliência urbana.

Uma Solução Baseada na Natureza no coração da cidade

O projeto das dunas verdes de Ipanema e Leblon se insere, portanto, em um movimento mais amplo de cidades que apostam em infraestrutura verde como estratégia de adaptação climática. Mais do que recuperar vegetação, a iniciativa demonstra que regeneração ambiental pode coexistir com alta densidade urbana, turismo intenso e uso democrático do espaço público.

Em uma cidade que convive com pressão imobiliária, eventos de massa e riscos climáticos crescentes, proteger a restinga é proteger a própria linha de frente contra o avanço do mar. E, talvez, lembrar que algumas das soluções mais sofisticadas para o futuro urbano já estavam ali, desenhadas pela própria natureza.

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