“População negra não quer mais ser vista como ‘o outro'”, afirma Audrey Carolini

Como mulher negra, arquiteta mostra os desafios que ainda persistem para que a arquitetura assuma seu papel na transformação sociocultural do País.

Por Nathalia Ribeiro em 27 de janeiro de 2026 9 minutos de leitura

Audrey Carolini, arquiteta, urbanista e designer, posando com sorriso e vestindo blazer bege ao lado de parede neutra
Audrey Carolini (Foto: Amanda Bibiano)

Antes de ser forma, a arquitetura é relação. Relação entre corpos e espaços, entre permanências e deslocamentos, entre aquilo que se constrói materialmente e o que se projeta como horizonte social e simbólico. Em um País marcado por desigualdades profundas, pensar arquitetura é, inevitavelmente, pensar em poder, acesso, memória e pertencimento. Quem projeta? Para quem se projeta? E quais histórias seguem sendo legitimadas ou silenciadas nos espaços que habitamos, atravessamos e reconhecemos como coletivos?

É a partir dessas camadas que a atuação de Audrey Carolini se constrói. Arquiteta, urbanista e designer com percurso transdisciplinar, ela transita entre arquitetura, interiores, expografia e cenografia, articulando prática profissional, pesquisa acadêmica, docência e atuação institucional. Fundadora do estúdio que leva seu nome, Audrey tem como eixo central de seus projetos a experiência sensível do corpo no espaço, a acessibilidade e a cultura como fundamentos do fazer arquitetônico. 

Docente na Escola da Cidade e no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, mestranda pela FAU-USP e integrante ativa de iniciativas como o Arquitetas Negras, o Cambará – Instituto de Fomento à Arquitetura Afrobrasileira e o IAB-SP, Audrey constrói uma trajetória que entende a arquitetura não apenas como disciplina técnica ou linguagem estética, mas como campo social, educativo e coletivo. 

Em entrevista ao Habitability, a profissional reflete sobre a fluidez entre escalas e linguagens, o papel da docência e da pesquisa na prática profissional arquitetônica e a urgência de reposicionar a arquitetura como ferramenta de transformação social, cultural e simbólica no Brasil.

Sua atuação transita entre arquitetura, interiores, expografia e cenografia. Como essa fluidez entre escalas e linguagens moldou sua forma de pensar os espaços e a experiência de quem os utiliza?

Audrey Carolini: No meu processo, todas as atuações partem de uma mesma linha condutora, o que torna possível transitar entre diferentes escalas e linguagens. Para que isso acontecesse, foi fundamental firmar um tema de pesquisa capaz de orientar essas frentes. Sou uma arquiteta profundamente ligada à arquitetura e ao design de interiores: o edifício e sua “casca” são importantes, mas é na escala do interior que consigo observar mais de perto o uso e a experiência cotidiana dos espaços.

Acredito que a arquitetura acontece dentro e que ela tem o poder de moldar a forma como as pessoas percebem e vivenciam os ambientes. Por isso, uma preocupação central do meu trabalho é entender se aquilo que penso enquanto arquiteta é, de fato, efetivo para quem utiliza os espaços. Essa inquietação orienta minha atuação profissional e se apoia em dois pilares: a construção de uma base teórica sólida para os projetos e a ampliação de repertório para o processo criativo, em um movimento contínuo de retroalimentação.

Como a docência entrou na sua trajetória profissional e em que momento ela passou a se tornar um eixo estruturante do seu trabalho no âmbito da arquitetura?

Audrey Carolini: A docência é um eixo fundamental do meu trabalho. É a partir dela que consigo desenvolver investigações que alimentam tanto o mestrado quanto a prática projetual. Ao mesmo tempo, minha experiência profissional me permite levar para os alunos referências do mercado, aproximando a formação acadêmica da realidade que eles ainda vão encontrar. Claro que nada substitui a vivência direta, mas acredito que esse contato faz diferença e talvez tivesse impactado a minha própria trajetória se eu o tivesse tido durante a formação.

Como começou sua trajetória?

Audrey Carolini: Começou em uma linguagem essencialmente mercadológica. Fui sócia de um escritório de arquitetura por seis anos, com forte atuação em arquitetura de interiores em escala residencial. Com o tempo, senti a necessidade de experimentar outras linguagens da arquitetura, algo que não era possível dentro daquela estrutura. Foi nesse momento que me desliguei do escritório e abri um ateliê, ampliando minha atuação e minha forma de pensar a profissão.

Hoje, a docência, pesquisa e prática profissional se alimentam mutuamente. O ateliê é atravessado pelas pesquisas, assim como o mestrado é impactado pelas experiências de projeto. Vejo ciência, tecnologia e execução como pilares que não se dissociam, ainda que isso nem sempre seja tão claro para quem trabalha de outras formas. Para mim, é justamente essa integração que movimenta o meu trabalho.

Quais são hoje os principais distanciamentos entre a formação acadêmica em arquitetura e a prática profissional no mercado?

Audrey Carolini: Essa é uma questão complexa, mas parte, antes de tudo, do reconhecimento de que as diferenças existem e precisam ser vistas a partir da sua potência, não da fragilidade. A arquitetura, por ser uma profissão historicamente elitizada, acabou se afastando de grande parte da sociedade que deveria atender. Se é uma profissão de serviço, ela precisa reconhecer que existem diferentes camadas sociais e que todas merecem cuidado. A crítica de que o arquiteto é inacessível e trabalha apenas para pessoas ricas é, infelizmente, uma realidade que ainda persiste, muito ligada a esse distanciamento.

Há também um desafio importante dentro das universidades, que muitas vezes não estão preparadas para acolher um novo perfil de aluno: negro, periférico, com outras vivências e prioridades. A população negra não quer mais ser vista como “o outro”, mas como protagonista, reconhecida pelo seu potencial cultural, artístico e intelectual. O problema é que a academia, em sua maioria branca, ainda tende a enxergar esses corpos mais como objetos de estudo do que como produtores de conhecimento, o que torna a necessidade de contar a arquitetura a partir de outras perspectivas.

Como ciência social aplicada e campo das artes, a arquitetura é profundamente influenciada pelo contexto social. Em um período de desvalorização da cultura, o arquiteto acaba reforçando um lugar distante e inacessível, que precisa ser desmistificado. Não se trata de negar o mercado ou certos tipos de cliente, mas de compreender que arquitetos são agentes de mudança e que o modelo de cidade que ajudamos a construir pode acolher ou excluir pessoas a partir da classe social, da cor da pele e das condições de vida. Essas reflexões precisam atravessar tanto a formação, quanto a prática profissional.

Quando você olha para a sua trajetória, em que momento você percebeu que questões raciais atravessariam de forma inevitável a sua atuação profissional?

Audrey Carolini sentada em uma cadeira moderna, com cabelo trançado e vestido azul claro, em um ambiente com parede de tijolos brancos
Audrey Carolini (Foto: Amanda Bibiano)

Audrey Carolini: É muito complexo, porque, no fim das contas, o que eu sinto é que, se você nasce no Brasil não sendo uma pessoa branca, isso já vem imposto. A forma como você vai atuar para, pelo menos, gerar o debate é que muda. Eu, por exemplo, consigo me apoiar nessa comunidade de mulheres negras arquitetas, que traz o debate, gera crítica e reflexão. Mas conheço outros profissionais que fazem esse movimento nas suas áreas. Justamente por ser algo socialmente imposto, você cresce entendendo que, de alguma maneira, se você se cala, acaba reforçando discursos de violência contra as minorias.

Mesmo sabendo que a fala individual nem sempre gera efeitos imediatos, ocupar esses espaços pode incentivar outras mulheres negras a construírem caminhos coletivos. Por se tratar de um problema social, a resposta também precisa ser coletiva. Ainda que hoje eu esteja em uma posição que permite provocar mais debates, tenho clareza de que não estou sozinha e de que ocupar esses lugares de forma isolada pode gerar vulnerabilidades. A força está na rede!

Que tipos de estratégias você acredita que têm maior potencial para ampliar, de forma consistente, os espaços de atuação e reconhecimento profissional dentro da arquitetura?

Audrey Carolini: Mudanças profundas não acontecem individualmente, mas por meio de políticas públicas e ações estruturais. Houve avanços importantes, como as políticas afirmativas no acesso ao ensino superior, embora os últimos anos tenham exigido ainda mais esforço. Persistem bloqueios no acesso a oportunidades, no reconhecimento institucional e na forma como a história da arquitetura é contada, o que gera cansaço, mas também reforça a necessidade de ampliar espaços, fortalecer redes e estimular que mais profissionais negras ocupem esses lugares. Sozinho, ninguém transforma muita coisa.

A compreensão de que transformações estruturais não acontecem de forma individual foi determinante para o surgimento do Arquitetas Negras e, posteriormente, do Cambará?

Audrey Carolini: Sim. O Arquitetas Negras nasce em 2018 como um mapeamento da produção de mulheres arquitetas, iniciado pela Gabriela de Matos, minha amiga, a partir de uma pesquisa com viés científico para o mestrado dela. A pergunta era simples: onde estão as arquitetas negras? Naquele mesmo período, eu já articulava, em São Paulo, um coletivo de mulheres negras arquitetas. Quando a gente se encontrou, tudo fluiu. Ela veio de Minas para São Paulo, trouxe o estúdio, e a partir daí fomos construindo essa rede juntas.

Nesse início, além de mim e da Gabriela, participaram outras arquitetas como Tamires Mendes, que era minha sócia, e Taís Isabel. Depois, se juntaram Vilma Patrícia e Sharon Martins, que hoje atuam conosco no Cambará. A ideia sempre foi pensar essa rede de forma integrada, criando ações de fomento, relacionamento e networking. Hoje, só em São Paulo, são cerca de 300 mulheres mapeadas, e, no Brasil, quase mil, inclusive também temos profissionais que atuam fora do País. É um mapeamento aberto, que segue crescendo, e que serviu de base para muitas das ações que desenvolvemos depois, sempre de forma muito autônoma, quase como cinco mulheres correndo atrás de um sonho.

Como é o caso do Cambará, certo? O que muda, na prática, quando um movimento que nasce de forma autônoma e afetiva passa a se estruturar como instituto, especialmente no campo da arquitetura?

Audrey Carolini: Com o tempo, entendemos que, para ampliar o impacto e alcançar outros objetivos, esse coletivo precisava se institucionalizar. Em 2023, com apoio do Sesc Pompeia, lançamos o Cambará, inicialmente como Instituto de Fomento da Arquitetura Afro-brasileira. Em 2024, estruturamos toda a parte burocrática e, em 2025, o instituto já estava regularizado, com uma agenda definida. 

Então, no ano passado, realizamos o “Confluências”, nosso primeiro encontro científico, além do primeiro edital de fomento, que resultou em uma residência tecno-artística em parceria com a Cerbambu. Dessa experiência nasceu a obra Yoko, apresentada na 14ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, como uma homenagem à ancestralidade a partir do bambu.

Para 2026, estamos organizando uma agenda que amplia ainda mais esse alcance, com a primeira exposição de arquitetura afro-brasileira, prevista para acontecer em Salvador/BA, além de uma nova residência artística e outras atividades formativas. A ideia é descentralizar, sair do eixo Rio–São Paulo e fortalecer essa construção coletiva. No ano passado, pude estar muito próxima da produção de todas essas ações, o que foi uma experiência única: mesmo discutindo arquitetura, eu estava envolvida em projetos muito diferentes entre si. Tudo isso tem gerado transformações, ainda que aos poucos, e é esse movimento que dá sentido a tudo o que fazemos.

Além do Arquitetas Negras e do Cambará, você também atua como conselheira do programa Aproxima, voltado ao apoio à formação e à inserção de jovens arquitetos negros no mercado. Como você avalia o papel do setor privado, especialmente da construção civil, na promoção da equidade racial na arquitetura, e de que maneira iniciativas como essa podem contribuir para tensionar e transformar estruturas desse campo?

Audrey Carolini: No setor privado, percebo avanços desiguais. Na educação e na cultura, há mais abertura para discutir equidade racial, ainda que com limites, enquanto no mercado corporativo e na construção civil as estruturas seguem mais rígidas. O Aproxima, criado pela Caroline Martins, profissional da área de RH, junto com Fernando Mungioli, editor-chefe da Revista Projeto, e Lourenço Gimenez, gestor da FGIMF, é justamente um programa que vem fazendo uma provocação importante no âmbito corporativo. Trata-se de um programa que oferece estágio rotativo voltado para estudantes negros, geralmente do segundo ao quarto ano da graduação. 

Eles são selecionados para participar de um ciclo de dois anos, em que o primeiro semestre é dedicado à capacitação e os três seguintes acontecem em formato rotativo, com passagens por diferentes empresas, para que possam vivenciar distintos nichos do mercado e, assim, escolher com mais clareza os caminhos que desejam seguir na arquitetura e na construção civil.

Na prática, quais têm sido os principais desafios enfrentados pelo programa para sustentar e ampliar iniciativas como essa?

Audrey Carolini: Tenho percebido que o programa poderia ter uma adesão maior das empresas, que poderiam se abrir mais para essa iniciativa. Ele tem um potencial enorme e já se mostrou muito benéfico para inúmeros jovens negros em São Paulo. Ao mesmo tempo, ainda existe uma resistência significativa do mercado da construção civil, inclusive com algumas desistências ao longo do processo, o que é bastante preocupante. A proposta é que as empresas completem todo o ciclo, garantindo que nenhum estudante fique desamparado no meio do caminho.

Em alguns momentos, nós, enquanto conselho, precisamos sentar e reorganizar a estrutura justamente porque alguma empresa decidiu não seguir adiante, e é preciso garantir suporte ao estudante que está naquele rodízio e corre o risco de ficar sem vaga. No geral, o Aproxima tem conseguido levar essa discussão para dentro do mercado corporativo da construção civil, que talvez seja um dos ambientes mais resistentes a esse tipo de debate.

Olhando para os próximos anos, quais transformações você gostaria de ver na forma como arquitetura e a construção civil dialogam com cultura, educação e sociedade no Brasil?

Audrey Carolini: Pessoas negras ocupando espaços de tomada de decisão, espaços de poder, para que possam abrir caminho para outras pessoas negras. É sobre enxergar um mercado que realmente represente o que os dados do IBGE mostram: somos um País majoritariamente negro, mas essas pessoas seguem, em sua maioria, restritas a lugares de subalternidade e subserviência. E não se trata de desvalorizar nenhuma profissão, não há nada de errado em ocupar um trabalho doméstico, por exemplo, o problema é quando esse é o único espaço possível.

A discussão que estamos fazendo hoje passa justamente por ampliar esse poder, por criar condições para melhorar a qualidade de vida da população negra no Brasil. Estamos falando de um País que lidera índices de violência contra pessoas LGBTQIAPN+, que convive com altos números de denúncias de racismo e, ainda assim, insiste em negar essa realidade. É curioso e contraditório como, mesmo sendo um dos países mais racistas, poucas pessoas se reconhecem como parte desse problema.

Por isso, quando penso em transformação, penso sobretudo em mobilidade social. Ver pessoas negras tendo acesso real a oportunidades, circulando por diferentes espaços do mercado e construindo trajetórias mais diversas é algo que, sinceramente, me deixaria muito mais feliz. É nesse movimento que acredito: ampliar possibilidades para que o futuro seja menos limitado e mais representativo.

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