Michelle Prazeres: leia esse texto sem pressa

Líder da “desaceleradora de pessoas e negócios”, Michelle Prazeres mostra como reduzir o ritmo pode ser o ideal para as cidades

Por Redação em 5 de dezembro de 2022 5 minutos de leitura

michelle prazeres

Quantas horas você descansou hoje? E nos últimos dias? Qual foi o último momento que passou offline? E que não teve uma lista gigante de tarefas para fazer? Está na hora de parar. Use esse momento para respirar, olhar para algo além da tela, tomar uma água (ou um chá, um suco) e prestar atenção no que a homenageada do Prêmio Habitability, Michelle Prazeres, tem a dizer: está na hora de desacelerar.

“A aceleração é uma cultura estabelecida em todas as áreas do nosso cotidiano: trabalho, vida pessoal e até no entretenimento”, diz Michelle. A professora da Faculdade Cásper Líbero, de São Paulo (SP), é fundadora do DesaceleraSP, a primeira “desaceleradora de pessoas e negócios” da cidade. A iniciativa faz parte do “movimento slow”, que conta com adeptos no mundo todo e procura construir uma vida menos acelerada e mais equilibrada para as pessoas. 

Em um ambiente conectado e digitalizado, o tempo virou campo de disputa das empresas. Seja do lado da oferta, com aplicativos, serviços digitais e plataformas contando os minutos passados em seus espaços (a chamada “economia da atenção”), seja do lado da demanda, na exigência de níveis de produtividade altíssimos. 

“A gente acha que o tempo é um recurso, mas ele é muito mais que isso. Nós nos deixamos levar pela ideia de que se a gente organizar bem o nosso dia, vamos conseguir seguir tudo que é exigido e até sermos mais e mais produtivos. Na realidade, o tempo é ligado aos ciclos”, afirma Michelle. Nesse sentido, o movimento slow é muito menos sobre andar de maneira mais lenta e mais sobre respeitar os “diferentes tempos” de tudo que nos cerca.

Tempo, tempo, tempo

O “slow” chegou para Michelle há 12 anos, quando ela engravidou do primeiro filho, Miguel. A agenda da ativista e professora era tão cheia quanto a de qualquer paulistano: ela fazia de tudo para encaixar os compromissos, as reuniões e até mesmo jantares com amigos. Quando engravidou, ela percebeu que os dias passavam de maneira diferente. “O tempo de gestação é um dos poucos em que a sociedade ainda não intervém. Não existe apressar, existe respeitar as semanas. Quando o meu filho nasceu, então, eu passei a ver o tempo encarnado em uma pessoa. Eu passei a ver o tempo passar todo dia na minha frente”, aponta Michelle.

Ao viver o passo a passo da maternidade, Michelle passou a perceber que havia algo de estranho no compasso de São Paulo. Parecia tudo muito acelerado, como os áudios do WhatsApp escutados em 2x. “A gente tem a sensação de que estamos escolhendo aceitar algo mais rápido, até que a escolha se torne um hábito e, logo depois, uma regra. E na sequência, uma violência, porque não é mais possível mudar”, comenta a professora.

A busca de Michelle começou por lugares da cidade que fossem “para desacelerar”, ou seja, que aceitassem que as pessoas ficassem ali apenas para aproveitar o momento, sem precisar sair correndo ou chegar em cima da hora. Tais locais, no final das contas, eram aqueles que também aceitavam crianças e famílias. “Percebi que já estava buscando uma vida mais lenta na cidade e acabei criando um mapa, no Google Maps, de lugares para se “desacelerar” em São Paulo”, lembra.

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O mapa cresceu colaborativamente e se transformou no Guia Desacelera SP. “Comecei a perceber que existe um negócio chamado cultura da velocidade. Que não adiantava muito a gente ter um mapa lindo, com um monte de lugares para desacelerar em São Paulo, sendo que as pessoas não teriam a menor condição de frequentar esses lugares porque a vida dela está completamente esmagada pela produtividade”, fala Michelle. 

Foi então que o Guia se transformou em uma série de ações com objetivo de colocar o movimento slow no palco principal. Em 2018, Michelle organizou o primeiro dia Sem Pressa, primeiro festival de cultura “lenta” no Brasil, e que em sua primeira edição reuniu quase duas mil pessoas. Hoje em dia, a rede já tem quase 100 parceiros entre empresas e pequenas marcas.

Além disso, Michelle criou a Escola do Tempo, especializada em fazer treinamentos para empresas, sensibilizando lideranças em favor da cultura de cuidado. “A história do desacelera foi avançando junto à nossa percepção do que significa o movimento slow. Antes achávamos que era mais algo do tipo ‘viva a vida mais devagar’. Mas a verdade é que o Desacelera tem a ver com o fato de que a rapidez não pode ser um imperativo para as pessoas. O slow é a nossa saída como humanidade”, aponta Michelle.

Movimento Slow: a saída é parar e rever tudo

Michelle também pesquisa sobre comunicação e aceleração social. Segundo a fundadora do Desacelera SP, a saída não pode ser apenas individualizada. “Se o discurso for para cada indivíduo desacelerar, vira mais uma pressão para eles”, comenta, falando sobre a proliferação do discurso hiper individualizado da “calma”, com os aplicativos de meditação e até mesmo os “coachs” de organização de tempo. “Precisamos pensar no indivíduo em suas relações com o planeta, com os outros”, diz a professora. 

“O movimento slow junta uma série de outras ações, como a da slow food, a slow fashion, o minimalismo, o essencialismo. Tudo isso não é agenda individual, mas sim política. Porque, no limite, ela é um chamado para a gente entender e questionar os nossos modelos de trabalho, de consumo e de tecnologia”, argumenta Michelle. Em alguns casos, o slow também é visto como a busca pela produtividade sustentável. 

O que significa sucesso? O que significa progresso? O que significa avanço? O “slow” traz todas essas perguntas e abre espaço para que as pessoas experimentem outras relações com o tempo. De acordo com Michelle, o movimento opera em três pilares: convivência, experiência e consciência. Quando têm mais tempo e mais atenção, melhor as pessoas convivem entre si. 

Slow-city

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E é na convivência que a cidade entra na história. Porque o tempo é o tecido que as cidades são construídas. “A metrópole tem um senso de urgência muito particular. São as grandes cidades que conduzem, de certa forma, a nossa ideia do progresso, indicando que um modo de vida tende a ser o hegemônico”, comenta Michelle.

Ligar o tempo à discussão de cidade também é encarar as desigualdades sociais latentes. “A cidade promove experiências temporais muito diferentes para as pessoas. Alguns falam que todos têm as mesmas 24 horas. Mas é uma grande falácia. As 24 horas de um executivo branco que anda de helicóptero não são as mesmas de uma mãe solo negra que mora na periferia. O tempo é cheio de marcadores de desigualdade, e em um país como o nosso, não dá para dizer que todos têm as mesmas 24 horas. E que desacelerar é uma questão só de força de vontade”, opina a professora. 

“O desacelerar na cidade significa que o ambiente urbano precisa ser um lugar para se habitar e não apenas para morar. Não é apenas um dormitório, mas um lugar para se viver em comunidade, com espaços de convivência e de pertencimento. Mais praças abertas, menos parques privatizados. Menos prédios e condomínios e mais espaços de desaceleração”, diz Michelle.

Ser slow, diz Michelle, não significa ser lento, e sim viver mais atento. Atento aos outros, atento ao ambiente, atento à cidade. E é assim, com atenção, que as “smart cities” serão construídas, espera Michelle.  “A inovação é, sobretudo, humana. E o desacelerar, ao contrário do que muita gente pensa, não é ser devagar. É humanizar as relações. A inovação vai ser desacelerada porque a inovação vai ser humanizada”, pondera a professora.