Por décadas, o planejamento urbano nos grandes centros priorizou vias largas, zonas residenciais afastadas de comércio e serviços, deslocamentos longos e carro como centro da mobilidade. Com o passar do tempo, muitos perceberam os custos disso: trânsito intenso, poluição, isolamento social, desperdício de tempo e do espaço público.
O Congress for the New Urbanism (CNU), fundado no início dos anos 1990 nos Estados Unidos, reúne arquitetos, urbanistas e planejadores que propõem um caminho de retorno às cidades humanas, inspiradas nas comunidades pré-automóveis, mas adaptadas aos desafios contemporâneos.
O movimento do Novo Urbanismo, impulsionado pelo CNU, busca recolocar a cidade a serviço de quem vive nela, promovendo caminhabilidade, uso misto do solo, diversidade de moradias e espaços públicos de qualidade, sem abrir mão da eficiência, da sustentabilidade e da resiliência urbana.
A carta do Novo Urbanismo

O documento, que pode ser encontrado na íntegra diretamente no site do CNU, parte de um diagnóstico claro: décadas de expansão urbana dispersa, dependente de automóvel, produziram centros esvaziados, bairros segregados por renda e raça, pressão sobre áreas naturais e agrícolas e um aumento expressivo das emissões de carbono. Como resposta, a carta propõe uma virada de chave, isto é, restaurar centros urbanos existentes, reconverter subúrbios em bairros completos e preservar a relação entre cidade e natureza, sempre com foco em caminhabilidade, uso misto do solo (moradia, comércio, serviços e lazer) e transporte coletivo.
A carta organiza seus princípios em três grandes escalas: região, bairro e rua, defendendo cidades em que a maior parte das atividades do dia a dia possa ser realizada a pé, em trajetos curtos, por ruas conectadas e agradáveis. Propõe diversidade de tipos e preços de moradia, permitindo que pessoas de diferentes perfis compartilhem o mesmo território, e prioriza arquitetura e espaços públicos concebidos em escala humana, que valorizem a identidade local e transformem edifícios cívicos em pontos de encontro comunitário.
As emendas mais recentes ampliam essa visão, incorporando temas como justiça social, prevenção de deslocamentos forçados, moradia acessível, opções reais de vida sem carro e o uso do desenho urbano como ferramenta central para mitigação climática e fortalecimento da resiliência das cidades.
A seguir, veja como a Carta do Novo Urbanismo organiza os princípios para diferentes escalas de ocupação do território:
1. Região metropolitana, cidade e vila
A metrópole é concebida como um conjunto de cidades e municípios, cada um com centros e limites bem definidos. Nessa escala, a Carta defende que as áreas próximas aos limites urbanos sejam organizadas em bairros e distritos integrados ao tecido da cidade, enquanto as regiões além desses limites devem ser planejadas como pequenas cidades autônomas, com infraestrutura e serviços próprios, evitando a formação de “cidades-dormitório”.
2. A vizinhança, o bairro e o corredor
A vizinhança, o bairro e o corredor urbano são considerados elementos fundamentais para o desenvolvimento e o redesenvolvimento das metrópoles. Devem ser planejados de forma a incentivar o deslocamento a pé, com usos e serviços situados a distâncias caminháveis e calçadas confortáveis. As vizinhanças precisam acolher diversidade cultural, os bairros devem concentrar serviços, escolas e áreas verdes, e os corredores – ruas e avenidas principais – devem ser projetados e coordenados para conectar de maneira eficiente as diferentes partes da cidade.
3. O quarteirão, a rua e o edifício
Ruas e espaços públicos são áreas de uso coletivo e precisam ser seguros e convidativos para as pessoas. Do ponto de vista arquitetônico, os edifícios individuais devem se integrar harmonicamente ao entorno, em uma preocupação que vai além de estilos ou linguagens formais. A arquitetura e o paisagismo, por sua vez, devem responder às condições locais de clima, relevo e às técnicas construtivas tradicionais da região.
Os benefícios do Novo Urbanismo
Segundo o CNU, bairros caminháveis, com calçadas adequadas e ruas desenhadas para pessoas, aumentam a atividade física e fortalecem a convivência social, fatores diretamente ligados à saúde e ao bem-estar. Ao aproximar moradia, serviços, comércio e lazer, o Novo Urbanismo também reduz a dependência do automóvel. O Lincoln Institute of Land Policy destaca que comunidades mais compactas e de uso misto diminuem congestionamentos, emissões e estresse urbano, tornando o deslocamento mais eficiente e sustentável.
A dimensão social também é central. Para o Lincoln Institute e para materiais didáticos de urbanismo divulgados pela StudySmarter UK, a diversidade de tipos de moradia favorece bairros mais inclusivos, onde diferentes perfis socioeconômicos compartilham o mesmo território.
Outro fator central é a sustentabilidade. O Novo Urbanismo defende a valorização de áreas verdes, a mobilidade ativa e o planejamento urbano integrado como estratégias para reduzir impactos ambientais e aumentar a eficiência das cidades. Ao estimular bairros compactos, conectados e de uso misto, o movimento contribui para a diminuição da dependência do automóvel, das emissões de carbono e do consumo excessivo de solo.
Projetos de revitalização e infill urbano, que reocupam áreas degradadas ou subutilizadas e reconectam trechos fragmentados do tecido urbano, também integram esse conjunto de benefícios, ao promover o adensamento qualificado, a reutilização da infraestrutura existente e cidades mais resilientes frente às mudanças climáticas.
Novo Urbanismo no Brasil e no mundo

O Sete Sóis, bairro planejado desenvolvido pela MRV em Hortolândia (SP), é uma das iniciativas brasileiras que dialoga com os princípios do Novo Urbanismo. Idealizado como um bairro completo, o projeto propõe uma estrutura urbana que articula moradia, comércio, serviços, equipamentos públicos e áreas de lazer em uma lógica de proximidade, favorecendo o cotidiano a pé e o fortalecimento da vida comunitária. O desenho urbano prioriza a escala humana, com ruas pensadas para o convívio, calçadas amplas, praças e áreas verdes que funcionam como elementos estruturadores do bairro e incentivam o uso ativo do espaço público.
Ao adotar o uso misto, criar centralidades bem definidas e integrar infraestrutura urbana desde as fases iniciais do desenvolvimento, o Sete Sóis traduz, no contexto brasileiro, uma abordagem de planejamento urbano voltada à qualidade de vida, à convivência e à construção de um ambiente urbano mais conectado e funcional.
No cenário global, a cidade de Seaside, na Flórida (EUA), é frequentemente apontada como um dos primeiros exemplos plenamente realizados de Novo Urbanismo. Planejada pelos arquitetos Andrés Duany e Elizabeth Plater-Zyberk no início dos anos 1980, Seaside tornou-se um marco internacional do movimento, combinando uso misto, densidade moderada, ruas agradáveis ao pedestre e espaços públicos vibrantes. O projeto inclui centenas de unidades residenciais, lojas, restaurantes, espaços culturais e infraestrutura comunitária, tornando-se referência em caminhabilidade, diversidade de tipologias e identidade urbana integrada.
Outro caso emblemático nos EUA é Celebration, também na Flórida, planejada a partir de 1994 em uma colaboração entre a Walt Disney Corporation e o escritório Cooper, Robertson & Partners, com influência dos princípios do Novo Urbanismo. Celebration foi idealizada como uma cidade ativa que combina residências, comércio, serviços e lazer, buscando resgatar valores do planejamento urbano tradicional em um contexto contemporâneo. Além de sua popularidade entre moradores e visitantes, o projeto é frequentemente citado como exemplo de como o Novo Urbanismo pode ser aplicado em larga escala no desenvolvimento urbano.
Esses casos demonstram como, em contextos variados, os princípios do Novo Urbanismo têm sido traduzidos em projetos concretos, gerando debates importantes sobre qualidade de vida, sustentabilidade e desenho urbano em diferentes partes do mundo.