Peñico: A arte de reinventar a cidade em tempos de crise climática

Peñico revela como uma sociedade milenar leu os limites ambientais e respondeu com planejamento, cooperação e preservação cultural.

Por Nathalia Ribeiro em 6 de janeiro de 2026 8 minutos de leitura

Guia de turismo e turista em Penico no Peru visitando locais arqueológicos
Foto: rjankovsky/ Shutterstock

O vale do Supe, ao norte do Peru, parece hoje um território improvável para o surgimento de uma cidade. Escarpas ocres, planícies varridas pelo vento e vestígios de paredes de adobe corroídas pelo tempo compõem uma paisagem marcada pelo silêncio e pelo calor extremo do deserto. À primeira vista, nada ali sugere permanência, muito menos sofisticação urbana.

Ainda assim, foi nesse cenário árido que a arqueóloga peruana Ruth Shady, descobriu a cidade de Peñico e foi construída pela civilização caral, considerada a mais antiga do continente americano. Mais do que revelar novos dados sobre a origem das cidades nas Américas, o sítio arqueológico lança luz sobre uma sociedade que enfrentou uma grave crise climática sem recorrer à guerra, apostando na adaptação territorial, na cooperação e na preservação de seus rituais e expressões culturais.

Emergindo lentamente do deserto, Peñico não apenas amplia o mapa da arqueologia pré-colombiana, como também propõe uma reflexão contemporânea: em tempos de colapso ambiental, que tipos de cidades e relações humanas são capazes de sustentar a vida?

Uma descoberta que muda o mapa da civilização americana

Localizada a cerca de quatro horas ao norte de Lima, Peñico foi identificada em uma região estratégica do vale do Supe, área já conhecida por abrigar Caral, o mais antigo centro urbano das Américas. Construída há aproximadamente 3,8 mil anos, a cidade permaneceu por séculos soterrada pelo deserto até ser revelada pelas escavações lideradas por Ruth Shady, arqueóloga responsável por três décadas de pesquisas na região.

O sítio arqueológico recém-escavado reúne 18 estruturas, entre templos cerimoniais, praças e compostos residenciais, indicando uma organização urbana complexa e planejada. Longe de ser um assentamento isolado, Peñico integra um sistema maior de ocupação territorial desenvolvido pela civilização caral, que floresceu no litoral árido do Peru muito antes do surgimento dos incas, maias e astecas.

A importância da descoberta vai além da ampliação do número de sítios conhecidos. Peñico oferece evidências inéditas sobre um momento crucial da história caral: o período de crise climática que levou ao abandono de antigos centros urbanos e forçou a sociedade a repensar sua relação com o território, a água e os fluxos de troca. Ao revelar como parte dessa população se reorganizou espacialmente, a cidade passa a ocupar um lugar central na compreensão das origens urbanas do continente.

Caral: o berço pacífico das Américas

pirâmides de pedra monumentais, praças, pátios circulares rebaixados e outras estruturas arquitetônicas
Foto: BETO SANTILLAN/ Shutterstock

Muito antes de impérios como o inca, o maia ou o asteca moldarem a paisagem política e territorial das Américas, o litoral árido do atual Peru foi o cenário de uma das sociedades mais antigas do mundo. A civilização caral se desenvolveu entre aproximadamente 3000 a.C. e 1800 a.C., no vale do Supe, período em que outras grandes culturas urbanas floresciam, de forma paralela, no Egito e na Mesopotâmia.

Reconhecida pela Unesco como o berço da civilização no continente americano, Caral se destaca não apenas por sua antiguidade, mas por um traço raro na história das cidades: a ausência de evidências de guerra. As escavações não revelaram muralhas defensivas, armas ou estruturas militares, um contraste em relação a outras civilizações antigas, muitas vezes organizadas em torno da conquista e da dominação territorial.

As pesquisas lideradas por Ruth Shady indicam que Caral era uma sociedade estruturada a partir do comércio, do intercâmbio cultural, dos rituais e da música. Cerca de três mil pessoas habitavam o centro urbano principal, enquanto diversas aldeias menores se espalhavam pelo vale. A posição estratégica do território conectava o litoral do Pacífico aos vales férteis dos Andes e à floresta amazônica, formando uma extensa rede de trocas que sustentava tanto a economia quanto a diversidade cultural do povo caral.

Algodão, batata-doce, abóbora, frutas e pimentas eram cultivados e trocados por minérios das montanhas e por animais vindos da Amazônia, como macacos-de-cheiro e araras, que se tornavam parte do cotidiano da população. “Eles mantinham relacionamentos interculturais com pessoas da floresta, das montanhas e mais distantes, do Equador e da Bolívia, mas sempre de forma pacífica”, explica Shady à BBC, o que reforça a ideia de uma civilização que se organizava mais pelo consenso do que pela força militarista.

Arquitetura, urbanismo e cultura como infraestrutura social

Sítio arqueológico da Cidade Sagrada de Caral-Supe, no Peru
Foto: Eduard Goricev/ SHutterstock

A criatividade da civilização caral se expressava não apenas em seus modos de organização social, mas também na forma como desenhava e ocupava o território. Em Caral e, posteriormente, em Peñico, a arquitetura não cumpria apenas uma função simbólica ou monumental, ela operava como uma verdadeira infraestrutura social, capaz de articular encontros, rituais e relações interculturais.

Um dos exemplos mais é o anfiteatro de Caral, projetado para resistir às frequentes atividades sísmicas do Círculo de Fogo do Pacífico. Sua estrutura demonstra um conhecimento sofisticado do comportamento do solo e da engenharia construtiva, além de um design acústico singular, que permitia a realização de grandes cerimônias musicais e encontros coletivos.

As escavações revelaram 32 flautas transversais, algumas esculpidas em ossos de pelicano e outras decoradas com figuras de macacos e condores. Esses instrumentos não apenas evidenciam a centralidade da música nos rituais caral, como também materializam as conexões culturais mantidas com povos do litoral, das montanhas e da floresta amazônica.

Outro elemento urbano recorrente são as praças centrais circulares, presentes tanto em Caral quanto em Peñico. Mais do que espaços abertos, essas áreas funcionavam como pontos de convergência social, política e ritual. 

Governança pelo consenso: o significado das praças circulares

Ruínas de Caral, uma antiga sociedade peruana, sem evidências de fortificações defensivas
Foto: BETO SANTILLAN/ Shutterstock

Entre os elementos mais intrigantes revelados pelas escavações em Peñico estão suas praças centrais circulares, uma característica recorrente também em Caral. Localizadas em setores estratégicos das cidades, essas praças não funcionavam apenas como espaços rituais ou de convivência, mas possivelmente como núcleos administrativos e decisórios da sociedade caral.

A forma circular, repetida de maneira intencional, sugere um modelo de organização social baseado na horizontalidade. Diferentemente das praças retangulares ou dos complexos palacianos associados ao poder centralizado em outras civilizações antigas, esses espaços parecem ter sido concebidos para o encontro, a escuta e a participação coletiva. Para os arqueólogos, trata-se de um forte indício de que as decisões políticas e sociais eram tomadas por meio do consenso.

Essa hipótese ganha força quando observada em conjunto com a ausência de estruturas militares, hierarquias defensivas ou símbolos de dominação. Em vez disso, a cidade se organizava a partir de rituais, práticas culturais e encontros comunitários, nos quais a arquitetura desempenhava um papel ativo na mediação das relações sociais.

A leitura urbana de Peñico aponta para uma experiência singular na história das cidades: uma sociedade que, em meio a uma crise ambiental profunda, manteve sua coesão sem recorrer à violência ou à centralização autoritária. Um modelo de governança que antecede em cerca de dois mil anos as experiências democráticas da Grécia Antiga e que reforça a originalidade da civilização caral no panorama das culturas urbanas do mundo.

Quando o clima impôs um limite

Apesar de seu alto grau de organização social e cultural, a civilização caral enfrentou um desafio que nenhuma arquitetura ritual ou rede de trocas foi capaz de evitar: uma profunda transformação climática. Cerca de quatro mil anos atrás, o vale do Supe foi atingido por um longo período de seca que se estendeu por aproximadamente 130 anos, parte de uma mudança climática de escala global que também afetou regiões como a Mesopotâmia, o Egito e a China.

A redução drástica das chuvas comprometeu os rios, secou os campos agrícolas e desencadeou uma crise alimentar severa. As bases econômicas que sustentavam a civilização caral entraram em colapso, forçando o abandono progressivo de suas pirâmides, praças monumentais e centros cerimoniais, que acabaram engolidos pelo deserto ao longo dos séculos.

Durante anos, os pesquisadores defenderam a hipótese de que os sobreviventes da crise climática teriam migrado em massa para o litoral, onde a coleta de peixes, moluscos e algas poderia garantir a subsistência. Escavações em sítios arqueológicos como Vichama, no vizinho vale do Huaura, pareciam confirmar esse movimento.

No entanto, a descoberta de Peñico acrescenta uma nova camada a essa história. Em vez de um deslocamento único e homogêneo, ela revela que parte da população caral adotou estratégias alternativas de sobrevivência, redesenhando sua ocupação territorial diante da escassez extrema de água.

Peñico: a cidade da adaptação climática

Construída rio acima em relação a Caral, a cerca de 600 metros acima do nível do mar e a apenas 10 quilômetros de distância do antigo centro urbano, Peñico revela como parte da população caral respondeu à escassez de água, com uma reorganização estratégica do território. Ao se aproximar das fontes hídricas alimentadas pelo degelo das montanhas andinas, a comunidade encontrou condições mínimas para manter a vida em um vale cada vez mais árido.

A decisão de se deslocar para uma área mais elevada foi, ao mesmo tempo, ambiental e urbana. Peñico não apresenta sinais de ruptura cultural em relação a Caral. As escavações não encontraram muralhas fortificadas, armas ou indícios de violência, mesmo em um contexto de extrema pressão por recursos.

Segundo a arqueóloga Ruth Shady, a cidade manteve a tradição caral de viver em harmonia com a natureza e de estabelecer relações respeitosas com outros grupos culturais. A continuidade dos rituais, da música e das práticas artísticas indica que a adaptação não se limitou à sobrevivência física, mas buscou preservar os vínculos simbólicos e sociais que estruturavam aquela sociedade.

Peñico mostra, assim, que a resposta à crise climática não foi um colapso imediato, mas um processo de reinvenção urbana. Ao redesenhar sua relação com a água, a paisagem e os fluxos de troca, o povo caral construiu um modelo de resiliência que atravessou séculos soterrado pelo deserto e que hoje volta a provocar reflexões. 

Lições do passado para as cidades do futuro

Há cerca de 3,8 mil anos, uma sociedade urbana respondeu a uma crise climática profunda não por meio da conquista ou da exclusão, mas pela adaptação territorial, pela cooperação social e pela preservação da cultura como elemento estruturante da vida coletiva.

A decisão de se deslocar para mais perto das fontes de água, mantendo redes de troca e rituais comunitários, revela uma compreensão sofisticada da relação entre ambiente e cidade. Peñico mostra que resiliência urbana não se constrói apenas com infraestrutura material, mas também com vínculos sociais, espaços de encontro e formas de governança capazes de sustentar o consenso em tempos de escassez.

Essa leitura ganha urgência no presente. Uma pesquisa realizada pelo MapBiomas com Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Universidade Nacional Agrária La Molina e Instituto de Pesquisas em Glaciares e Ecossistemas de Montanha, ambos do Peru, mostra que as geleiras tropicais nos Andes — grande parte delas no Peru — perderam uma parcela significativa de sua massa e cobertura nas últimas décadas. O estudo mapeou mais de 5.500 geleiras andinas e concluiu que elas encolheram cerca de 42% entre 1990 e 2020, um declínio que ultrapassa a variação natural observada ao longo de séculos e é atribuído diretamente às mudanças climáticas e ao aquecimento global.

Aliás, o Peru, que detém cerca de 68% das geleiras tropicais do mundo, segundo dados de glaciólogos do governo local, perdeu mais da metade de sua cobertura glacial, em torno de 56% desde 1962, com implicações diretas para os estoques de água doce que abastecem comunidades e cidades inteiras. A crise enfrentada pela civilização caral, embora distante no tempo, ecoa nos dilemas atuais provocados pelas mudanças climáticas globais.

No entanto, a dinâmica atual não é apenas um fenômeno local. Um relatório da ONU de 2025 divulgado pelo The Guardian destaca que o degelo acelerado das geleiras representa uma ameaça global à segurança hídrica e alimentar de cerca de dois bilhões de pessoas, uma vez que cadeias montanhosas fornecem água de degelo fundamental para agricultura, energia e consumo humano em escala planetária. 

Assim, Peñico atravessa o tempo como um aviso e uma proposta. Diante da escassez extrema, aquela sociedade escolheu reinventar sua relação com a água, com o território e entre si, e foi essa decisão que garantiu sua continuidade por mais um longo período. Hoje, diante de uma crise climática global, a lição permanece atual: a habitabilidade das cidades depende de planejamento, cooperação e do uso responsável dos recursos naturais. Proteger a água não é apenas uma estratégia ambiental, mas um compromisso coletivo com o futuro da vida urbana.

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