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Pessoas planejam melhor cidades do que urbanistas, diz Jan Gehl

Jan Gehl, um dos principais nomes do urbanismo, falou com o Habitability sobre o futuro das cidades e o impacto da pandemia no planejamento urbano.

21 de fevereiro de 2022 - 9 minutos de leitura

Autor: Redação

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Grandes planos de cidade devem colocar as pessoas em primeiro lugar, mas, o que fazer quando a sociedade está em constante transformação? Como pensar a cidade para que ela possa absorver as novas tecnologias, captar as novas formas de experimentar ambientes e enfrentar novos desafios? Para o urbanista e arquiteto dinamarquês Jan Gehl, a resposta está nas pessoas.

Escritor do livro “Cidades para Pessoas”, Gehl é um dos pioneiros do conceito de urbanismo humanizado, trazendo a escala humana para as cidades. Com bom humor e objetividade, o dinamarquês conversou com o Habitability sobre o futuro das cidades pós-pandemia, os efeitos dos veículos autônomos na urbanização e o impacto da mudança climática nos planos urbanos. “Nós devemos sempre nos lembrar que o maior problema atual das cidades não é a Covid-19, mas as mudanças climáticas e as transformações que teremos que passar nos próximos dez anos”, avisa Gehl. 

Uma das suas principais frases no “Cidades para as Pessoas” é que “uma boa cidade é igual a uma boa festa”. Como você explica essa conexão?

Jan Gehl – Escrevi algumas vezes que uma boa cidade é como uma boa festa porque se você tem uma cidade ruim ou um espaço público ruim, o que as pessoas fazem? Elas fogem.

Elas procuram sair o mais rápido que puderem do espaço. Mas, se essas pessoas estiverem em um espaço lindo, elas querem olhar, querem ficar e gastar seu tempo no lugar. Uma boa cidade, como uma boa festa, faz as pessoas ficarem mais tempo do que planejavam. Existem três tipos de festa: aquela para a qual você recebe o convite e sabe que vai ser chato, e acaba declinando. A que você até vai, mas quando chega às 11 da noite já quer fugir, porque não está legal. E a que você fica e nem percebe que já está tão tarde, porque você se divertiu e acabou ficando muito mais tempo do que pensava que ficaria. Em uma cidade é a mesma coisa. A cidade boa é aquela que convida as pessoas a não só fazer as coisas correndo, mas a aproveitá-la. Em Roma há tantas praças e lugares legais, que quando você anda pela cidade, você pensa “puxa vida, tenho que sentar aqui, tenho que assistir tudo isso”. Você chega a um lugar e tem essa sensação de que ele é tão maravilhoso que deve ser apreciado. Essa é uma boa cidade. 

Os aspectos que tornam uma cidade boa hoje em dia são os mesmos que tornavam-na uma cidade incrível nos anos 1960 e 1970?

Jan Gehl – A internet e todas as tecnologias se desenvolveram e também vimos a cidade se desenvolver. Ela virou mais um espaço de recreação e de aprendizado. Antes, era muito mais um espaço para resolver as suas atividades e tarefas, um lugar para vender, fazer compras ou acertar algum documento. Agora é lugar de se encontrar e se divertir.

Antes, as ruas da cidade estavam cheias de pessoas fazendo apenas aquilo que tinham que fazer. Hoje você pode ver as pessoas fazendo um monte de coisas que amam ou gostam de fazer. Por outro lado, a vida na rua talvez seja um pouco limitada porque agora ela é gerida, principalmente, pelo tempo de lazer, pelo tempo em que você está livre para aproveitar. Mas também temos mais tempo de lazer e vivemos mais. Eu mesmo, tenho 85 anos, e sei que, mesmo depois da aposentadoria, temos muitos e muitos anos ativos pela frente.

Você tocou em um ponto que está mudando a vida urbana hoje em dia: o aumento da expectativa média de vida. Como as cidades devem se preparar para a mudança na pirâmide etária?

Jan Gehl – É um grande desafio. Há apenas 50 anos, havia poucos idosos na rua. Hoje, no Japão, até 30% da população é de aposentados. Em nações desenvolvidas é projetado que se chegue a 20% da população e a maioria das nações ocidentais terá uma fatia considerável da população aposentada… E são pessoas que querem fazer parte da vida urbana. Os médicos, inclusive, falam para os idosos terem uma vida ativa. Eu mesmo sigo a regra de 10 mil passos por dia para me manter saudável. Isso significa que precisamos ter uma boa cidade para idosos aproveitarem a vida. E, para falar a verdade, quando a gente pensa em uma cidade boa para a população mais velha, não é tão diferente de se pensar em uma cidade boa para todas as outras pessoas.

Cidades que são boas para crianças viverem, boas para adultos viverem, para pessoas com deficiência viverem, também são boas para idosos viverem. Não existe algo especial para os idosos. 

Quais os principais desafios de se gerir uma cidade atualmente? E quais são as principais ameaças rondando o espaço urbano?

Jan Gehl – O principal desafio é apenas um: a mudança climática. Esse é, talvez, o maior problema com o qual a gente tem que lidar no mundo. Nas cidades esse problema aparece sob várias faces. Uma delas, que aparece já há 50 anos e ainda não conseguimos lidar, é o trânsito.

Falamos há décadas dos problemas gerados pela grande quantidade de automóveis nas cidades, e, mesmo assim, o trânsito apenas piorou.

E é um problema real. Temos um número grande de novas tecnologias e, mesmo assim, a tecnologia dos veículos continua antiga. Ela já foi inteligente há anos atrás, em Detroit nos anos 1910-1920. Mas não são mais tão inteligentes hoje em dia para São Paulo, por exemplo. Há muitos carros e eles são muito barulhentos. O maior problema atual das cidades não é a Covid-19, mas as mudanças climáticas e as transformações pelas quais teremos que passar nos próximos dez anos. E para diminuir a velocidade dessas mudanças será necessário um esforço coletivo gigante. Teremos que mudar nossas cidades e nossos estilos de vida para, de fato, agirmos com relação a esses problemas. 

Os carros elétricos e autônomos estão superando essa “tecnologia antiga”?

Foto: olgagorovenko / Shutterstock.com

Jan Gehl – As pessoas falam que quando tivermos carros automatizados os problemas de trânsito serão resolvidos. Mas ainda há uma questão prática: não há espaço para todos esses carros. Sejam elétricos ou automáticos, eles ocupam espaço. Espaço esse que deveria ser das pessoas. Ou seja, ainda assim teremos que encontrar soluções mais práticas e mais amigas do clima para a mobilidade global. E isso passa por um sistema de transporte público bom, especialmente o metrô. Não precisamos de todos esses carros. Precisamos facilitar a caminhada, o uso de bicicleta… muitas necessidades de mobilidade das pessoas podem ser resolvidas sem precisar de uma tecnologia autônoma. Um exemplo de Copenhague, que é onde moro, é que 50% de todos que vêm trabalhar e estudar no centro da cidade usam bicicleta. Outra grande porcentagem está vindo de transporte público. É muito impraticável ter um carro em Copenhague. Eles se certificaram de tirar o estacionamento de áreas centrais, aumentaram o número de faixas de ônibus, de trens e de ciclovias. Você até pode ir de carro, mas não é prático. 

E como fica a questão de planejar a mobilidade dos carros na cidade?

Jan Gehl – Até hoje, parte do planejamento urbano ficou tão preocupado com a mobilidade [de carros] que se esqueceu de criar bons lugares para morar. Falamos o tempo todo sobre como fazer a mobilidade acontecer, mas pensando em carros, não em pessoas. Quando pensamos em pessoas, criamos bons lugares para viver. Acho que é importante a gente mover o foco e a conversa de mobilidade para falar sobre os lugares onde a vida deve acontecer. A mobilidade urbana [de carros] é como os corredores da casa. Mas quais são os espaços importantes das casas? São os quartos, as salas, as cozinhas, não os corredores. Mas nessa cidade estão todos tão ocupados com os corredores que às vezes esquecem de fazer salas de estar mais agradáveis, ou seja, os espaços públicos. 

Existem algumas cidades que têm mudado as funções das ruas, como São Paulo, que fecha a Avenida Paulista para carros aos domingos, criando uma função mais voltada para as pessoas. Como você vê esses movimentos?

Jan Gehl – Antigamente tínhamos duas ruas – os boulevards ou ruas de carros. Hoje em dia temos mais tipos de rua e, portanto, mais flexibilidade para fazer um bom planejamento. Nas cidades ao redor do mundo há tantos experimentos, tantas novidades, que eu sempre digo que qualquer problema de planejamento urbano já foi resolvido em algum lugar. O truque é descobrir onde e como foi resolvido. Por isso é importante sabermos o que várias cidades ao redor do mundo estão fazendo o tempo todo, porque elas estão mudando continuamente com o passar do tempo.

Falando em exemplos, quais os urbanistas devem seguir para criar uma boa cidade hoje em dia. E quais evitar?

Jan Gehl – Eu normalmente diria “não repitam Dubai”. Com tantos arranha-céus, são uma terra de ninguém, pois não parece ser pensada para as pessoas. Outro exemplo é Brasília, que foi a primeira grande cidade onde não havia calçadas, apenas vias para carros. Havia prédios, talvez com algumas rodovias e ruas, mas não ruas e praças. Esses são modelos que não estão dando certo, se olharmos do ponto de vista das pessoas. É muito mais legal quando você sai do plano piloto de Brasília e vê a outra parte da cidade, a parte que não foi planejada pelos urbanistas, mas sim pelas pessoas, porque é onde as pessoas vivem, de fato, a cidade. 

As pessoas costumam fazer melhores cidades do que os planejadores. Você também pode ver isso nas favelas, no sentido da socialização e da criação de espaço para a comunidade. Existem pontos de encontro em uma escala humana muito boa. Para mim, isso mostra que quando as pessoas têm que decidir por si mesmas, elas fazem cidades para promover encontros. 

Já um exemplo bom de cidade é Veneza, onde não existe espaço para carros. Dubai já é o contrário. São apenas prédios bobos e trânsito. Então, pra mim, esses são os extremos. 

No Brasil, eu estudei bastante a cidade de Curitiba por uns anos como um bom exemplo, um modelo do que o mundo deveria conhecer. Na Colômbia também tem bons modelos a serem seguidos, como a cidade de Medelin e de Bogotá. Não significa que essas cidades estejam sempre tomando as melhores decisões com relação ao planejamento urbano, mas elas têm um planejamento que, em tese, indica que nos próximos anos terão um bom futuro. Isso se fizerem um trabalho contínuo por décadas.

Qual seria o melhor cenário para as cidades em 2050? E qual o pior cenário possível?

Jan Gehl – Não vou falar do pior cenário possível porque a gente já vive no pior cenário.  Alguns dizem que não podemos estar piores. Nos próximos 30 anos temos que resolver a questão climática, tornando as cidades neutras em emissão de carbono. Temos que mudar nosso hábito de mobilidade para algum modal que seja mais verde e menos impactante no clima e termos um sistema de mobilidade que não ocupe tanto espaço, nem cause tantos acidentes e problemas quanto o antigo sistema de Detroit [conhecido como “motor-town”, em tradução livre, cidade-motor], que privilegia carros e rodovias. Portanto, eu acredito que a cidade dos próximos 30 anos vai ver uma mudança acentuada no sentido das políticas climáticas e de mobilidade, com redução no uso de carros privados. Além disso, veremos muito mais idosos, que demandarão calçadas maiores. E espaços para as pessoas caminharem, passearem e encontrarem seus amigos. Então eu realmente tenho uma visão de que a cidade daqui a 30 anos seja melhor do que as cidades que conhecemos hoje. Seremos mais inteligentes como seres humanos.

O sistema que dá foco para os carros criou até algumas medidas de tempo específicas. Em algumas cidades, tem se “medido” a distância em minutos. Como você vê esse modelo?

Jan Gehl – Tem uma série de ideias bem interessantes que estão sendo levadas a público usando essa métrica, que está sendo colocada em prática em Paris, que é a ideia das cidades de 15 minutos (15 minutes city). No lugar de dispersar as diferentes funções da cidade em bairros, o objetivo desse planejamento é enriquecer os bairros para que as pessoas não precisem usar mais do que 15 minutos a pé ou de bicicleta para realizarem a maioria das tarefas. A ideia é reduzir a necessidade de grandes mobilidades e dar aos cidadãos acesso mais próximo a todos os melhores serviços. 

Como o trabalho remoto pode ajudar nesse processo das cidades de 15 minutos? 

Jan Gehl – Quanto mais você trabalha em casa, menos precisa criar trânsito. Com dois dias da semana trabalhando de casa, o tráfego pode ser reduzido em 40%. Mas há tantas pessoas que não podem trabalhar de casa. As enfermeiras, os médicos, os lixeiros, os motoristas do transporte público e todos os idosos que não podem ficar olhando para uma tela o dia todo. Eles precisam sair, tomar ar fresco e fazer exercícios ou serão muito caros para a sociedade. É por isso que temos que ter uma boa estratégia. 

Algumas coisas podem ser feitas em casa, mas não vimos o outro lado da moeda. Por exemplo, pode ser que muitos casais se divorciem porque não suportam ficar em casa juntos, o dia todo, a semana toda. Além disso, acho que muitas pessoas precisam ter um local de trabalho onde possam conhecer e se relacionarem com outras pessoas fisicamente. Para muitas pessoas, o local de trabalho se torna parte da família. É onde você se relaciona e interage socialmente. É a situação até de pessoas mais velhas que, de repente, não têm nada além de si mesmos e seus filhos também atarefados em suas rotinas. Então não dá para contar apenas com o trabalho remoto para ser o fator transformador das cidades. Eu ainda acredito nos aspectos antigos de cidades, com espaços públicos de qualidade e praças.