Um movimento crescente está mudando os padrões de uso de veículos e isso inclui a iniciativa de tirá-los das ruas – temporária ou definitivamente. Saem os carros e entram o transporte coletivo, ciclistas e, principalmente, pedestres. A proibição de tráfego veicular em quarteirões, ruas ou bairros geralmente torna esses locais mais seguros para caminhadas, ciclismo e socialização e os exemplos vão de Barcelona a Bogotá. Os ganhos incluem desde a redução da emissão de carbono à ressignificação das ruas como espaço de lazer.

Veja, a seguir, modelos de reurbanização selecionados pelo Habitability  e inspire a construção do amanhã em sua cidade:

Los Angeles sem tráfego

Urbanistas e líderes de cidades não podem testar muitas de suas ideias em um laboratório, pois as cidades são grandes, complexas e muito interconectadas para serem observadas em um ambiente controlado. Mas um experimento de ocorrência natural surgiu na primeira metade de 2020, quando a pandemia de coronavírus provocou bloqueios que virtualmente esvaziaram as ruas. O momento proporcionou um vislumbre amplo de uma questão cada vez mais importante: o que acontece quando uma cidade se livra dos carros? Exemplos ao redor do mundo respondem a essa questão: a hora do rush desapareceu em Los Angeles, de acordo com a INRIX, uma empresa que analisa dados globais de tráfego. Muitas cidades europeias, por sua vez, tiveram 80% menos tráfego durante o pico das paralisações, de acordo com o app de navegação TomTom.

Reurbanização de Madri a Paris e Oslo

Desde 2015, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, liderou um plano ambicioso e fortemente contestado para proibir carros ao longo das margens do rio Sena, que antes era uma importante via pública na cidade.

Oslo, na Noruega, prometeu proibir carros no centro da cidade (embora tenha voltado para o “menor número de carros possível”). Enquanto isso, em Madrid, em 2019, o prefeito recém-eleito recuou em meio a protestos públicos massivos depois de prometer reverter os planos sem carros no centro da cidade.

Em uma iniciativa coletiva, membros selecionados do C40, uma coalizão internacional de cidades que lutam contra a mudança climática, se comprometeram a criar grandes zonas sem carros nos centros das cidades até 2030.

KarlosWest / Shutterstock.com

Nova Iorque e o calçadão

Nos Estados Unidos, a cidade de Nova York causou sensação em 2009 ao banir carros na Times Square após um aumento no número de acidentes. A praça de pedestres que ali surgiu se tornou um modelo para redesenhar as vias e espaços reurbanizados em toda a cidade, muitas vezes vendo resultados favoráveis ​​com a mudança de apenas um quarteirão de cada vez.

No ano passado, uma década após essa iniciativa, que envolve algumas partes da Times Square, um escritório alemão de arquitetura projetou como seria essa parte da ilha de Manhattan se houvesse o fechamento de áreas adicionais ao longo da Broadway. O projeto alemão redesenhou a Times Square para priorizar pedestres e ciclistas, trocando faixas de tráfego de veículos por atividades recreativas, paisagismo e transporte público. O conceito surge enquanto Nova Iorque e outras cidades continuam a reexaminar o valor do espaço público seguro na luta para controlar a pandemia do coronavírus.

Gabriel Leonardo Guerrero / Shutterstock.com

A ciclovia de Bogotá

A Ciclovia de Bogotá, na Colômbia, mostra que o processo de reurbanização pode ser gradual também. Já em 1974, grandes trechos de estradas são fechados para carros e se transformam em ciclovias aos domingos, permitindo que cerca de um quarto dos residentes da cidade apareçam todas as semanas para exercícios e atividades sociais. A popularidade da Ciclovía inspirou mudanças mais amplas na cidade, com reformulações de ruas e a expansão da infraestrutura de ciclismo.

O programa colombiano restringe o fluxo veicular em algumas vias da cidade, que normalmente são de uso exclusivo de veículos motorizados, habilitando-as e garantindo a sua utilização para o trânsito recreativo de pedestres, ciclistas, patinadores e caminhantes. A Ciclovía tornou-se, portanto, um espaço de recreação esportiva, que promove o uso adequado dos tempos livres e funciona entre as 7h e 14h em todos os domingos e feriados do ano.

Ao todo, são 127,69 km de circuito, cobrindo várias áreas da cidade.

Barcelona e suas superquadras

Talvez o estudo de caso mais atraente de reurbanização venha de Barcelona, ​​onde o sistema de superquadras transformou bairros desde que foi testado pela primeira vez em 2016. O conceito conecta uma série de quarteirões tradicionais da cidade e os transforma em superquadras exclusivas para pedestres, onde as estradas internas tornam-se corredores de transporte sem carros (ou com limitação severa).

Cada uma dessas áreas incentiva a criação de novos parques, interações e integração com a vizinhança, bem como o varejo de rua onde antes ficavam carros e estacionamentos. Estudos mostram que as áreas de superquadras mais antigas aumentaram a caminhada em 10% e o ciclismo em 30%. O Banco Europeu de Investimento já financiou a expansão dos superquadras como uma iniciativa de recuperação econômica da Covid-19.

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Fortaleza e a Cidade da Gente

No Brasil, a capital cearense é um exemplo de tomada das ruas com o projeto Cidade da Gente, ou “Cidade do Povo”. Trata-se da primeira intervenção de transformação de ruas para acalmar o trânsito na cidade e isso acontece desde 2017.

No bairro de Cidade 2000, o projeto reverteu a prioridade das estradas tradicionais de veículos para pedestres. Os carros não foram totalmente excluídos: uma faixa de tráfego e vagas de estacionamento ainda estão disponíveis, mas a Cidade da Gente transformou 1,2 mil metros quadrados de vagas e faixas de tráfego em área de pedestres por 15 dias.

Segundo reportagem realizada na época pelo portal The City Fix, o projeto de Fortaleza envolveu os residentes na formação dos espaços públicos e mediu como as pessoas interagem com o novo espaço. A transformação usou tinta, vasos de plantas, bancos e cones para criar uma área maior e melhorada para os pedestres, ampliando calçadas antes estreitas e adicionando travessias e extensões de meio-fio para aumentar a segurança.

P.Cartwright / Shutterstock.com

Reurbanização em Southampton também aposta nos pedestres

A cidade inglesa Southampton fechou a área de Bedford Place, no centro urbano, em meio a um debate polêmico e que ainda continua, podendo até mesmo resultar no fechamento de mais vias para o tráfego de automóveis.

As ideias incluem novos centros de transporte no estacionamento Albion Place e na Estação Central de Southampton, bem como novos cruzamentos, calçadas mais largas e ciclovias fora do centro cívico.

A decisão atual é política, mas existe a expectativa de que seja implantado um plano de transporte de 18,5 milhões de libras, envolvendo a transformação total de Bedford Place numa via de pedestres, bem como as iniciativas para renovar o Centro Esportivo e criar um novo centro de lazer de última geração no região. 

Buenos Aires amplia uso de ruas

Desde setembro de 2020, a capital argentina tem criado novas áreas transitórias para pedestres. Há pelo menos um por comuna e, na maior parte, com restrição total de veículos às sextas, sábados e domingos.

As regiões fechadas ao tráfego possuem demarcações especiais para que as pessoas possam caminhar ao ar livre ou sentar para comer, desde que respeitem os protocolos de higiene e segurança em relação à Covid-19. A iniciativa estabeleceu que desde o começo todas as áreas deveriam ter cabines higienizadoras (dispensadores de higienização das mãos) para acesso dos pedestres.

O horário de funcionamento é a partir das 17h nas sextas-feiras. O sistema também evita a sobrecarga do transporte público e consolida-se como mudança urbana e cultural.