Investimentos hídricos se consolidam na COP30

Lançada na COP30, a iniciativa articula CEPAL, CAF e GWP para estruturar projetos de água e resiliência climática em escala continental

Por Nathalia Ribeiro em 3 de dezembro de 2025 4 minutos de leitura

Hidrelétrica Belo Monte, uma usina de energia hidrelétrica em operação no Brasil, que reforça a segurança hídrica ao fornecer energia renovável e sustentável.
Foto: PARALAXIS/ Shutterstock

A apresentação do novo programa para mobilizar até US$ 20 bilhões de investimentos em segurança hídrica na América Latina e no Caribe, durante a COP30, evidencia um movimento que vem ganhando forma há alguns anos: a transição da agenda da água de um tema técnico-setorial para um pilar estruturante da adaptação climática e do planejamento urbano.

O anúncio, liderado por Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), banco de desenvolvimento para a América Latina e Caribe (CAF) e Global Water Partnership, não se destaca apenas pelo volume de recursos pretendido, mas pelo esforço de organizar, em escala continental, uma resposta coordenada a um conjunto de pressões que se acumulam, desde a recorrência de secas e inundações extremas até a insuficiência histórica dos sistemas de abastecimento e saneamento.

Tal cenário não é circunstancial. Ele resulta da combinação entre urbanização acelerada, maior recorrência de eventos extremos e décadas de investimentos insuficientes em infraestrutura hídrica. Apenas no Brasil, os dados do Censo 2022 evidenciam essa fragilidade: 49 milhões de pessoas (24,3% da população) ainda vivem em 16,4 milhões de domicílios com soluções precárias de esgotamento, como fossas rudimentares, valas ou descarte direto em rios e mares. Além disso, 4,8 milhões de brasileiros não têm acesso à água encanada e 1,18 milhão não dispõe sequer de banheiro ou sanitário, revelando um déficit estrutural que afeta diretamente a saúde e a qualidade de vida.

Esse contexto ajuda a entender por que a água, historicamente vista como infraestrutura de suporte, passa a ocupar posição central na formulação de estratégias de longo prazo. Na COP30, a articulação entre organismos multilaterais, líderes regionais e bancos de desenvolvimento sugere a tentativa de construir uma abordagem mais harmonizada, capaz de estruturar projetos que atendam simultaneamente às demandas de resiliência e eficiência.

O que é a iniciativa de segurança hídrica e por que ela importa?

A Iniciativa Regional de Investimento em Água e Resiliência Climática propõe mobilizar recursos para projetos que reforcem a capacidade hídrica da região frente às mudanças climáticas. Embora o valor estimado em US$ 20 bilhões até 2030 seja o elemento mais visível, o programa se destaca, principalmente, pela tentativa de criar um eixo comum de atuação para países que historicamente enfrentam desafios semelhantes, mas operam com prioridades, capacidades técnicas e instrumentos de financiamento bastante heterogêneos.

A iniciativa reúne três dimensões que costumam aparecer de maneira desconectada: investimento em infraestrutura, gestão integrada da água e resiliência climática. Ao aproximá-las, o programa busca estimular projetos que vão além da expansão do abastecimento ou da modernização de sistemas de irrigação, incorporando análises de risco climático, governança e monitoramento, além de critérios que facilitem a captação de recursos em fontes públicas, privadas e climáticas.

Outro ponto relevante é a inspiração declarada no modelo africano AIP (Africa’s Investment Programme), que mostrou que a criação de estruturas regionais para preparar e viabilizar projetos pode acelerar a entrada de capital. A adoção dessa lógica na América Latina e no Caribe indica uma tendência de profissionalização dos instrumentos de financiamento hídrico, reduzindo a dependência de ações emergenciais e ampliando a capacidade dos países de transformar necessidades históricas em projetos financiáveis.

Desigualdades hídricas ampliam vulnerabilidades urbanas 

Mulheres em uma comunidade abastecendo galões de água em torneira que simboliza a segurança hídrica em áreas vulneráveis. A imagem mostra a importância do acesso à água potável para reduzir desigualdades e vulnerabilidades urbanas.
Foto: sntes/ Shutterstock

A relação entre segurança hídrica e habitabilidade se torna especialmente evidente na América Latina e no Caribe, onde as desigualdades no acesso à água potável e ao saneamento permanecem como um dos principais vetores de vulnerabilidade urbana. Embora haja avanços pontuais, o cenário ainda é crítico: segundo a CEPAL, aproximadamente 25% da população não dispõe de água potável e 66% vive sem saneamento seguro.

Essas desigualdades se aprofundam quando se observa a eficiência dos sistemas existentes. Em alguns países, as perdas de água nos sistemas de distribuição chegam a 60%, de acordo com a própria CEPAL. Esse índice revela um ciclo de fragilidade, isto é, redes antigas e mal mantidas exigem altos investimentos para operar, encarecem tarifas, reduzem a confiabilidade do serviço e perpetuam a exclusão das populações mais vulneráveis. 

No campo dos riscos climáticos, a pressão é ainda maior. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD) aponta que 74% dos desastres naturais na região estão associados à água, incluindo enchentes, secas e tempestades cada vez mais intensas. Nas periferias urbanas, onde infraestrutura precária, irregularidades no abastecimento e baixa qualidade da água se acumulam, a vulnerabilidade é ampliada. A saúde pública se fragiliza, os serviços essenciais ficam sujeitos a interrupções e a capacidade de adaptação climática das cidades é reduzida. 

O que a COP30 sinalizou para o futuro da água na região

A apresentação do programa durante a COP30 reforça a tendência de que a água deve se consolidar como um dos eixos centrais da agenda de adaptação climática na América Latina e no Caribe na próxima década. A criação de um Painel de Alto Nível sobre Água e Mudanças Climáticas, composto por chefes de Estado, ampliou o peso político do tema e sugere que a governança da água poderá ganhar maior estabilidade institucional.

Ao mesmo tempo, a coordenação entre CEPAL, CAF e a Parceria Global pela Água indica um movimento de maior alinhamento entre organismos multilaterais, bancos de desenvolvimento e governos nacionais. Essa convergência reduz a fragmentação típica desse campo e sinaliza uma virada: sair da lógica de respostas emergenciais e ampliar o foco em planejamento de longo prazo, com métricas claras de impacto, priorização territorial e integração com políticas urbanas, agrícolas e de infraestrutura.

A COP30 também evidenciou que os países passam a reconhecer a água como infraestrutura estratégica de adaptação. Investimentos em potabilização, irrigação eficiente, proteção contra secas e cheias e digitalização de sistemas hídricos deixam de ser vistos apenas como ações setoriais e passam a compor um pacote integrado de resiliência climática, com potencial de gerar ganhos sociais e econômicos.

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