Sociobioeconomia: o que é e por que esse conceito ganhou força no debate climático

Esse conceito beneficia o meio ambiente e os povos, especialmente indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais

Por Marcia Tojal em 26 de janeiro de 2026 3 minutos de leitura

Camille Bemerguy, especialista em sociobioeconomia, em reunião, com plantas ao lado
Camille Bemerguy (Foto: Arquivo pessoal)

Imagine uma comunidade ribeirinha que, há gerações, vive do manejo de pirarucu, castanha e açaí. O conhecimento sobre o ciclo das cheias, o cuidado com o lago, as regras coletivas de pesca e a repartição da renda entre as famílias fazem parte do dia a dia tanto quanto a floresta ao redor. Quando esse modo de vida passa a ser reconhecido como base de um modelo econômico justo, sustentável e protagonista das decisões sobre o território, estamos falando de sociobioeconomia.

O documento de referência do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, elaborado no contexto do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia, define a sociobioeconomia, também chamada de “bioeconomia da sociobiodiversidade”, como um modelo que:

  • Conecta conservação e recuperação de ecossistemas com práticas e conhecimentos tradicionais;
  • Valoriza produtos e serviços da sociobiodiversidade;
  • Busca repartição justa de benefícios para as populações que mantêm florestas e recursos hídricos.

Camille Bemerguy, secretária adjunta de bioeconomia da Secretaria de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Pará (Semas), explica que a sociobioeconomia é uma abordagem da bioeconomia que coloca as pessoas, os territórios e os modos de vida no centro da estratégia econômica, com especial atenção a povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Diferentemente de concepções mais convencionais, a sociobioeconomia integra o uso sustentável da biodiversidade à geração de renda local, à justiça social, à valorização dos saberes tradicionais e à repartição justa de benefícios. No Pará, essa visão orienta o Plano Estadual de Bioeconomia (PlanBio), que compreende a bioeconomia como instrumento de transição para uma economia de baixo carbono, promotora do bem viver, da floresta em pé e do desenvolvimento territorial.

Leia também: Arquitetura afro-brasileira: raízes ancestrais para cidades do futuro

“Por ser intrinsecamente territorial, a sociobioeconomia parte do entendimento de que seus principais ativos — biodiversidade, saberes tradicionais e arranjos produtivos locais — estão profundamente ancorados nos territórios. Em biomas como Amazônia, Cerrado e Caatinga, não há um único modelo de produção sustentável, mas diversas sociobioeconomias, moldadas por contextos ecológicos, sociais e logísticos específicos”, explica Camille.

No Pará, por exemplo, essa abordagem se materializa em políticas públicas que adotam as Regiões de Integração como base de planejamento, possibilitando ajustar instrumentos de fomento, infraestrutura, assistência técnica e inovação às realidades locais, promovendo escala sem padronização e preservando as identidades produtivas. Nesse contexto, os saberes tradicionais não são tratados como elementos simbólicos ou folclóricos, mas como base técnica e produtiva estratégica. Eles são incorporados por meio de governança compartilhada, salvaguardas socioambientais e mecanismos de repartição justa de benefícios, assegurando direitos, autonomia e protagonismo das comunidades, acrescenta ela.

Sociobioeconomia e as cidades

Manaus, capital da Amazônia, Brasil, vista aérea da área metropolitana com o rio Amazonas ao fundo, capturada por drone
Foto: Ricucci Michele/ Shutterstock

Um estudo da Embrapa sobre bioeconomia na Amazônia identifica as áreas urbanas como uma das categorias territoriais da região, com atividades e necessidades específicas para o desenvolvimento sustentável, ao lado de áreas conservadas, convertidas e em transição.

Segundo Camille, as cidades desempenham papel estratégico na sociobioeconomia, funcionando como nós de conexão entre os territórios produtivos, os mercados e os ambientes de ciência e inovação. Elas concentram infraestrutura logística, universidades, centros de pesquisa, serviços financeiros e canais de comercialização essenciais para a agregação de valor aos produtos da sociobiodiversidade.

Dessa forma, a sociobioeconomia se conecta de forma direta com a arquitetura, o urbanismo e o planejamento territorial ao priorizar materiais renováveis, cadeias produtivas locais e soluções construtivas ajustadas aos biomas e ao clima, integrando infraestrutura verde, soluções baseadas na natureza, eficiência energética, conforto ambiental e inclusão social.

Crescimento na lógica da sociobioeconomia 

De acordo com Camille, crescer na lógica da sociobioeconomia não significa ampliar a exploração dos recursos naturais, mas qualificar processos, agregar valor, diversificar cadeias produtivas e distribuir benefícios de forma mais justa, respeitando os limites ecológicos e os tempos dos territórios. O crescimento ocorre pela escala do conhecimento, da inovação, da organização produtiva e do acesso a mercados, fortalecendo arranjos locais e gerando renda com a floresta em pé, sem repetir modelos predatórios.

O papel da sociobioeconomia no enfrentamento da crise climática

A sociobioeconomia cumpre papel estratégico ao reduzir emissões, conservar ecossistemas e fortalecer a resiliência social, conectando-se a agendas como mercado de carbono, restauração, adaptação e justiça climática, com salvaguardas sociais e protagonismo de povos e comunidades tradicionais.

No entanto, para que seja reconhecida como um dos pilares do desenvolvimento brasileiro, é fundamental integrá-la aos planejamentos econômicos, orçamentários e territoriais, adotar métricas que valorizem ativos ambientais, sociais e culturais e ampliar a articulação entre governos, setor produtivo, sistema financeiro, ciência e territórios. 

Para Camille, é necessário avançar no reconhecimento institucional e econômico da sociobioeconomia como estratégia de desenvolvimento, e não como política compensatória ou de nicho. Também é fundamental ampliar a articulação entre governos, setor produtivo, sistema financeiro, ciência e territórios, criando ambientes favoráveis à inovação e à escala responsável. A experiência do PlanBio e do Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia no Pará demonstra que “com coordenação institucional, investimento e visão de longo prazo, a sociobioeconomia pode se consolidar como vetor central do desenvolvimento sustentável no Brasil”, conclui.

Visão geral da privacidade

O Habitability coleta dados pessoais fornecidos por você e, também, automaticamente, a partir das suas atividades de navegação.

Por padrão, as informações que você nos fornece, incluindo, eventualmente, dados que permitem a sua identificação, como acontece se você optar por receber nossa newsletter, não são conectadas às informações de navegação.  Sendo assim, garantimos a você que não fazemos rastreamento individual de atividades.