Tradição e infraestrutura: no Jaraguá, saneamento é permanência

Na Aldeia Jaraguá Kwaray Djekup, em São Paulo, os gêmeos guarani Karai Poty e Karai Mirim articulam saber ancestral e política pública para proteger nascentes, garantir saúde coletiva e fortalecer a permanência no território.

Por Marcia Tojal em 6 de março de 2026 5 minutos de leitura

Ocupação tradicional do povo indígena Guarani-Mbya, no Jaraguá, região oeste. Crianças brincando ao ar livre em uma área rural com casas de madeira e vegetação ao fundo, representando uma comunidade carente.
Foto: Rovena Rosa/ Agência Brasil

Entre o Pico do Jaraguá e a malha urbana de São Paulo, resiste um dos menores territórios indígenas oficialmente reconhecidos do País. A Terra Indígena Jaraguá, onde vivem comunidades do povo Guarani Mbya, é um enclave de mata, trilhas e espaços coletivos cercados pela pressão constante da metrópole. Ali, permanecer não depende apenas de demarcação, mas também de infraestrutura.

É nesse contexto que atuam os irmãos gêmeos Karai Poty e Karai Mirim, de 37 anos, conhecidos em português como Anderson Augusto Vilar Martim e André Augusto Vilar Martim. Na Aldeia Jaraguá Kwaray Djekup, proteger nascentes, monitorar poços artesianos e acompanhar sistemas de esgoto é também proteger a saúde coletiva e a continuidade cultural.

A trajetória de Anderson começou em 2016, quando foi selecionado como agente de saneamento indígena na Unidade Básica de Saúde Indígena (UBSI) da aldeia, vinculada à Secretaria Municipal da Saúde e administrada pela Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina. Inspirado pelo trabalho do irmão, André seguiu os mesmos passos e passou a trabalhar como agente no ano passado. Desde então, o trabalho dos irmãos envolve acompanhar sistemas de abastecimento de água, fiscalizar fossas sépticas, observar vias de drenagem e apoiar o manejo adequado de resíduos.

Mas, no Jaraguá, saneamento não é apenas técnica.

Quando infraestrutura encontra cosmologia

Reportagem da Organização das Nações Unidas (ONU) no Brasil destaca como os gêmeos articulam conhecimento técnico e tradição ancestral no cuidado com a água e o território.

Para o povo Guarani Mbya, a água não é apenas recurso natural, mas elemento espiritual. Proteger uma nascente significa preservar equilíbrio. Evitar contaminação não é apenas cumprir norma sanitária: é respeitar o território como espaço sagrado.

Segundo André, cada elemento da natureza os fortalece quando entram em contato com ele. E com a água não é diferente. “A água é vida, é parte de nós. Diante de uma cachoeira ou de uma nascente, mergulhamos logo cedo para renovar o espírito e começar bem o dia.”

Essa dimensão intercultural dialoga diretamente com a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI), criada em 2002, que tem como objetivo assegurar aos povos indígenas o acesso integral, universal e diferenciado aos serviços de saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). A política considera as especificidades culturais, sociais e territoriais dessas populações, orienta ações voltadas à redução de vulnerabilidades e reconhece o valor e a eficácia dos saberes e práticas da medicina tradicional indígena.

No Jaraguá, isso se traduz em decisões compartilhadas: onde instalar uma estrutura, como preservar uma fonte de água, como organizar resíduos sem comprometer o entorno.

Saneamento é saúde e direito

Pessoa lavando as mãos em uma pia com torneira de água limpa, promovendo hábitos de higiene essenciais para o saneamento adequado.
Foto: fizkes/ Shutterstock

Enquanto o trabalho acontece no território, ele também está ancorado em marcos legais nacionais. A Lei nº 11.445/2007, atualizada pelo Marco Legal do Saneamento (Lei nº 14.026/2020), define saneamento básico como o conjunto de serviços de abastecimento de água potável, esgotamento sanitário, manejo de resíduos sólidos e drenagem urbana.

No plano internacional, a Assembleia Geral da ONU reconhece desde 2010 o acesso à água potável e ao saneamento como direitos humanos. A Organização Mundial da Saúde reforça que o acesso seguro à água reduz doenças de veiculação hídrica e mortalidade associada a condições sanitárias precárias.

No Jaraguá, essas diretrizes globais ganham escala local. Garantir que um poço esteja protegido ou que uma fossa funcione adequadamente significa reduzir riscos concretos à comunidade.

Território, memória e legado

O empenho dos irmãos tem raízes na trajetória da avó, Kerexu — chamada em português de Jandira Augusta Venício — uma das fundadoras da Terra Indígena Jaraguá e reconhecida como uma das primeiras mulheres a exercer o papel de cacica no Brasil.

Nas décadas de 1970 e 1980, famílias Guarani Mbya vindas do litoral e de estados do Sul se somaram à comunidade, fortalecendo a presença indígena na região. Com o avanço da urbanização e a morte do marido, Jandira assumiu a liderança da aldeia, articulando reivindicações por educação, saúde e reconhecimento territorial diante da pressão crescente da cidade.

Um marco dessa luta ocorreu em 1987, com a primeira demarcação da terra. De forma insuficiente, apenas 1,7 hectare foi oficialmente reconhecido, tornando a área a menor terra indígena do país. Após sucessivas ações judiciais, um avanço significativo veio em 2024, quando o Ministério da Justiça declarou a posse de 532 hectares, a segunda de cinco etapas do processo demarcatório.

Os gêmeos cresceram acompanhando a liderança da avó, cuja determinação permanece como referência. “Ela ia diretamente às autoridades em busca da demarcação, em plena ditadura militar”, recorda Anderson. “Ela lutou por cada pedaço desta terra e pela vida do povo. Ela nos inspira”, completa André.

No fim dos anos 1950, Jandira e o marido, Kuaray Augusto, fundaram a primeira aldeia da Terra Indígena Jaraguá, a Tekoa Ytu — “Lugar da Cachoeira” — nome que remete às nascentes e córregos abundantes à época.

O gesto marcou a reocupação do território Guarani Mbya na região, após séculos de expulsões desde a colonização portuguesa. Situada ao lado do Pico do Jaraguá, o ponto mais alto de São Paulo, a área ocupa lugar central na cosmologia guarani: é considerada uma “terra de passagem” na busca ancestral pela terra sem males, espaço mítico de plenitude e harmonia espiritual.

Infraestrutura como permanência

No Jaraguá, o saneamento tem dimensão estratégica. Ele sustenta a permanência física no território e fortalece a autonomia comunitária. Quando o cuidado com a água e os resíduos é conduzido por membros da própria aldeia, a infraestrutura deixa de ser intervenção externa e se transforma em prática incorporada ao cotidiano.

Anderson e André atuam nesse ponto de encontro entre política pública e cultura. São mediadores entre sistemas institucionais e saber ancestral, e mostram que infraestrutura pode ser também ferramenta de resistência. No limite entre cidade e floresta, proteger uma nascente é mais do que cumprir protocolo técnico. É afirmar que a vida guarani continua ali.

Saneamento no centro das decisões

Vista aérea da Estação de Tratamento de Esgoto Barueri
Estação de Tratamento de Esgoto Barueri (Foto: Semil – Secretaria de Meio Ambiente/ Divulgação)

Seu trabalho foi fundamental para conectar as demandas da aldeia ao diagnóstico do Plano Municipal de Saneamento Ambiental Integrado, desenvolvido em parceria entre o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) e a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento. Recentemente, representantes das instituições visitaram a Terra Indígena Jaraguá para conhecer de perto a realidade local.

O plano orientará as ações de saneamento da cidade nos próximos anos, estabelecendo diretrizes para o planejamento, a execução e o monitoramento de políticas públicas ligadas à água, esgoto, drenagem urbana e resíduos sólidos. O documento reunirá pareceres técnicos, indicadores socioambientais e propostas construídas com a população para enfrentar desafios históricos e avançar em soluções mais eficientes e inclusivas.

A elaboração inclui etapas de participação social. Entre julho e setembro de 2025, foram realizadas 33 oficinas presenciais na capital, com a participação de 1.199 pessoas, que apresentaram 615 contribuições sobre temas relacionados ao saneamento. Nesse processo, ouvir grupos diversos, como os povos indígenas, é essencial.

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