Entre o Pico do Jaraguá e a malha urbana de São Paulo, resiste um dos menores territórios indígenas oficialmente reconhecidos do País. A Terra Indígena Jaraguá, onde vivem comunidades do povo Guarani Mbya, é um enclave de mata, trilhas e espaços coletivos cercados pela pressão constante da metrópole. Ali, permanecer não depende apenas de demarcação, mas também de infraestrutura.
É nesse contexto que atuam os irmãos gêmeos Karai Poty e Karai Mirim, de 37 anos, conhecidos em português como Anderson Augusto Vilar Martim e André Augusto Vilar Martim. Na Aldeia Jaraguá Kwaray Djekup, proteger nascentes, monitorar poços artesianos e acompanhar sistemas de esgoto é também proteger a saúde coletiva e a continuidade cultural.
A trajetória de Anderson começou em 2016, quando foi selecionado como agente de saneamento indígena na Unidade Básica de Saúde Indígena (UBSI) da aldeia, vinculada à Secretaria Municipal da Saúde e administrada pela Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina. Inspirado pelo trabalho do irmão, André seguiu os mesmos passos e passou a trabalhar como agente no ano passado. Desde então, o trabalho dos irmãos envolve acompanhar sistemas de abastecimento de água, fiscalizar fossas sépticas, observar vias de drenagem e apoiar o manejo adequado de resíduos.
Mas, no Jaraguá, saneamento não é apenas técnica.
Quando infraestrutura encontra cosmologia
Reportagem da Organização das Nações Unidas (ONU) no Brasil destaca como os gêmeos articulam conhecimento técnico e tradição ancestral no cuidado com a água e o território.
Para o povo Guarani Mbya, a água não é apenas recurso natural, mas elemento espiritual. Proteger uma nascente significa preservar equilíbrio. Evitar contaminação não é apenas cumprir norma sanitária: é respeitar o território como espaço sagrado.
Segundo André, cada elemento da natureza os fortalece quando entram em contato com ele. E com a água não é diferente. “A água é vida, é parte de nós. Diante de uma cachoeira ou de uma nascente, mergulhamos logo cedo para renovar o espírito e começar bem o dia.”
Essa dimensão intercultural dialoga diretamente com a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI), criada em 2002, que tem como objetivo assegurar aos povos indígenas o acesso integral, universal e diferenciado aos serviços de saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). A política considera as especificidades culturais, sociais e territoriais dessas populações, orienta ações voltadas à redução de vulnerabilidades e reconhece o valor e a eficácia dos saberes e práticas da medicina tradicional indígena.
No Jaraguá, isso se traduz em decisões compartilhadas: onde instalar uma estrutura, como preservar uma fonte de água, como organizar resíduos sem comprometer o entorno.
Saneamento é saúde e direito

Enquanto o trabalho acontece no território, ele também está ancorado em marcos legais nacionais. A Lei nº 11.445/2007, atualizada pelo Marco Legal do Saneamento (Lei nº 14.026/2020), define saneamento básico como o conjunto de serviços de abastecimento de água potável, esgotamento sanitário, manejo de resíduos sólidos e drenagem urbana.
No plano internacional, a Assembleia Geral da ONU reconhece desde 2010 o acesso à água potável e ao saneamento como direitos humanos. A Organização Mundial da Saúde reforça que o acesso seguro à água reduz doenças de veiculação hídrica e mortalidade associada a condições sanitárias precárias.
No Jaraguá, essas diretrizes globais ganham escala local. Garantir que um poço esteja protegido ou que uma fossa funcione adequadamente significa reduzir riscos concretos à comunidade.
Território, memória e legado
O empenho dos irmãos tem raízes na trajetória da avó, Kerexu — chamada em português de Jandira Augusta Venício — uma das fundadoras da Terra Indígena Jaraguá e reconhecida como uma das primeiras mulheres a exercer o papel de cacica no Brasil.
Nas décadas de 1970 e 1980, famílias Guarani Mbya vindas do litoral e de estados do Sul se somaram à comunidade, fortalecendo a presença indígena na região. Com o avanço da urbanização e a morte do marido, Jandira assumiu a liderança da aldeia, articulando reivindicações por educação, saúde e reconhecimento territorial diante da pressão crescente da cidade.
Um marco dessa luta ocorreu em 1987, com a primeira demarcação da terra. De forma insuficiente, apenas 1,7 hectare foi oficialmente reconhecido, tornando a área a menor terra indígena do país. Após sucessivas ações judiciais, um avanço significativo veio em 2024, quando o Ministério da Justiça declarou a posse de 532 hectares, a segunda de cinco etapas do processo demarcatório.
Os gêmeos cresceram acompanhando a liderança da avó, cuja determinação permanece como referência. “Ela ia diretamente às autoridades em busca da demarcação, em plena ditadura militar”, recorda Anderson. “Ela lutou por cada pedaço desta terra e pela vida do povo. Ela nos inspira”, completa André.
No fim dos anos 1950, Jandira e o marido, Kuaray Augusto, fundaram a primeira aldeia da Terra Indígena Jaraguá, a Tekoa Ytu — “Lugar da Cachoeira” — nome que remete às nascentes e córregos abundantes à época.
O gesto marcou a reocupação do território Guarani Mbya na região, após séculos de expulsões desde a colonização portuguesa. Situada ao lado do Pico do Jaraguá, o ponto mais alto de São Paulo, a área ocupa lugar central na cosmologia guarani: é considerada uma “terra de passagem” na busca ancestral pela terra sem males, espaço mítico de plenitude e harmonia espiritual.
Infraestrutura como permanência
No Jaraguá, o saneamento tem dimensão estratégica. Ele sustenta a permanência física no território e fortalece a autonomia comunitária. Quando o cuidado com a água e os resíduos é conduzido por membros da própria aldeia, a infraestrutura deixa de ser intervenção externa e se transforma em prática incorporada ao cotidiano.
Anderson e André atuam nesse ponto de encontro entre política pública e cultura. São mediadores entre sistemas institucionais e saber ancestral, e mostram que infraestrutura pode ser também ferramenta de resistência. No limite entre cidade e floresta, proteger uma nascente é mais do que cumprir protocolo técnico. É afirmar que a vida guarani continua ali.
Saneamento no centro das decisões

Seu trabalho foi fundamental para conectar as demandas da aldeia ao diagnóstico do Plano Municipal de Saneamento Ambiental Integrado, desenvolvido em parceria entre o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) e a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento. Recentemente, representantes das instituições visitaram a Terra Indígena Jaraguá para conhecer de perto a realidade local.
O plano orientará as ações de saneamento da cidade nos próximos anos, estabelecendo diretrizes para o planejamento, a execução e o monitoramento de políticas públicas ligadas à água, esgoto, drenagem urbana e resíduos sólidos. O documento reunirá pareceres técnicos, indicadores socioambientais e propostas construídas com a população para enfrentar desafios históricos e avançar em soluções mais eficientes e inclusivas.
A elaboração inclui etapas de participação social. Entre julho e setembro de 2025, foram realizadas 33 oficinas presenciais na capital, com a participação de 1.199 pessoas, que apresentaram 615 contribuições sobre temas relacionados ao saneamento. Nesse processo, ouvir grupos diversos, como os povos indígenas, é essencial.