Em plena crise climática, viver em uma cidade arborizada é quase como ter uma mina de ouro na porta de casa. As árvores filtram o ar, ajudando a reter poluentes enquanto devolvem oxigênio à atmosfera, atenuam o calor nas ruas, seguram parte da água da chuva com a copa e as raízes, o que alivia o escoamento e reduz a pressão sobre os sistemas de drenagem, criam refúgio para a fauna urbana e ainda fazem diferença na cabeça de quem circula por esses espaços. Não à toa, pesquisas recentes vêm mostrando que morar perto de áreas verdes está ligado a menores índices de estresse, depressão e ansiedade, além de um maior senso de bem-estar em populações urbanas.
Nesse cenário, duas capitais brasileiras se destacam na vitrine internacional da arborização urbana: Goiânia, reconhecida pela ONU como “Cidade Arborizada do Mundo”, e Campo Grande, que conquistou pela sexta vez o título de Tree City of the World (Cidade Árvore do Mundo), em um programa global que conecta cidades comprometidas com a gestão qualificada de suas florestas urbanas.
Um selo mundial para florestas urbanas

O programa Tree Cities of the World é uma iniciativa conjunta da FAO (Food and Agriculture Organization of United Nations) e da Arbor Day Foundation, lançada em 2019 para estimular e reconhecer cidades que adotam padrões elevados de manejo de árvores e florestas urbanas.
Para receber o selo, os municípios precisam cumprir critérios que incluem ter um órgão responsável pela gestão das árvores urbanas, possuir leis ou políticas específicas de arborização, destinar orçamento e planejamento para plantio e manutenção, e promover ações educativas e celebrações públicas em torno das árvores.
Em comunicado a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) declarou que 210 cidades em 24 países integram atualmente a rede Tree Cities of the World, formando um laboratório global de boas práticas em florestas urbanas. Goiânia, por exemplo, tem mais de 1 milhão de árvores em 32 bosques e parques e, foi essa estrutura verde que inspirou a ONU em nomear a cidade como a mais arborizada do mundo.
Campo Grande: seis anos seguidos entre as cidades mais arborizadas do mundo

Enquanto Goiânia ganha projeção com o título de “cidade mais arborizada do mundo”, Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, vem construindo uma trajetória consistente no mesmo caminho. Em 2025, a cidade foi reconhecida pela sexta vez consecutiva como uma das Tree Cities of the World, sendo a única capital brasileira com essa sequência de premiações.
De acordo com reportagem da Campo Grande News, o selo atesta não só a presença de árvores, mas o manejo sustentável das florestas urbanas: é necessário manter um órgão dedicado à arborização, legislações específicas, campanhas de conscientização e investimentos contínuos em plantio e manutenção, os mesmos critérios que norteiam o programa global.
Os dados do Censo Demográfico 2022, destacados em publicação do Metrópoles, ajudam a dimensionar essa realidade:
- 91,4% dos domicílios de Campo Grande estão em vias públicas com pelo menos uma árvore;
- no Brasil, em média, 66% da população vive em ruas arborizadas, enquanto 34% moram em vias sem nenhuma árvore;
- no Mato Grosso do Sul como um todo, o índice de moradores em ruas com árvores chega a 92,5%, o mais alto do país.
Cidades mais arborizadas do mundo: exemplos que apontam caminhos

Juntas, as duas capitais brasileiras ajudam a desenhar um horizonte possível para o país. De um lado, Goiânia, reconhecida internacionalmente pelo programa Tree Cities of the World. De outro, Campo Grande, que há vários anos recebe o mesmo selo e é frequentemente citada como referência nacional em arborização urbana, consolidando a visão de que árvores não são ornamento, mas infraestrutura essencial da cidade.
Esses exemplos ganham ainda mais força quando observados em perspectiva global. Em diferentes partes do mundo, cidades têm investido de forma estruturada na expansão da cobertura arbórea e dos espaços verdes, tanto pelos benefícios ambientais quanto pelos impactos diretos na saúde, no conforto térmico e na qualidade de vida da população.
Em centros urbanos dos Estados Unidos, como Washington, D.C. e Atlanta, políticas de proteção e ampliação da arborização resultaram em coberturas de árvores que se aproximam — ou superam — 40% a 50% do território urbano, como aponta reportagem do The Washington Post. Esse planejamento contribui para reduzir ilhas de calor, melhorar a qualidade do ar e promover bem-estar social.
O projeto Treepedia, que mede a presença de árvores a partir da perspectiva do pedestre, reforça essa tendência. Singapura lidera o ranking global, com cerca de 29% de cobertura arbórea visível nas ruas, além do compromisso oficial de garantir que 85% da população viva a menos de 400 metros de um parque urbano até 2030, conforme seu plano verde. Sydney e Vancouver também se destacam, com mais de 25% de cobertura, segundo a mesma metodologia.
Diante desse cenário, os dados do IBGE, citados pelo Metrópoles, revelam o tamanho do desafio brasileiro: um terço da população ainda vive em ruas sem nenhuma árvore. O contraste com essas experiências, no Brasil e no mundo, funciona ao mesmo tempo como alerta e como convite, mostrando que ampliar a arborização urbana não é apenas uma questão estética, mas uma escolha estratégica para cidades mais resilientes, habitáveis e preparadas para o futuro.