Entre cacos de azulejo, composições geométricas e fachadas pensadas para se destacar na paisagem urbana, o raio que o parta revela uma forma particular de produzir modernidade no Pará. Surgida a partir da circulação de referências do modernismo, como a abstração geométrica e o uso do azulejo, essa estética se consolidou em Belém ao longo da segunda metade do século XX, atravessando diferentes bairros, tipologias e contextos sociais. Longe de uma reprodução literal da arquitetura erudita, o raio que o parta nasce da apropriação criativa dessas referências por engenheiros, desenhistas, pedreiros e moradores, que transformaram materiais acessíveis, muitas vezes azulejos avariados, em painéis expressivos e únicos.
Por décadas, essa produção foi vista com estranhamento ou relegada à margem da história oficial da arquitetura. Para compreender como esse repertório foi construído, popularizado, ressignificado e por que hoje ele deve ser lido como patrimônio cultural vivo, o Habitability conversou com Elisa Malcher, arquiteta e urbanista que, desde 2020, integra — ao lado das arquitetas Elis Almeida e Gabrielle Arnour — o mapeamento colaborativo no Instagram (@rederaioqueoparta), dedicado a identificar, registrar e curar as casas-referência do raio que o parta no Pará.
Dos painéis eruditos aos “mestres de raios”
A estética do raio que o parta está associada ao uso de cacos de azulejos coloridos organizados em composições geométricas nas fachadas de residências, muitas vezes em forma de raios. Embora hoje seja amplamente vinculada às camadas populares, sua origem está ligada a painéis e murais projetados por engenheiros e desenhistas nas décadas de 1940 e 1950. Com o tempo, essa linguagem foi apropriada por quem construía — pedreiros, azulejistas e moradores — que passaram a reproduzir e reinterpretar essas referências nas próprias casas ou nas de vizinhos.
Nesse processo, surgem os chamados “mestres de raios”: agentes fundamentais na difusão da estética, responsáveis por traduzir referências modernas em soluções adaptadas às condições materiais e ao gosto dos moradores, explica Elisa. O movimento ganha força justamente na combinação entre o acesso a revestimentos mais baratos, como azulejos avariados, e a criatividade de quem os manipulava, resultando em fachadas expressivas, singulares e pensadas como composição.
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Modernismo em circulação

O raio que o parta emerge em um momento de intensa expansão urbana de Belém, quando a autoconstrução se afirmava como principal forma de produção da moradia. Ao mesmo tempo, elementos do modernismo, como o uso do azulejo, a abstração geométrica, a valorização da fachada, circulavam tanto na arquitetura erudita, quanto no imaginário urbano. Essa simultaneidade ajuda a explicar por que a estética não se limita a um único território social: ela aparece em residências projetadas por engenheiros, mas também se difunde amplamente pelas camadas populares.
Mais do que copiar modelos consagrados, o raio que o parta se constitui como uma reinvenção popular do modernismo. Os painéis não eram aplicados de forma aleatória. Cada fachada era desenhada para criar composições específicas, explorando formas, cores e posicionamentos estratégicos.
“Muitas vezes, os mesmos pedreiros ou azulejistas que executavam esses painéis em edificações acabavam levando essas soluções para suas próprias casas ou para casas de vizinhos. O resultado é uma tradução popular do modernismo, adaptada às condições materiais, aos gostos e às narrativas locais”, explica Elisa.
A fachada como expressão

Visualmente, o raio que o parta se reconhece pela presença de painéis de azulejos aplicados na fachada, com cores marcantes e composições geométricas pensadas para destacar o imóvel na paisagem urbana. Esses painéis costumam ocupar áreas estratégicas — platibandas, muros, empenas — funcionando quase como uma assinatura visual da casa.
O uso dos cacos de azulejo não se limita à dimensão estética. Há também um forte valor social e simbólico. As cores disponíveis refletiam o que circulava no mercado local naquele período histórico. Há registros tanto do uso de azulejos avariados, vendidos a preços mais acessíveis, quanto da compra de peças inteiras, recortadas propositalmente para compor os desenhos. Em outros casos, os próprios moradores quebravam os azulejos para alcançar o efeito desejado. A composição final resultava do diálogo entre quem morava, quem executava e as referências compartilhadas, fazendo da fachada um meio de expressão, distinção e identidade.
Invisibilidade e reconhecimento tardio do raio que o parta
Mesmo diante de sua força visual e disseminação urbana, o raio que o parta, assim como outras formas de arquitetura produzidas fora do circuito formal, foi por muito tempo invisibilizado pela academia e pelo poder público. Segundo Elisa, em geral, a atenção recaiu sobre a informalidade, a precariedade ou a ausência de planejamento, deixando em segundo plano os valores culturais, estéticos e sociais dessas produções. Até as soluções arquitetônicas adaptadas ao território, como as palafitas em áreas de várzea, permaneceram marginalizadas no debate urbano.
Esse cenário começa a mudar quando a estética passa a ser reconhecida como expressão legítima da cidade. O próprio nome “raio que o parta”, cunhado pelo arquiteto carioca Donato de Melo Junior em tom de estranhamento e crítica, vem sendo ressignificado. Hoje, ele funciona como ferramenta de reconhecimento e debate sobre autoria popular, memória urbana e patrimônio cultural, explica Elisa.
Mapear para não apagar
É nesse contexto que o mapeamento colaborativo ganha importância. Segundo Elisa, ele permite registrar fachadas, tanto as que ainda resistem, como as que foram apagadas.
“Ao reunir imagens, relatos e localizações, cria-se um arquivo vivo, construído coletivamente, que amplia a visibilidade dessas arquiteturas e fortalece o debate público sobre sua importância cultural. Além disso, o formato digital facilita o engajamento da própria comunidade, que se reconhece como parte ativa desse processo de preservação. Através dele conseguimos identificar raios em diversos municípios do Pará e entender um pouco mais sobre como o movimento se manifestou em cada localidade”.
Um patrimônio em risco
As perdas associadas à descaracterização dessas fachadas são tanto materiais quanto simbólicas. Ao desaparecerem, não se perde apenas um repertório estético construído ao longo de décadas, mas também narrativas de vida, saberes construtivos e formas específicas de relação com a cidade. Cada fachada conta a história de um período da trajetória urbana paraense. Quando é apagada, compromete-se também uma parte da identidade e das formas de expressão cultural da região.
Reconhecer o raio que o parta como patrimônio cultural vivo implica reconhecer que a produção do espaço urbano não é exclusiva de arquitetos e planejadores formais. Essa estética evidencia a população como agente ativo da cidade, capaz de criar linguagens próprias, afirmar identidades e disputar simbolicamente o espaço urbano. Em última instância, trata-se de afirmar o direito à cidade como o direito de criar, transformar e permanecer.