Em um vídeo gravado nos anos 1960, Walt Disney olha diretamente para a câmera e descreve sua ideia mais ambiciosa. Não é um parque, nem um filme. É uma cidade real, onde tecnologia, planejamento e eficiência resolveriam os problemas urbanos do século 20. Walt chama o projeto de EPCOT — Experimental Prototype Community of Tomorrow.
Mais de meio século depois, a pergunta permanece atual: é possível projetar a cidade do futuro? Ou toda tentativa de congelar o amanhã em um plano acaba envelhecendo mal?
A cidade do futuro como laboratório
O conceito original do EPCOT previa circulação subterrânea de automóveis, transporte coletivo elevado, um centro cívico altamente tecnológico e gestão privada contínua do território. Não haveria propriedade privada nem participação política: a cidade do futuro funcionaria como um organismo controlado, permanentemente atualizado.
Para Disney, o futuro era organizado, eficiente e previsível. O problema é que cidades não operam como protótipos industriais. Após sua morte, o EPCOT nunca foi construído como cidade, transformou-se em parque temático do Walt Disney World, que, segundo matéria do Estadão, recebe mais de 12 milhões de visitantes por ano. Primeira lição urbana: cidades não são produtos acabados.
Décadas depois, a Disney tentou novamente, agora em escala menor, com Celebration. O projeto abandonou o futurismo e apostou no urbanismo tradicional: ruas caminháveis, praças, fachadas controladas, uso misto e forte senso de ordem. Celebration funciona, é valorizada e segura. Mas também é criticada por sua homogeneização social e pela sensação de cidade “coreografada”. Segunda lição: planejamento funciona melhor quando aceita imperfeições.
Quando o futuro falha

Algumas cidades levaram a ideia de futuro ao limite, e pagaram o preço. Detroit é o caso mais emblemático do urbanismo industrial do século 20. Apostou quase exclusivamente na indústria automobilística, no crescimento ilimitado e no carro como organizador da vida urbana. Quando esse modelo entrou em crise, a cidade perdeu mais de 60% da população desde o auge dos anos 1950. Bairros inteiros esvaziaram, a infraestrutura tornou-se superdimensionada e grandes vazios urbanos passaram a fragmentar o território.
A queda de arrecadação deteriorou serviços públicos e infraestrutura, culminando na maior falência municipal da história dos Estados Unidos, em 2013, conforme publicação do New York Times. Projetada para o automóvel, Detroit também sofre com transporte público limitado, grandes distâncias entre moradia, trabalho e serviços e exclusão de quem não depende do carro, agravando desigualdades marcadas por um histórico de segregação racial e desinvestimento em bairros negros. A recuperação recente é localizada e desigual. Ou seja, cidades que apostam em um único futuro tornam-se frágeis quando ele não se realiza.
Outro exemplo ajuda a entender os limites desse raciocínio. Projetada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, Brasília tornou-se um ícone do urbanismo modernista. Racional, monumental e zonificada, separa de forma rígida trabalho, moradia e lazer, priorizando o automóvel e concentrando a vida urbana em horários e trajetos específicos.
Dos pontos de vistas administrativo e simbólico, Brasília cumpre o papel para o qual foi concebida. Mas essa mesma racionalidade limita a experiência cotidiana: reduz a vida urbana espontânea, amplia deslocamentos e reforça a segregação socioespacial entre o centro planejado e periferias distantes. Eficiência formal, aqui, não se traduz automaticamente em vitalidade social.
Os erros recorrentes do “urbanismo do futuro”
Segundo a leitura do professor Paulo Vicente, da Fundação Dom Cabral, autor de “Um Século em Quatro Atos”, muitas cidades pensadas como modelos do amanhã repetiram equívocos semelhantes: planejamento rígido demais, dependência de uma única atividade econômica, excesso de controle com baixa participação social, aposta extrema em um único modal de transporte e desconsideração das desigualdades urbanas. A história sugere que o futuro urbano raramente fracassa por falta de tecnologia e sim por falta de diversidade, flexibilidade e capacidade de adaptação.
O que mudou na ideia de cidade do futuro
O urbanismo contemporâneo se afastou do controle total e passou a enxergar a cidade como um sistema vivo. Hoje, a “cidade do futuro” é menos sobre prever tudo e mais sobre criar condições para responder ao inesperado: cidades de 15 minutos que encurtam deslocamentos, infraestrutura verde que integra soluções ambientais ao cotidiano, uso misto real que mantém o território ativo ao longo do dia, participação social nos processos decisórios, resiliência climática e capacidade de adaptação ao longo do tempo.
O gancho brasileiro: a Avenida do Contorno e a cidade que escapou do plano

A história da Avenida do Contorno ajuda a amarrar essas lições. Concebida no final do século 19 como limite físico e simbólico da cidade planejada de Belo Horizonte, a avenida deveria conter o crescimento urbano dentro de uma lógica ordenada. O que ocorreu foi o oposto: a cidade transbordou. Ao longo do século 20, a Contorno deixou de ser fronteira e tornou-se eixo central, absorvendo fluxos, adensamento, comércio e moradia, crescendo de forma muito mais orgânica do que o plano previa.
A experiência dialoga com a de La Plata, cidade argentina planejada no final do século 19, cujo traçado geométrico rigoroso também foi tensionado ao longo do tempo por dinâmicas metropolitanas reais. Em ambos os casos, a lição é a mesma: o desafio urbano não é prever todos os usos e fluxos futuros, mas criar cidades capazes de crescer sem colapsar, se reinventar sem apagar sua história e incorporar o novo sem excluir. O verdadeiro futuro talvez esteja menos em controlar a cidade e mais em permitir que ela evolua, contradiga o plano e se transforme com as pessoas que a habitam.