Cidades ansiosas: o impacto do desenho urbano nas emoções

Ruas, praças e transporte moldam mais do que o cotidiano: podem gerar estresse crônico ou servir como aliados do bem‑estar.

Por Nathalia Ribeiro em 14 de janeiro de 2026 6 minutos de leitura

Vista aérea de uma grande cidade brasileira cheia de prédios altos, simbolizando as cidades ansiosas e a agitação das cidades modernas

À medida que o mundo se urbaniza, cresce também a consciência de que a saúde mental das populações não depende apenas de fatores biológicos ou circunstâncias individuais, ela está profundamente ligada ao próprio desenho das cidades. Uma pesquisa do Fórum Econômico Mundial (FEM) sobre urbanização e saúde mental, mostra que viver em áreas urbanas está associado a um risco significativamente maior de transtornos mentais em comparação com as zonas rurais: o risco de depressão é cerca de 20% maior, o de transtorno de ansiedade 21% maior e o de psicose 77 % maior entre moradores de cidades.

Esse contexto de crescente complexidade urbana contribui para o surgimento do conceito de “cidades ansiosas”, ambientes em que o desenho espacial, a infraestrutura e as condições sociais podem intensificar o estresse psicológico de maneira cumulativa. De acordo com outro estudo do próprio FEM fatores como ruído constante, mobilidade precária, falta de espaços verdes e fragmentação espacial não são apenas desafios estéticos, mas influenciam diretamente a forma como as pessoas se conectam, lidam com o cotidiano e revitalizam sua saúde emocional. 

“Quando as cidades são projetadas sem levar em consideração a experiência humana, correm o risco de incorporar o sofrimento ao cotidiano de seus habitantes”, diz Luis Antonio Ramírez García, ativista climático, especialista em políticas urbanas e políticas públicas em artigo que apresenta o estudo. Mais do que estruturas físicas, ruas e prédios carregam consigo o poder do bem-estar de milhões de pessoas e cada decisão de planejamento pode ser tanto uma fonte de estresse quanto um instrumento de cura coletiva.

Como o desenho urbano pode gerar cidades ansiosas

O formato das cidades não é neutro: ruas estreitas, bairros superlotados e a ausência de espaços públicos convidativos podem transformar o cotidiano em uma fonte constante de tensão. A fragmentação do uso do solo, a falta de integração entre áreas residenciais e comerciais e a ausência de áreas de lazer aumentam os níveis de estresse e sintomas depressivos nos moradores. 

Na Cidade do México, pesquisas publicadas na National Library of Medicine norte americana, indicam que bairros marcados por alta densidade urbana apresentam uma incidência significativamente maior de distúrbios do sono e fadiga crônica, especialmente entre mulheres, já que elas assumem simultaneamente tarefas profissionais, cuidados com filhos e familiares, e afazeres domésticos. Em cidades densas e com mobilidade difícil, essa “dupla jornada” é amplificada pelo tempo de deslocamento, falta de espaços de convivência e infraestrutura urbana inadequada.

Aliás, o trânsito e a mobilidade urbana desempenham um papel crítico na saúde mental. Longos deslocamentos em transporte público superlotado, falta de infraestrutura ciclável e ruas pouco seguras não apenas aumentam o estresse diário, como reduzem oportunidades de descanso e socialização. Um estudo em Delhi, na Índia, mostrou que adolescentes que vivem em favelas com infraestrutura deficiente apresentam níveis significativamente mais altos de ansiedade e depressão em comparação com jovens de áreas mais abastadas.

Além disso, a ausência de espaços de convívio social e áreas verdes cria um ciclo de isolamento e sobrecarga psicológica. Quando a cidade não oferece locais seguros e acessíveis para interação, a sensação de desconexão e pressão constante aumenta, contribuindo para o surgimento de “cidades ansiosas”. Esses dados reforçam que decisões de planejamento urbano, desde a disposição das ruas até a distribuição de serviços e parques, têm impacto direto na saúde emocional dos habitantes e na qualidade de vida coletiva.

A importância das áreas verdes e da natureza urbana

A presença de árvores, praças, jardins e corredores verdes nas cidades exerce um efeito profundo sobre a saúde mental de quem vive nos centros urbanos. Pesquisas em diferentes partes do mundo mostram que moradores próximos a áreas verdes bem cuidadas relatam menos sintomas de depressão, ansiedade e estresse. Em cidades canadenses, por exemplo, um estudo da Portland State University aponta que a biodiversidade e a qualidade desses espaços têm impacto direto no bem-estar emocional da população.

No entanto, o acesso a essas áreas não é uniforme. Em muitas cidades, bairros de baixa renda enfrentam escassez de parques, jardins e outras áreas verdes, o que aumenta a vulnerabilidade de seus moradores ao estresse e à depressão. Essa desigualdade tem raízes históricas e estruturais, relacionadas à distribuição desigual de investimentos urbanos, à exclusão espacial de determinados grupos e, em alguns casos, à chamada gentrificação verde. Por isso, diversos debates, especialmente no meio acadêmico, levantam a questão de que a infraestrutura verde deve ser tratada como prioridade no planejamento urbano, e não apenas como um elemento ornamental ou complemento paisagístico.

Além dos benefícios imediatos para adultos, estudos de longo prazo reforçam o impacto positivo da natureza sobre a saúde mental. Pesquisas na Dinamarca indicam que crianças que cresceram com acesso a áreas verdes apresentaram menor risco de desenvolver transtornos mentais na vida adulta, mostrando que investir em parques e jardins é também uma estratégia preventiva de longo prazo.

Mobilidade e ruído nas cidades ansiosas

um transporte público lotado com muitas pessoas dentro, segurando as barras de apoio, mostrando a rotina diária de quem usa o metrô ou ônibus na cidade
Foto: Ricardo de O. Lemos/ Shutterstock

Quanto maior o tempo gasto no trajeto diário, maior a probabilidade de sintomas de depressão e desgaste psicológico. Uma pesquisa com moradores de 11 cidades da América Latina encontrou que longos deslocamentos estão associados a maiores chances de depressão, especialmente quando o transporte é ineficiente, congestionado ou de difícil acesso, enquanto melhor acesso ao transporte coletivo tende a estar ligado a melhores resultados de saúde mental.

Além disso, uma análise publicada na ScienceDiret sobre os efeitos dos deslocamentos indica que o estresse causado por congestionamentos e trajetos prolongados, além de prejudicar a saúde emocional, reduz o tempo para descanso e atividades sociais, o que também pode interferir na qualidade do sono. Em ambientes urbanos com tráfego intenso, o simples ato de passar horas no trânsito pode se tornar um fator de estresse crônico que se acumula ao longo do tempo.

O ruído urbano, o som constante de motores, buzinas e tráfego, também é apontado como uma fonte significativa de irritação, ansiedade e distúrbios do sono nas grandes cidades. A exposição contínua a altos níveis de som pode manter o cérebro em um estado de alerta permanente, dificultando a recuperação psicológica no fim do dia. 

Cidades que cuidam da mente

Várias cidades no mundo já implementam políticas e projetos de urbanismo que favorecem o bem‑estar emocional de seus habitantes, mostrando que é possível colocar a saúde mental no centro do planejamento urbano. Em Barcelona, na Espanha, a iniciativa das Superilhas (ou Superblocks) reorganiza o espaço urbano para priorizar pedestres e ciclistas, limitando o tráfego de veículos em bairros e criando mais áreas de convivência, com redução de poluição e estímulo à interação social. Moradores relataram mais tranquilidade, menos ruído e melhor qualidade de vida nesses espaços regenerados.

Em Bogotá, na Colômbia, a tradicional Ciclovía, que fecha importantes vias da cidade aos carros todos os domingos para dar espaço a ciclistas, pedestres e famílias, tornou-se um verdadeiro ícone de saúde urbana. Semelhante à Paulista Aberta, em São Paulo, o programa vai além de incentivar a atividade física e a mobilidade ativa: também contribui para a redução da poluição do ar e sonora, além de ser reconhecido por fortalecer a sensação de liberdade, comunidade e bem-estar entre os participantes.

Já Singapura se destaca como City in a Garden, integrando vegetação no tecido urbano por meio de jardins verticais, parques e espaços verdes conectados, o que contribui para ambientes mais agradáveis, melhora da qualidade do ar e sensação de calma em meio à densidade urbana. 

Assim como em Vancouver, no Canadá, onde o compromisso é garantir que todos os moradores vivam a poucos minutos de um parque ou espaço verde, fica evidente a importância de integrar a natureza às áreas urbanas. Programas como o Green Streets transformam espaços urbanos em jardins comunitários, contribuindo para reduzir o estresse e criar pontos de encontro que fortalecem a convivência social.

Planejamento urbano para sustentabilidade emocional

Cidades são muito mais do que ruas, prédios e serviços: são ecossistemas emocionais que moldam o cotidiano e a saúde mental de quem vive nelas. O Fórum Econômico Mundial ressalta que cada decisão de planejamento, desde a distribuição de áreas verdes até a configuração de calçadas, praças e equipamentos públicos, influencia diretamente o bem-estar psicológico da população.

Projetar pensando na sustentabilidade emocional significa olhar para a cidade com olhos humanos: criar ruas que convidem ao caminhar, oferecer transporte seguro e acessível, garantir áreas de convivência inclusivas e preservar espaços verdes próximos aos moradores. Cada banco de praça, cada caminho arborizado ou praça bem equipada deixa de ser um detalhe estético e se torna uma ferramenta de prevenção, capaz de reduzir estresse, ansiedade e isolamento.

A equidade é outro pilar essencial. Expandir infraestrutura urbana de forma justa, especialmente em bairros historicamente negligenciados, garante que todos tenham acesso a serviços, lazer e áreas verdes, ajudando a reduzir disparidades emocionais. Conforme aponta o Fórum Econômico Mundial, cidades que priorizam o bem-estar mental de seus habitantes não apenas aliviam tensões, mas constroem ambientes que fortalecem laços comunitários e promovem qualidade de vida para todos os habitantes.

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