Em Nakuru, no Quênia, a água, anteriormente uma ameaça devido a enchentes e poluição, está sendo transformada em uma estratégia de desenvolvimento sustentável. O município, que enfrenta desafios como o crescimento populacional e degradação ambiental, implementou iniciativas para melhorar o acesso à água potável e promover a gestão sustentável dos recursos hídricos. Projetos de reflorestamento e saneamento básico estão em andamento, visando restaurar ecossistemas e garantir uma água mais limpa para a população. Essas ações não apenas mitigam os riscos associados à água, mas também impulsionam a economia local e promovem a saúde pública.
Resumo supervisionado por jornalista.À beira do Lago Nakuru, a paisagem pode mudar em questão de dias. Chuvas intensas transformam ruas em canais improvisados, invadem casas, interrompem comércios e expõem a fragilidade de bairros inteiros. O que durante décadas foi tratado como desastre recorrente começa, agora, a ser reinterpretado como oportunidade de redesenho urbano. Em Nakuru, no Quênia, a água está deixando de ser apenas risco para se tornar eixo de planejamento, inclusão e resiliência econômica.
Nos últimos anos, o país enfrentou eventos extremos cada vez mais frequentes. Em 2023, cheias associadas ao aumento do nível dos lagos do Vale do Rift, incluindo o Lago Nakuru, deslocaram milhares de pessoas e pressionaram infraestruturas urbanas já vulneráveis. A expansão urbana acelerada, combinada com drenagem insuficiente e ocupação de áreas suscetíveis a alagamentos, agravou o cenário.
É nesse contexto que surge a iniciativa Water as Leverage (WaL) — Água como Alavanca — um programa internacional que atua em cidades vulneráveis para transformar desafios climáticos em motores de desenvolvimento sustentável.
Água como alavanca

O programa em Nakuru é conduzido pela Netherlands Enterprise Agency (RVO), em parceria com o UN-Habitat, a Vitens Evides International e a Embaixada do Reino da Holanda no Quênia.
A metodologia do Water as Leverage parte de um princípio simples e potente: integrar água, clima e desenvolvimento urbano desde o início do planejamento. Em vez de responder às inundações apenas com obras cinzas de contenção, o programa propõe soluções baseadas na natureza, governança colaborativa e modelos financeiros inovadores.
De acordo com a RVO, o WaL busca criar propostas integradas, viáveis técnica e financeiramente, combinando infraestrutura verde, inclusão social e oportunidades econômicas. Em Nakuru, isso se traduz em intervenções como:
- jardins e telhados verdes capazes de absorver parte da água da chuva;
- parques e áreas permeáveis que funcionam como zonas de retenção temporária;
- melhoria de sistemas de drenagem natural;
- requalificação de áreas vulneráveis com foco em geração de renda local.
Soluções baseadas na natureza como motor econômico
A aposta em soluções baseadas na natureza (Nature-based Solutions – NbS) está alinhada às recomendações da United Nations Environment Programme (UNEP), que aponta essas estratégias como essenciais para adaptação climática em cidades africanas. Relatório da UNEP destaca que infraestrutura verde pode reduzir riscos de desastres, melhorar a qualidade ambiental e gerar empregos locais, especialmente em contextos urbanos vulneráveis.
Em Nakuru, a lógica vai além da contenção de enchentes. Ao criar parques urbanos, corredores verdes e sistemas de captação natural, a cidade também valoriza o solo urbano, estimula atividades econômicas formais, reduz perdas financeiras recorrentes associadas a desastres e fortalece a confiança de investidores.
Segundo o UN-Habitat, cada dólar investido em redução de risco pode evitar múltiplos dólares em perdas futuras, argumento que tem sido central na defesa de políticas de adaptação urbana no continente africano.
Planejamento integrado para crescimento inclusivo
A proposta do Water as Leverage também dialoga com o conceito de “crescimento inclusivo”, ao envolver comunidades locais no desenho das soluções. Oficinas participativas e processos colaborativos fazem parte da metodologia, buscando alinhar infraestrutura, moradia, mobilidade e segurança hídrica.
De acordo com o ONU-Habitat, cidades intermediárias em países africanos enfrentam crescimento urbano acelerado, mas ainda preservam margem para planejamento preventivo e inovação em infraestrutura resiliente, diferentemente de megacidades já consolidadas. Essa leitura aparece no World Cities Report 2022, que destaca o papel estratégico das secondary cities na transição para modelos urbanos mais sustentáveis.
Da vulnerabilidade à referência
A experiência de Nakuru mostra que adaptação climática não precisa ser sinônimo de retração econômica. Ao contrário, pode funcionar como catalisador de transformação urbana.
Ao tratar a água como infraestrutura estruturante e não como ameaça isolada, o município passa a integrar planejamento ambiental, inclusão social e desenvolvimento econômico em uma mesma estratégia.
Em um cenário global em que cidades enfrentam eventos extremos cada vez mais frequentes, Nakuru sugere um caminho possível: usar o risco como ponto de partida para construir resiliência. E, talvez, descobrir que a água, quando incorporada ao desenho da cidade, deixa de invadir e passa a sustentar.