O vento sopra forte nas ilhas gregas. Ele raspa as pedras, dobra os arbustos baixos e empurra a luz branca contra as fachadas caiadas que pontuam o relevo. Há séculos, construir ali significa respeitar o clima: paredes espessas para conter o calor, aberturas calculadas, volumes que não enfrentam o horizonte — acompanham.
É nesse cenário que foi projetada a Horizon House, na ilha de Syros. De longe, ela quase não aparece. Parte da construção foi escavada na encosta, o teto é coberto por vegetação que devolve à paisagem o que foi ocupado. Apresentada como uma residência net-zero, o projeto do ONUS Architecture Studio aposta em estratégias passivas combinadas a sistemas de reaproveitamento de água e energia para reduzir o impacto ambiental. A casa foi destacada por veículos internacionais de arquitetura justamente por essa integração entre edifício e terreno.
Mas a imagem que impressiona — a casa que desaparece — abre uma questão mais complexa: o que significa, de fato, design regenerativo? E para quem ele é possível?
Regenerar é mais do que reduzir

O termo “design regenerativo” ganhou força nos últimos anos para diferenciar projetos que não apenas minimizam danos ambientais, mas buscam gerar impacto positivo. A consultoria global Arup descreve a abordagem como um passo além da neutralidade, integrando edifícios a sistemas ecológicos e sociais para fortalecer sua resiliência ao longo do tempo.
Outro referencial recorrente é o International Living Future Institute, responsável pelo Living Building Challenge, certificação que exige desempenho ambiental rigoroso e integração com o entorno, incluindo critérios de energia, água e materiais.
Segundo publicação do World Architecture, na casa grega, isso se traduz em cobertura verde que ajuda a recompor o microclima, uso da própria massa térmica do terreno para estabilizar temperaturas internas e sistemas de reaproveitamento hídrico descritos nas publicações sobre o projeto.
É arquitetura que tenta dialogar com o ecossistema. Mas há um ponto sensível: regeneração ambiental não significa automaticamente inclusão social.
Sustentabilidade não pode ser só estética

Projetos como o da Grécia costumam ocupar terrenos privilegiados e envolver orçamentos elevados. A tecnologia embarcada, como sistemas geotérmicos ou automação energética, amplia o desempenho, mas também restringe a replicabilidade.
Isso não invalida a proposta. Pelo contrário: ela funciona como laboratório. O problema é quando a sustentabilidade vira espetáculo visual.
Boa parte do conforto ambiental da Horizon House, no entanto, não depende de tecnologia sofisticada, depende de decisões de projeto que podem ser aplicadas em diferentes escalas.
O que pode ser aplicado em qualquer latitude

Estratégias passivas continuam sendo a base da arquitetura climática. Orientação solar adequada, ventilação cruzada e uso de massa térmica são princípios amplamente documentados em guias de construção sustentável, como o portal australiano YourHome, referência internacional em design climático residencial.
Coberturas verdes também oferecem benefícios ambientais relevantes, como redução da temperatura superficial e retenção de água de chuva. A United States Environmental Protection Agency (EPA) destaca seu papel na mitigação das ilhas de calor urbanas. Ao mesmo tempo, a agência observa que telhados refletivos, conhecidos como cool roofs, podem ser alternativas mais econômicas quando o objetivo principal é reduzir ganho térmico e consumo de energia.
O aprendizado é claro: regeneração começa no desenho, não no orçamento.
Quando a paisagem é protagonista

A ideia de integrar arquitetura ao relevo não é exclusiva de residências de alto padrão. De acordo com publicação da ZinCo, em Atenas, o Centro Cultural Stavros Niarchos, projetado por Renzo Piano, utiliza um grande plano inclinado verde que prolonga o parque público até a cobertura do edifício, criando continuidade entre cidade e natureza.
Já em projetos menores, veículos como Designboom documentam cabanas de terra compactada e madeira com cobertura vegetal que utilizam técnicas tradicionais reinterpretadas de forma contemporânea.
Em ambos os casos, o princípio é o mesmo: trabalhar com o terreno, não contra ele.
A casa na Grécia impressiona porque quase não aparece. Mas talvez o gesto mais potente do design regenerativo não seja desaparecer e sim, reaprender a construir com o clima, com o solo e com os limites reais. Se a arquitetura conseguir fazer isso em diferentes escalas, então a paisagem deixa de ser cenário e volta a ser parte do projeto.