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Startups têm o papel de se aventurar no que é desconhecido, diz Bruno Loreto

Sócio da Terracotta Ventures, Bruno Loreto faz um raio x das tendências para o futuro próximo do segmento.

7 de fevereiro de 2022 - 7 minutos de leitura

Autor: Redação

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Trabalhar de casa, pedir comida pelo aplicativo, alugar espaços com o toque de um botão. Isso tudo já faz parte do dia a dia das cidades e das transformações que vêm ocorrendo na forma como as pessoas vivem e  se relacionam. No âmbito empresarial, a corrida da transformação digital continua: algumas estão se adaptando, outras já estão dando passos mais largos. Nessa jornada, as startups têm um papel importante, principalmente na área da construção, onde ainda há muito espaço para o uso de tecnologia e dados, como conta o sócio da Terracotta Ventures, Bruno Loreto, especialista em venture capital e inovação no ecossistema de construtechs e proptechs, em entrevista ao Habitability. “A tecnologia é um meio, não um fim. O que acontece é que uma empresa que não usa tecnologia fica cada vez menos competitiva no mercado”, disse Loreto. 

Com 7 investimentos realizados e cerca de 2 mil startups de Construtechs e Proptechs estudadas em todo o mundo, Loreto foi cofundador em 2019 da Terracotta Ventures – empresa de venture capital focada em investir em construtechs e proptechs da América Latina – para ser uma ponte que conecta esses dois pólos – de um lado as grandes empresas que querem e precisam inovar e, do outro, as startups que estão criando e desenvolvendo tecnologias capazes de causar impactos significativos nos modelos de negócios. Recentemente, a Terracotta abriu um fundo de R$ 100 milhões voltado para o aporte em 20 startups que atuam no ambiente de construção e imobiliário. A seguir, você confere algumas das novidades que vão (ou já estão!) revolucionando o mercado:

Recentemente, startups como Quinto Andar e Loft entraram na lista de unicórnios (ou seja, startups com valor de mercado acima de US$1 bilhão), isso trouxe luz para o segmento de proptechs e realtechs, que você atua já há um tempo. O que mudou desde a época em que começou a ver essas startups surgindo e agora?

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Bruno Loreto – O conceito de startup é algo novo. Em 2010 elas eram chamadas apenas de “empresas de tecnologia”. Era estranho uma empresa do setor de construção ou imobiliário se definir como startup. Quando um profissional saía da faculdade, ele não optava por trabalhar em uma startup, que era entendida como uma empresa pequena e focada apenas em tecnologia. Era uma mão de obra muito específica. Já hoje, muitas pessoas saem da faculdade colocando as startups como primeira opção. Isso mudou bastante. As startups viraram pólos de atração de talento. Esse cenário se tornou um desafio porque os talentos querem trabalhar com tecnologia, mas a competição por eles aumentou muito, o que inflacionou o mercado. 

Outra coisa importante que mudou foi o acesso a investimentos. Não existia uma cadeia de investidores que topava tomar o risco de um venture. Nos últimos três anos isso acelerou bem no Brasil e está batendo todos os recordes. Tem muito capital disponível. Isso acabou invertendo a ordem: o empreendedor [de startup] escolhe de quem ele quer captar dinheiro. No passado, ele tinha que aceitar o que aparecesse. Com isso veio também outra mudança: a velocidade do crescimento das empresas. Antes a empresa crescer 50% ao ano era considerado bom. Hoje se exige dobrar ou triplicar de tamanho a cada ano.

A pressão por crescimento e resultados aumentou e as startups parecem terem correspondido trazendo uma inovação gigantesca para o mercado digital. Qual o papel dessas empresas quando falamos do setor de construção em específico?

Bruno Loreto – A startup é uma empresa que se propõe a criar algo em um contexto de extrema incerteza, buscando um produto ou serviço que se torne um negócio escalável. Nesse sentido, ela tem mais o papel de se aventurar no que é desconhecido, acreditar em uma tese que talvez a maioria não acredite e validar novas formas de fazer algo. Quando se fala em cidade do futuro, a gente está em um ambiente em que muita coisa vai ter que ser repensada. Então as startups têm esse papel de repensar. É difícil que a gente veja uma companhia grande, como uma do setor de energia, por exemplo, mudando toda a sua matriz energética de uma hora para outra. Já a startup tem essa capacidade de se aventurar no incerto. 

Também vejo uma aproximação natural entre grandes empresas e startups, justamente para aprenderem e entenderem como se movimentar nesse meio incerto. No âmbito da cidade do futuro, as startups vão validar o que vai ser essa cidade e os grandes players ajudarão a construir esse futuro. 

Esse ponto da colaboração entre grandes empresas e startups é interessante pois mostra que inovação não é só fruto de processos ágeis dentro de empresas de tecnologia. Como você vê a tecnologia chegando a empresas maiores?

Bruno Loreto – Há 10 anos, era difícil as pessoas entenderem quando falávamos em solução em nuvem. Em 2008, contratar um produto do tipo SaaS (Software as a Service, ou seja, software como um serviço), era complicadíssimo. Era normal escutar perguntas do tipo “onde instalo esse programa?” ou “cadê o CD do programa?”. Hoje em dia já é difícil pensar em instalar um software ou precisar de um CD. As pessoas usam o software e nem precisam saber em que lugar ele está hospedado ou como funciona a nuvem. Só sabem que o software funciona! O que agrega valor são as coisas mais simples, mas que vão mudando ao longo do tempo. 

A dinâmica das pessoas também muda. Por exemplo, estamos vendo uma nova geração que está chegando no mercado, que nunca viveu sem smartphone e que nunca viveu sem estar conectado à internet o tempo todo. Já é uma geração com aptidão natural para lidar com tecnologia. E são pessoas que procuram resolver os problemas usando tecnologia. Além disso, tem uma geração chegando no comando das empresas que tem uma cabeça ligada mais a oportunidades e a resolução rápida de problemas por meio de tecnologia. E, por cima de tudo isso, ainda tem o efeito da pandemia que acelerou a digitalização das empresas em uns 5 ou 10 anos. O efeito disso é perceptível no mercado. Você vê mais startups surgindo, mais investidores apostando e mais empresas colocando dinheiro em inovação e tecnologia. Nós, por exemplo, temos 30 investidores dos quais 90%

são donos de empresas do setor, então eles estão, de fato, investindo bastante no que querem estar conectados e se beneficiar das mudanças que estão chegando ao setor.

Nesse ponto, como a tecnologia habilita a inovação? E o que é inovação, pensando especificamente no segmento imobiliário?

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Bruno Loreto – “A tecnologia é um meio, não um fim. O que acontece é que, hoje em dia, uma empresa que não usa tecnologia fica cada vez menos competitiva no mercado. Sem digitalização, ela teria custos mais altos e ainda entregaria uma experiência pior para o cliente. Ela seria mais lenta. Todas as grandes transformações que estão acontecendo não são inovações de tecnologia, mas de modelagem de negócio. 

O Quinto Andar, por exemplo, conseguiu ganhar espaço porque eliminou o fiador. A tecnologia em si, se usou aplicativo ou não, não foi o principal elemento. Por mais que eles tenham um portal legal e um espaço digital bonito, isso é algo que uma imobiliária teria. O que o cliente não queria era ter que precisar de um fiador e de toda burocracia para alugar um apartamento. A tecnologia permitiu fazer isso de maneira mais rápida e escalável. Ela é um viabilizador disso, mas não gera diretamente valor.

Muitas empresas acabam optando pela tecnologia para reduzir custos ou ganhar produtividade. Mas o mais importante é usar a tecnologia para viabilizar novos modelos de negócio e novas ofertas que permitam algo diferente. Esses são os dois eixos nos quais as empresas do mercado podem se beneficiar de inovação e tecnologia.

Olhando para os próximos anos, e pensando em tecnologias que já temos, como imagina a cidade em 2030? 

Bruno Loreto – O que eu vejo é aquilo que vem sendo potencializado: a conectividade impulsionada pelo 5G. Esse é um vetor que vai mudar a dinâmica das cidades no curto prazo. A capacidade de um celular ou qualquer dispositivo móvel, como sensores de movimento, terem maior capacidade de processamento e mais velocidade pode deixar tudo mais inteligente. Carros autônomos são outras das grandes tendências e expectativas para a cidade a curto prazo. Teremos mais opções de carros operando de forma autônoma, diminuindo a necessidade das pessoas terem o próprio carro. 

Um fenômeno que a pandemia ajudou a potencializar foi o trabalho remoto,. Existe uma expectativa que, uma vez passada a pandemia, mais e mais empresas adotem o modelo híbrido. É possível que em 2025 a gente esteja falando de profissionais que não queiram mais saber da experiência de estar no escritório ao vivo todos os dias da semana, em horário comercial. Além de afetar o mercado de trabalho, isso irá afetar as cidades. Tanto o prédio comercial, quanto os polos comerciais vão mudar. Haverá mais espaços de trabalho nos bairros. Vejo uma possível descentralização da cidade, permitindo que as pessoas possam conviver mais perto de onde habitam, trabalhando por perto, próximas a outras pessoas, de outras empresas. Talvez no coworking do bairro, um espaço mais flexível e compartilhado do que um prédio comercial clássico. 

Além das cidades mais inteligentes e as mudanças na dinâmica do espaço de trabalho, existe um ponto que chegará nas cidades que é a geração que está ficando cada vez mais acostumada com a economia do acesso e não à economia da posse. Uma geração que olha mais em termos de compra de apartamentos olhando para a infraestrutura de serviços que o prédio oferece. O “propriedade as a service” é um nicho que vai se consolidar mais e trará uma outra dinâmica para o mercado imobiliário. 

Pegando esse ponto da economia do acesso, como isso pode mudar as cidades para o futuro no médio prazo?

Bruno Loreto – Essa economia traz uma dinâmica na qual os prestadores e os fornecedores precisam conhecer muito mais o usuário. O conhecimento sobre os hábitos dele consegue trazer uma experiência muito mais completa em todos os sentidos. E acho que é algo que iremos vivenciar também nas cidades. A questão da flexibilidade, de poder ter um ambiente imobiliário mais flexível, baseado em dados, a infraestrutura da cidade pensando no tipo de uso das ruas e como elas podem ser convertidas. A gente vê essas práticas, como a transformação da Avenida Paulista no final de semana. Com dados é possível fazer isso em muitos outros ambientes. Por que não criar parques flexíveis? Uma avenida não precisa ter uma utilidade só, uma utilidade apenas comercial.

Acho que a cidade do futuro será mais dinâmica. Ela tem que proporcionar isso: um ambiente mais saudável, mais sustentável, eliminando o caos urbano e criando uma experiência mais positiva  e pautada em dados.