Em um momento em que as cidades precisam repensar sua relação com os recursos e os resíduos que produzem, iniciativas que aproximam a sustentabilidade da vida cotidiana ganham um papel cada vez mais estratégico. À frente do Programa Nacional Recicla Cidade, Roseli Barbosa, gestora de projetos e diretora da Organização Espaço Urbano atua diretamente com soluções técnicas para a destinação correta de materiais. Mas ela vai além, fundamentada na visão de que transformação urbana passa também por mudanças culturais, por novas formas de engajamento coletivo e pela valorização das pessoas que constroem os territórios no dia a dia.
É nesse encontro entre educação ambiental, inclusão social e inovação, que está a metodologia participativa que orienta o Recicla Cidade, mobilizando a comunidade em prol do fortalecimento da economia circular em diferentes municípios brasileiros. Nesta entrevista ao Habitability, Roseli apresenta como isso tem se dado na prática e discute como iniciativas que conectam educação, pertencimento e inovação social podem contribuir para construir cidades mais sustentáveis, colaborativas e socialmente justas.
Qual foi o papel da educação ambiental e da inclusão social no processo de criação e consolidação da ONG Espaço Urbano?
Roseli Barbosa: A Espaço Urbano nasceu oficialmente em 2016, mas sua história começa muito antes, em 2008, a partir da minha atuação com educação ambiental, arte e reutilização de materiais. Desde o início, entendi que falar de sustentabilidade não poderia ser algo distante da vida real das pessoas. A educação ambiental sempre foi o fio condutor do nosso trabalho, uma educação prática, sensível, criativa e conectada aos territórios.
Ao longo dos anos, atuando em escolas, empresas, hospitais e comunidades, ficou claro que não existe sustentabilidade sem inclusão social. A consolidação da Espaço Urbano acontece justamente quando passamos a integrar educação ambiental, geração de renda, valorização de pessoas e fortalecimento comunitário. A ONG surge para dar estrutura e continuidade a essa visão: transformar desafios urbanos em soluções construídas coletivamente, com impactos social e ambiental reais.
Como você define a metodologia do Programa Recicla Cidade? Quais pilares você considera essenciais para que essa metodologia funcione em diferentes municípios?
Roseli Barbosa: A metodologia do Recicla Cidade é participativa, territorial e adaptável. Não levamos um modelo fechado para as cidades: construímos soluções a partir da escuta e do diagnóstico local. Alguns pilares são essenciais para que o programa funcione em diferentes realidades, começando pela educação ambiental contínua, que vai além da escola e chega aos espaços públicos, privados e comunitários.
Soma-se a isso o engajamento comunitário, que valoriza lideranças locais e os chamados “influenciadores da vida real”, que são pessoas que impactam mais de 50 indivíduos localmente, sejam líderes comunitários, religiosos, de causas sociais ou de qualquer nicho interessado em integrar nossas ações. O modelo utiliza também a tecnologia social, com ferramentas simples, acessíveis e replicáveis, além de manter uma forte articulação com o poder público para fortalecer políticas de resíduos e economia circular.
Por fim, promovemos a valorização social dos resíduos, transformando o ato de reciclar em algo concreto, reconhecido e recompensado. É essa combinação que permite que o programa dialogue tanto com pequenos municípios, quanto com grandes centros urbanos.
O que diferencia a metodologia do Recicla Cidade de outras iniciativas de gestão de resíduos já implementadas no Brasil?
Roseli Barbosa: O principal diferencial é que o Recicla Cidade não trata o resíduo apenas como um problema ambiental, mas como um ativo social, educativo e urbano. A maioria das iniciativas foca na infraestrutura da coleta, nós focamos na mudança de comportamento e na relação das pessoas com o território.

Trabalhamos com gamificação, moeda humanitária, educação não formal e construção de vínculos comunitários. Além disso, o programa integra diferentes setores, como poder público, empresas, cooperativas, escolas e comunidades, criando um ecossistema vivo de economia circular. Não é uma ação pontual, é um processo contínuo de transformação social e pertencimento.
Entre as cidades que já implementaram o programa, quais experiências se destacam como cases de sucesso? Além do Recicla Guarujá, premiado em 2024, há outros exemplos que se tornaram referência em sustentabilidade ou inovação na gestão de resíduos?Entre as cidades que já implementaram o programa, quais experiências se destacam como cases de sucesso? Além do Recicla Guarujá, premiado em 2024, há outros exemplos que se tornaram referência em sustentabilidade ou inovação na gestão de resíduos?
Quais são hoje os principais cases de sucesso do programa? Além do Recicla Guarujá, que em 2024 recebeu pela segunda vez um reconhecimento pelo sucesso no fomento aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), desta vez com o Prêmio Hugo Werneck, existem outros exemplos de cidades onde a metodologia gerou resultados expressivos e que merecem destaque?
Roseli Barbosa: O Recicla Cidade já passou por 34 cidades, e temos alguns casos que mostram, na prática, como a metodologia consegue se adaptar a diferentes territórios. Um exemplo que nos traz muito orgulho é o Benevides Recicla, no Pará. O projeto ganhou reconhecimento nacional ao receber o Prêmio Consciência Ambiental Immensità, do Espaço Immensità, como melhor projeto do Brasil. Mais do que o prêmio, o que marca essa experiência é ver como a população se envolve e passa a enxergar o resíduo de outra forma, entendendo que aquilo que antes era descartado pode gerar valor social, ambiental e econômico para a cidade. Esses exemplos mostram que, quando conseguimos conectar educação ambiental, participação comunitária e novos formatos de engajamento, a mudança começa a fazer parte da rotina das cidades.
Um dos pilares que desperta curiosidade no modelo do Recicla Cidade é a utilização da Moeda Humanitária. Poderia detalhar o funcionamento desse sistema de troca e de que maneira ele tem sido capaz de reconfigurar a realidade local?
Roseli Barbosa: A moeda humanitária funciona como uma ferramenta de reconhecimento. A população entrega resíduos recicláveis e recebe uma Eco Moeda que pode ser trocada por acesso a cultura, cinema itinerante, saúde pet, atividades educativas ou outros benefícios definidos junto ao território.
Na prática, ela muda a lógica da reciclagem. As pessoas deixam de destinar corretamente seus resíduos apenas “porque é certo” e passam a perceber valor real naquele gesto. Observamos aumento do engajamento, fortalecimento dos vínculos comunitários e uma participação muito maior de famílias que antes estavam à margem das políticas ambientais. A moeda não é sobre troca financeira, é sobre pertencimento, dignidade e acesso.
Um exemplo muito simbólico dessa aplicabilidade é o Espaço Eco Troca de São Paulo, inaugurado em janeiro de 2026 no Raposo Shopping. Esse espaço marca o primeiro shopping center a adotar uma moeda humanitária como instrumento permanente de engajamento socioambiental. E a partir dessa experiência, observamos uma mudança clara na relação das pessoas com os resíduos dentro de um ambiente urbano de consumo. O ato da destinação correta passa a fazer parte da rotina, ganha visibilidade e se conecta a uma lógica de cuidado coletivo e pertencimento. A moeda humanitária, nesse contexto, amplia o alcance da educação ambiental, aproxima públicos diversos e demonstra que a sustentabilidade pode e deve estar integrada aos espaços cotidianos da cidade.
Em que medida essa abordagem altera a percepção da população sobre resíduos e sustentabilidade?
Roseli Barbosa: Ela transforma completamente a percepção. O resíduo deixa de ser algo visto como ‘tóxico e intocável’ e passa a ser um recurso com valor. A sustentabilidade deixa de ser um discurso distante e se torna algo vivido no cotidiano. Quando a pessoa entende que o resíduo pode gerar acesso, cuidado, cultura e aprendizado, ela se reconhece como parte da solução. Isso gera orgulho, continuidade e engajamento.
Quais os impactos mais significativos observados nas cidades que adotaram o programa?

Roseli Barbosa: De forma geral, observamos três grandes impactos gerados pelo programa: os ambientais e climáticos, com a ampliação da coleta seletiva e maior qualidade dos resíduos destinados à reciclagem; os sociais, por meio do fortalecimento comunitário, valorização de catadores e inclusão de populações periféricas; e os econômicos, ao estimular a economia circular local e apoiar políticas públicas de resíduos sólidos.
Quais são os maiores desafios para fortalecer a economia circular e a inclusão social nas cidades brasileiras?
Roseli Barbosa: Precisamos avançar na educação ambiental contínua. Também é fundamental fortalecer políticas públicas integradas, garantir continuidade dos programas e ampliar o entendimento de que sustentabilidade é investimento social e urbano. Outro desafio é romper com soluções isoladas. A economia circular só se fortalece quando há cooperação entre poder público, iniciativa privada e sociedade civil, e isso exige tempo e compromisso de longo prazo.