Cidade em modo silencioso

Exemplo australiano de Gold Coast mostra como os carros urbanos estão moldando o cotidiano urbano no mundo.

Por Nathalia Ribeiro em 28 de janeiro de 2026 5 minutos de leitura

Um cenário urbano com um trem elétrico amarelo em uma via de transporte, altos prédios ao fundo e árvores, destacando a mobilidade sustentável e o uso de carros elétricos na cidade.
Foto: Lakeview Images/ Shutterstock

O avanço dos carros elétricos costuma ser associado, quase automaticamente, à agenda ambiental. Menos emissões, menos poluição do ar, mais eficiência energética. Mas seus impactos vão além do que sai do escapamento ou, no caso, da ausência dele. Em cidades onde a eletrificação do transporte avança de forma mais consistente, o silêncio passou a ser um agente de transformação urbana.

Na cidade de Gold Coast, na Austrália, bairros que antes eram pouco desejados por estarem próximos a vias movimentadas começaram a ganhar novo fôlego à medida que os carros elétricos se tornaram mais comuns. A redução significativa do ruído alterou a percepção de conforto nas ruas e contribuiu para a valorização imobiliária dessas áreas.

À medida que esse movimento se expande para outras cidades, a eletrificação do transporte também traz novos desafios para o planejamento urbano. Questões como segurança de pedestres, adaptação do desenho das ruas e a capacidade das cidades de absorver essa transformação passam a integrar o debate sobre o futuro da habitabilidade urbana.

Carros elétricos e o silêncio como vetor de transformação urbana

Em cidades marcadas historicamente pelo barulho constante do trânsito, o silêncio tem se revelado um elemento de requalificação dos espaços urbanos. A substituição gradual dos motores a combustão por veículos elétricos vem alterando a paisagem sonora de ruas e avenidas, com efeitos diretos sobre a percepção de bem-estar, conforto e uso do espaço público.

O caso de Gold Coast, na Austrália, ajuda a ilustrar esse fenômeno. Conhecida internacionalmente por suas praias extensas, pela cultura do surfe e por uma vida urbana intensa, a cidade também convive com um tráfego marcado pelo fluxo contínuo de carros cruzando áreas repletas de restaurantes, bares e opções de entretenimento. Mesmo sendo, historicamente, uma região de metro quadrado elevado, a paisagem urbana passou por uma nova inflexão recente, impulsionada não pelos ventos do oceano, mas pela presença cada vez mais frequente de veículos elétricos nas ruas.

Com a redução significativa do ruído provocado pelo trânsito, áreas antes afetadas pela circulação intensa ganharam uma nova percepção de qualidade ambiental. Em apenas um ano, o valor dos imóveis nessas regiões registrou uma alta de cerca de 30%, aquecendo ainda mais um mercado imobiliário já valorizado. O silêncio, nesse contexto, deixou de ser apenas uma característica sensorial para se tornar um ativo urbano.

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Casos como esse ajudam a explicar por que cidades como Oslo, Barcelona e Londres têm associado políticas de incentivo à mobilidade elétrica a estratégias mais amplas de redesenho urbano. Ao reduzir emissões e barulho, os carros elétricos passam a integrar uma lógica de cidade que busca equilibrar deslocamento, permanência e qualidade de vida, reposicionando o trânsito como parte, e não como obstáculo, da experiência urbana.

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Silêncio nas ruas, alerta redobrado

Rua urbana moderna com carros elétricos circulando, ciclistas e pedestres em cidade com prédios altos e cyclosoping
Imagem gerada digitalmente

Se, por um lado, a redução do ruído redefine a qualidade ambiental das cidades, por outro, ela também levanta questionamentos relevantes sobre segurança viária. A circulação de veículos quase imperceptíveis ao ouvido humano introduz novos desafios, especialmente em áreas de tráfego compartilhado, onde pedestres, ciclistas e carros convivem no mesmo espaço.

Uma análise baseada em dados de colisões no Reino Unido, publicada no Journal of Epidemiology & Community Health, apontou que carros elétricos e híbridos estiveram envolvidos em mais atropelamentos de pedestres quando comparados aos veículos a combustão, sobretudo em áreas urbanas e em situações de baixa velocidade, cenário em que o som do motor costuma funcionar como um alerta informal para quem circula a pé. Relatórios anteriores do Departamento de Transportes dos Estados Unidos também indicaram maior incidência de acidentes envolvendo pedestres em manobras como ré, curvas e aproximações lentas, justamente quando o silêncio do veículo se torna mais perceptível.

No entanto, estudos conduzidos por universidades britânicas, como a University of Leeds, indicam que, quando ajustadas pela distância percorrida e pela adoção de sistemas obrigatórios de alerta sonoro em veículos elétricos mais novos, as taxas de atropelamento tendem a se aproximar das registradas por carros a combustão. 

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A influência dos carros elétricos no desenho urbano

O debate em torno do silêncio dos carros elétricos deixa claro que a eletrificação do transporte não se limita ao desempenho dos veículos ou à segurança imediata nas ruas. Ela expõe, sobretudo, como as cidades estão – ou não – preparadas para absorver transformações profundas em sua lógica de circulação, ocupação e convivência. É nesse ponto que a mobilidade elétrica passa a interferir diretamente no desenho urbano.

À medida que sua adoção cresce, surgem mudanças concretas nas estruturas físicas e sociais das cidades, afetando desde o uso do espaço até as prioridades no planejamento urbano. Essas transformações, no entanto, não acontecem de forma neutra e exigem atenção aos seus efeitos colaterais.

A pesquisa “Are Electric Vehicles Reshaping the City?”, publicada na revista científica International Journal of Geo-Information, indica que a disseminação de veículos elétricos já começa a influenciar padrões de ocupação urbana. Ao analisar o perfil residencial de proprietários de carros elétricos em Pequim, o estudo identificou uma tendência de concentração desses usuários em áreas periféricas ou suburbanas, em vez dos centros tradicionais. Esse movimento tem potencial para reconfigurar o equilíbrio entre núcleo urbano e bordas da cidade, redefinindo onde se concentram investimentos, infraestrutura e serviços.

Essa dinâmica territorial tende a impactar diretamente a alocação de recursos urbanos. A demanda crescente por eletropostos, redes de carregamento e serviços associados pode direcionar investimentos públicos e privados para áreas específicas, reforçando desigualdades pré-existentes. Iniciativas como o projeto How Will Electric Vehicles Influence the Changing Urban Infrastructure and Energy Network, desenvolvido pela Universidade da Pensilvânia, destacam que decisões sobre onde instalar infraestrutura de recarga estão profundamente conectadas a padrões de renda, moradia e mobilidade, e não apenas à lógica do transporte.

Nesse contexto, surge o debate para o risco de que a mobilidade elétrica atue como mais um vetor de valorização seletiva do território urbano. Ao tornar determinadas áreas mais desejáveis e bem servidas de infraestrutura, a expansão dos carros elétricos pode acelerar processos de gentrificação, elevando preços imobiliários e pressionando populações de menor renda a se deslocarem para regiões ainda menos assistidas. O desafio, portanto, não está apenas em redesenhar ruas, mas em garantir que os benefícios dessa reorganização, como áreas verdes, moradias e infraestrutura de mobilidade, sejam distribuídos de forma mais equitativa.

Carros elétricos no Brasil: avanço desigual e desafios urbanos

Estação de recarga de carros elétricos no Brasil, com design inovador e temática sustentável, destacando a importância da mobilidade elétrica urbana.
Foto: Anderson Nascimento/ Shutterstock

No Brasil, a presença de carros elétricos ainda representa uma fatia pequena da frota total, mas os números mais recentes sinalizam um crescimento acelerado e contínuo, ainda que desigual. Levantamentos especializados mostram que a frota de veículos eletrificados (incluindo elétricos puros e híbridos plug-in) ultrapassou 480 mil unidades no primeiro semestre de 2025, um crescimento de cerca de 28% em seis meses, conforme dados compilados pela Secretaria Nacional de Trânsito e analisados pela NeoCharge.

Esse avanço, no entanto, não se distribui de maneira homogênea pelo território. Assim como observado em experiências internacionais, a mobilidade elétrica no Brasil tende a se concentrar em grandes centros urbanos e em regiões de maior renda, onde há maior disponibilidade de infraestrutura, incentivos privados e poder aquisitivo para absorver o alto custo inicial dos veículos.

Cidades médias, áreas periféricas e regiões afastadas dos principais eixos econômicos seguem enfrentando obstáculos estruturais que limitam o acesso a essa transição. Entre os principais entraves está o custo de aquisição, ainda elevado para a maioria da população, e a infraestrutura de recarga, que segue insuficiente e mal distribuída. Há, ainda, a escassez de eletropostos fora dos grandes centros, que limita o uso cotidiano dos veículos elétricos e restringe sua viabilidade como alternativa de mobilidade em contextos urbanos mais diversos. 

Em algumas cidades ao redor do mundo, como Gold Coast, a redução do ruído já aparece associada à requalificação de áreas antes desvalorizadas e a novas dinâmicas de ocupação do território. No Brasil, esse mesmo silêncio ainda enfrenta barreiras econômicas e estruturais que limitam sua disseminação. Entre exemplos internacionais e desafios locais, a mobilidade elétrica se apresenta como uma oportunidade em construção, capaz de reposicionar não apenas o trânsito, mas a própria experiência de viver nas cidades.

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