Steel Frame: construção a seco chega aos canteiros brasileiros

Steel frame, o sistema que substitui tijolos por perfis de aço galvanizado, reflete ganhos ambientais e redução de prazos nas obras.

Por Marcia Tojal em 16 de abril de 2026 5 minutos de leitura

Estrutura de Steel Frame para construção a seco de uma casa moderna em andamento, com estrutura metálica visível, em terreno ao ar livre.
Foto: Eduardo Miranda Ramos/ Shutterstock

Durante décadas, o canteiro de obras brasileiro foi marcado pela mesma imagem: sacos de cimento empilhados, água sendo misturada à argamassa e uma nuvem de pó que se espalhava pelo entorno. Esse cenário começa a mudar. O Steel Frame, sistema construtivo que usa perfis de aço galvanizado como estrutura principal, eliminando quase completamente o uso de processos úmidos, avança no País como alternativa mais rápida, menos desperdiçadora e mais alinhada às demandas climáticas do século 21.

Os números dão a dimensão do movimento. Dados da Associação Brasileira da Construção Metálica (ABCEM) mostram um crescimento de 60% no uso da tecnologia no País nos últimos anos. E o mercado global indica que o ritmo não deve desacelerar: segundo o Steel Framing Market Report, o setor deve crescer entre 5% e 7% ao ano, com projeção de um mercado global de US$ 280 bilhões até 2027.

O que é Steel Frame?

Construção de edifício com estrutura de steel frame em andamento, destacando a estrutura metálica e o uso de aço na construção civil moderna.
Foto: zhengzaishuru/ Shutterstock

O sistema construtivo funciona como um esqueleto de aço: perfis fabricados a partir de chapas de aço galvanizado dobradas a frio são unidos por parafusos, formando painéis de paredes, lajes e coberturas. A modulação permite edifícios de pequeno e médio portes com rapidez de montagem, redução de resíduos e diminuição do impacto ambiental.

Diferentemente do que o nome pode sugerir, não se trata de uma estrutura metálica pesada como as usadas em galpões industriais. Os perfis são leves, daí a denominação mais técnica de Light Steel Frame (LSF), e o fechamento é feito com placas cimentícias ou drywall, que garantem isolamento térmico e acústico. A leveza do aço facilita o transporte e a montagem no canteiro de obras, e o sistema de construção a seco diminui sensivelmente a geração de resíduos, o desperdício de materiais e o impacto ambiental da obra.

A tecnologia não é nova no mundo. Nos Estados Unidos, a utilização de construções a seco soma mais de 500 mil casas por ano. No Brasil, o sistema chegou mais timidamente, mas vem ganhando tração especialmente nos estados do Sul e Sudeste. São Paulo, Paraná e Santa Catarina lideram a adoção do Steel Frame, especialmente em construções comerciais e residenciais de médio e alto padrões.

A vantagem ecológica que está redefinindo o setor

O argumento ambiental talvez seja o mais relevante para compreender a aceleração do setor. A construção civil tradicional é uma das atividades mais intensivas em recursos e geradoras de resíduos. Segundo estudos do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), o setor é responsável por 37% das emissões globais de gases de efeito estufa.

O Steel Frame atua diretamente nesse gargalo. Dados analisados em pesquisa acadêmica publicados na Revista FT, indicam que esse sistema pode reduzir a geração de resíduos em 70% a 90% em comparação à alvenaria convencional. Por ser um sistema de construção a seco, ele elimina o uso excessivo de cimento e argamassa, além de reduzir significativamente o consumo de água no canteiro de obras.

Esse último ponto merece atenção especial em um país que convive com crescentes crises hídricas. O método é mais rápido e sustentável, economizando até 90% no consumo de água na comparação com a alvenaria tradicional, segundo publicação do site Grandes Construções.

A eficiência energética das edificações prontas também se destaca. Edifícios construídos em Steel Frame podem apresentar redução de 30% a 50% no consumo de energia para climatização, gerando economia significativa ao longo de toda a vida útil da edificação. Isso ocorre porque os sistemas de fechamento com isolamento térmico embutido funcionam como uma barreira mais eficaz do que a alvenaria convencional.

Mais rápido, menos entulho

Vista de ângulo aproximado de barras de aço de ferro de ângulo empilhado em um rack de armazém.
Foto: ihsanstocker/ Shutterstock

Além dos ganhos ambientais, a velocidade de execução é um dos principais atrativos do sistema e tem impacto direto na viabilidade econômica dos projetos. O tempo de construção é 50% menor, o que atrai construtoras e investidores interessados em prazos mais curtos.

Na prática, isso significa que uma obra que levaria um ano na alvenaria convencional pode ser entregue em seis meses. Menos tempo de obra implica menor exposição a imprevistos, menos custo com mão de obra e menos impacto sobre o entorno urbano, menos barulho, menos poeira, menos bloqueio de vias.

Outra vantagem é que o Steel Frame pode reduzir em até 30% o desperdício de materiais em comparação à alvenaria convencional. A redução de entulho não é apenas um ganho ambiental, tem efeito direto no orçamento. Menos resíduo significa menos caçambas, menos transporte e menos taxas de descarte. Em cidades como São Paulo, onde o descarte de resíduos da construção civil tem regulamentação cada vez mais rigorosa, essa vantagem operacional se traduz em competitividade real.

A norma que legitimou o sistema

Um marco regulatório foi decisivo para a consolidação do setor no Brasil. A NBR 16.970:2022, estabelecida pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), disponível para leitura no site Scribd, especifica os requisitos para a construção com steel frame, abrangendo materiais, projeto estrutural e execução. A norma é dividida em três partes: desempenho, projeto estrutural e interface entre sistemas.

O sistema atende plenamente à ABNT NBR 15575, conhecida como Norma de Desempenho, que estabelece requisitos mínimos de qualidade para edificações habitacionais, avaliando aspectos como segurança estrutural, conforto térmico e sustentabilidade.

A existência de um marco normativo claro foi fundamental para derrubar um obstáculo que travava o setor: a desconfiança dos agentes financeiros. Sem norma específica, projetos em Steel Frame enfrentavam dificuldades para obter financiamento imobiliário. Com a NBR 16.970, esse entrave diminuiu.

Os desafios que ainda persistem

A trajetória de crescimento não está isenta de obstáculos. O principal deles é estrutural: a escassez de mão de obra qualificada. Diferentemente da alvenaria, que concentra no Brasil décadas de formação informal de profissionais, o Steel Frame exige conhecimento técnico específico sobre montagem de perfis, fixação de painéis e interfaces entre sistemas. A disponibilidade de equipes treinadas ainda é limitada, aumentando o valor da mão de obra.

Há também uma barreira cultural a superar. A percepção de que uma casa de aço é menos sólida ou mais cara do que uma de tijolo ainda circula entre potenciais compradores. O sistema também tem limitações técnicas. Acima de cinco pavimentos, o sistema requer análises mais complexas e combinações com outros sistemas construtivos. Para edificações de grande porte, o Steel Frame costuma ser utilizado de forma complementar, especialmente em coberturas e vedações.

Construção seca e cidades mais resilientes

Estrutura de aço de um edifício em construção com estrutura metálica recém-instalado, mostrando o uso de steel frame para construção moderna.
Foto: Yalcin Sonat/ Shutterstock

Há uma dimensão ainda pouco explorada no debate brasileiro: a contribuição do Steel Frame para a resiliência urbana. Cidades que precisam se reconstruir rapidamente após eventos climáticos extremos, enchentes, ventos fortes, deslizamentos, têm no sistema construtivo a seco uma ferramenta potencialmente estratégica. A velocidade de montagem e a leveza dos materiais permitem respostas habitacionais mais ágeis do que os métodos convencionais.

Um sistema construtivo que reduz prazos e desperdícios, sem abrir mão de desempenho técnico, deveria estar no centro do debate sobre habitação de interesse social, não apenas no radar das construtoras de médio e alto padrões.

A construção a seco chega aos canteiros brasileiros carregando uma promessa dupla: obras mais rápidas para quem constrói, e menor pegada ambiental para quem habita o planeta. A pergunta que o setor ainda precisa responder é se conseguirá escalar essa tecnologia de forma democrática, levando-a não apenas para os condomínios fechados, mas para as periferias que mais precisam de habitação digna, rápida e limpa.

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