O que as cidades mais populosas do mundo têm a nos ensinar?

Conhecer os desafios das cidades mais populosas do mundo pode ser um exercício para superar os problemas comuns às grandes metrópoles.

Por Redação em 8 de junho de 2023 11 minutos de leitura

cidades mais populosas do mundo

Com 55% da população mundial vivendo em áreas urbanas, a urbanização ainda é uma tendência crescente. Até 2050 esse número deve aumentar para dois terços, de acordo com relatórios da ONU-Habitat. A estimativa é que ao final do século sejamos a única espécie totalmente urbana do planeta. Somente as 10 cidades mais populosas do mundo já concentram quase 220 milhões de pessoas.

Nesse cenário, soluções sustentáveis e inclusivas para as cidades, que levem em conta, ao mesmo tempo, as demandas e necessidades da população e a preservação do meio ambiente, são não apenas uma necessidade urgente, como também um desafio. Olhar para as maiores cidades do mundo em termo de população pode trazer insights sobre esses desafios e (por que não?) sobre as possíveis formas de resolver essa equação de equilíbrio para um desenvolvimento sustentável.

As 10 cidades mais populosas do mundo

As grandes cidades do mundo são verdadeiros polos econômicos e culturais, atraindo uma infinidade de pessoas de diferentes partes do planeta. No entanto, o crescimento acelerado e a gestão dessas cidades apresentam desafios significativos.

Um dos principais é o gerenciamento da infraestrutura e dos recursos para atender às demandas crescentes de uma população em constante expansão. Isso inclui a necessidade de garantir serviços básicos, como transporte, água, energia, habitação e saneamento para todos os residentes.

Além disso, as grandes cidades enfrentam desafios relacionados à sustentabilidade ambiental. O aumento da urbanização pode resultar em maior consumo de recursos naturais, maior produção de resíduos, mais emissões de gases de efeito estufa e menos áreas verdes.

Algumas das cidades mais populosas do mundo já adotaram abordagens de gestão urbana integradas e sustentáveis. A seguir, é possível notar medidas envolvendo o planejamento urbano estratégico, a promoção da eficiência energética, a implementação de soluções de transporte sustentável, a gestão adequada dos recursos naturais e a criação de políticas que promovam a inclusão social e a participação cidadã.

1. Tóquio, no Japão: qualidade de vida na número 1 entre as cidades mais populosas do mundo

Com mais de 37 milhões de habitantes, Tóquio é a cidade mais populosa do mundo. Mesmo com tanta gente, a cidade também já foi escolhida duas vezes como sede dos Jogos Olímpicos, atraindo ainda mais pessoas, como visitantes. Tóquio também figura com número um no ranking de cidades com maior Produto Interno Bruto (PIB), mesmo tendo praticamente sido reconstruída após a segunda guerra mundial.

Embora gerir uma cidade tão grande assim seja um desafio, Tóquio tem se saído muito bem nessa tarefa. A cidade é marcada pelo paradoxo de oferecer qualidade de vida e ótimos índices empregatícios para seus habitantes, mesmo sendo uma megacidade, o que já lhe rendeu o título de melhor cidade para se morar.

Outra curiosidade é que seu sucesso não é fruto de um planejamento urbano coordenado, mas mesmo assim trata-se de uma cidade organizada e limpa. Andando por suas ruas, é fácil se surpreender com a eficiência de sua estrutura urbana, incluindo o fato de ter ruas extremamente seguras, ainda que a separação entre veículos e pedestres não seja totalmente delimitada. Outro aspecto que merece destaque é a eficiência do serviço de transporte público, considerado um dos melhores do mundo (raramente apresenta atrasos!).

Uma das características que explica em parte esse sucesso é a integração dos espaços, seja do ponto de vista da infraestrutura urbana, seja do ponto de vista da finalidade das diferentes regiões. Enquanto grandes cidades atualmente, como o Rio de Janeiro, buscam “(re)popular” as regiões centrais, sem “gentrificá-las”, tendo a conversão de escritórios em apartamentos como uma das possíveis medidas, a exemplo do que vem sendo feito nos Estados Unidos, Tóquio já tem essa dinâmica naturalmente. O uso de tecnologia para otimização dos espaços também não pode ser desconsiderado nessa conta!

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2. Delhi, na Índia: a maior em densidade demográfica 

Delhi, com sua impressionante população de mais de 29 milhões de habitantes, é a atual capital do Governo indiano e classifica-se como a segunda cidade mais populosa do mundo, totalizando 29.259,12 por cada milha quadrada.

Apesar do rápido crescimento urbano, Delhi ainda mantém uma área considerável de vegetação, com um ecossistema florestal localizado no coração de sua área urbana, além de estar situada às margens do rio Yamuna, proporcionando um ecossistema fluvial. Mas nem mesmo isso impediu a cidade de virar notícia mundial em 2021 pelo ar poluído em níveis dez vez acima do máximo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Desde então, o governo de Delhi tem tomado medidas para reverter a situação, tais como: criar rodízio para circulação de carros na cidade, aumentar e renovar os transportes públicos com opções verdes, proibir a incineração de resíduos agrícolas e orientar os agricultores sobre as consequências das queimadas.

Em fevereiro de 2023, a Cúpula Mundial de Desenvolvimento Sustentável foi realizada em Delhi, sob a organização do The Energy and Resources Institute (TERI). A escolha da cidade como sede do evento foi significativa, considerando que a Índia assumiu a presidência do G20 e Delhi é reconhecida por seu compromisso com a temática da sustentabilidade, já que se tornou um bom exemplo para estudos de urbanização sustentável. 

Um case que chamou a atenção do mundo, no entanto, foi o de tornar a cidade mais segura para as mulheres, com mobilização integrada entre sociedade civil, entidades sociais e o governo. Em 2006 foi realizada a primeira pesquisa sobre o tema, seguida da Campanha “Delhi segura para Mulheres”, uma parceria do governo indiano com a ONU Habitat e ONU Mulheres, mas foi após um estupro coletivo que resultou na morte de uma mulher, que mudanças mais significativas, inclusive, na legislação foram implementadas.

3. Xangai (ou Shanghai), na China: a Pérola do Oriente

No país mais populoso do mundo, Xangai ocupa a terceira posição na lista das cidades mais populosas, abrigando mais de 26. milhões de pessoas. Com uma população tão expressiva, a cidade enfrenta desafios significativos relacionados às emissões de carbono. Para se alinhar às metas estabelecidas pelo governo chinês em 2022, Xangai vem se empenhando em reduzir as emissões até 2030 e alcançar a neutralidade de carbono até 2060.

Uma das prioridades da cidade é aumentar a participação de fontes renováveis em seu mix energético para 8% até 2025, em comparação com os 1,6% registrados em 2019. A expectativa é que essa transição para fontes de energia mais limpas desempenhe um papel importante na promoção da sustentabilidade e na mitigação dos impactos das mudanças climáticas.

4. Região metropolitana de São Paulo: a maior do continente americano

São Paulo, a cidade mais populosa do Brasil e do continente americano, destaca-se como uma das maiores do mundo, com uma população estimada em 12,4 milhões apenas na capital e mais de 21 milhões na Região Metropolitana.

O tamanho de São Paulo é equivalente às suas notáveis conquistas, tornando-se a capital mais sustentável do Brasil, de acordo com o Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades (IDSC). Entre suas realizações, destaca-se o acesso quase universal à água, atendendo a 99,3% da população. Além disso, São Paulo registra uma taxa de coleta seletiva de resíduos de 79%, demonstrando o compromisso da cidade com a gestão eficiente dos resíduos e o envolvimento da população nesse processo.

Para continuar impulsionando melhorias contínuas, em 2023 São Paulo uniu-se ao movimento global Cidades+B, que promove a colaboração entre governos e cidadãos para aprimorar os indicadores de sustentabilidade. A cidade está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, especificamente ao ODS 11, que busca tornar as cidades mais inclusivas, seguras, resilientes e sustentáveis.

5. Cidade do México: a gigante da América Latina

Com uma população de mais de 21 milhões de habitantes, a Cidade do México é mais uma capital a figurar entre as maiores cidades do mundo. Ao longo da última década, a cidade estabeleceu metas ambiciosas para superar os desafios do caos urbano e tem investido em políticas de mobilidade sustentável. Esses esforços rendeu progressos significativos, como a restrição do uso de carros particulares por meio do Programa “Hoy no Circula”, a expansão das linhas do metrô e a implementação do sistema BRT.

A adoção do sistema BRT, em colaboração com a Embarq México e o governo, resultou na criação de um corredor de trânsito rápido que atravessa a cidade, reduzindo as emissões, melhorando a mobilidade e diminuindo o tempo das viagens. Em julho de 2014, foi promulgada uma nova lei de mobilidade, representando uma oportunidade para aprimorar a qualidade de vida e expandir as oportunidades para a população.

Essa nova lei, centrada no bem-estar humano, coloca a Cidade do México no caminho para se tornar líder em políticas de mobilidade urbana. Com seu enfoque nas necessidades dos moradores da cidade, a capital mexicana está cada vez mais próxima de se tornar uma referência em soluções de mobilidade eficientes e sustentáveis.

6. Cairo, no Egito: a liderança do Mundo Árabe

Cairo é uma das cidades mais emblemáticas e historicamente relevantes do mundo quando se trata de população. Como a maior cidade da África e do Mundo Árabe, possui mais de 20 milhões de habitantes.

Localizada às margens do rio Nilo, Cairo é famosa por abrigar a Pirâmide de Gizé, uma das sete maravilhas do mundo moderno, sendo também reconhecida por suas construções lendárias que combinam elementos modernos e tecnológicos com o estilo clássico egípcio. Além de seu patrimônio histórico, a cidade está se destacando cada vez mais como um centro de desenvolvimento sustentável. Esse compromisso ficou evidente quando o Egito assumiu a liderança como anfitrião da COP27, em 2022, reafirmando seu engajamento com o tema.

O governo do Egito reconhece a importância da sustentabilidade como chave para impulsionar o país em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Um exemplo é a Estratégia de Desenvolvimento Sustentável Egypt Vision 2030, publicada em 2016, que estabelece uma meta de redução de 10% nas emissões de gases de efeito estufa até 2030. Um dos pilares fundamentais do plano é o setor de energia, com foco na promoção do uso eficiente de recursos renováveis.

Cairo também está comprometida em fortalecer sua posição como uma cidade saudável e sustentável. Para isso, integrou-se ao programa de sustentabilidade urbana BERD Green Cities, visando alcançar maior eficiência energética e promover práticas sustentáveis em toda a cidade.

7. Dhaka, a grande capital de Bangladesh

Reprodução: Pinterest

A cidade de Dhaka, situada na Ásia e capital do país Bangladesh, abriga uma população estimada em mais de 20,2 milhões de indivíduos. Posicionando-se em sétimo lugar no ranking das cidades mais populosas do mundo, caracteriza-se por suas deslumbrantes paisagens verdes e pelos extensos corpos d’água presentes em seu território.

Apesar de sua grandiosidade, Dhaka enfrenta grandes desafios devido à urbanização não planejada. Há, por exemplo, congestionamento de tráfego intenso, que continua a piorar. Essa situação caótica ocorre principalmente devido à falta de infraestrutura viária adequada, configuração deficiente da rede de transporte e gestão ineficiente do tráfego. O sistema de transporte público existente, especialmente as operações de ônibus, está muito aquém das necessidades de mobilidade da população em termos de confiabilidade, conforto, velocidade e segurança. 

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Para enfrentar os desafios decorrentes da rápida urbanização, as autoridades de desenvolvimento da cidade estão finalizando os planos para melhorias habitacionais, gestão de parques e corpos d’água, bem como medidas para combater congestionamentos e alagamentos, como informou o Dhaka Tribune. Com o objetivo de promover um desenvolvimento sustentável e garantir uma qualidade de vida melhor para os residentes de Dhaka, o plano será implementado em quatro etapas ao longo de 20 anos.

8. Mumbai, a sede financeira da Índia

A capital financeira da Índia ocupa a oitava posição no ranking das cidades mais populosas do mundo, com uma população de mais de 20 milhões de habitantes. O acelerado crescimento da cidade nas últimas décadas resultou em um aumento significativo de favelas, um problema comum em outras grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, além de exacerbadas emissões de carbono.

Apesar dessas questões, Mumbai pretende seguir o compromisso que o governo indiano assumiu de cumprir as 17 metas dos ODS definidas pela ONU. Por isso, criou o Plano de Ação Climática de Mumbai (NCAP), uma medida estratégica de 30 anos que define metas climáticas de curto, médio e longo prazos para a cidade, com o objetivo de mitigar os impactos das mudanças climáticas e garantir um futuro sustentável.

O sucesso do MCAP é de extrema importância, pois não apenas representa um passo aguardado há muito tempo na direção correta para a cidade, mas também serve como um modelo inspirador para outras cidades em situações semelhantes às de Mumbai. 

9. Pequim, a capital da China

A segunda maior cidade da China é a capital do país, Pequim, com cerca de 20 milhões de habitantes. O crescimento populacional, especialmente entre 2000 e 2010, foi notável, com um aumento estimado em 44%. Desde a década de 1960, o crescimento médio da população é de 20% por década. Se o ritmo atual de aumento populacional de Pequim continuar, espera-se que o número de habitantes ultrapasse 50 milhões em 2050, um número superior à população de toda a Espanha em 2020.

Para se preparar, de acordo com o Mercator Institute For China Studies, Pequim está estrategicamente comprometida com seu futuro sustentável, buscando impulsionar os avanços tecnológicos financiados e orientados pelo estado. Essa abordagem visa promover uma transformação verde, além de estabelecer liderança tecnológica global em diversos setores, desde energias renováveis, habitação de qualidade e até equipamentos de proteção ambiental. Ao investir nesses esforços, a cidade pretende se tornar um exemplo de sucesso em termos de sustentabilidade e contribuir para a inovação e soluções ambientais em escala global.

10. Osaka, no Japão: segundo centro financeiro do país

Completando a lista das 10 cidades mais populosas do mundo, encontra-se uma importante metrópole japonesa: Osaka. Embora tenha registrado uma queda de 0,27% em seu número de habitantes, a cidade ainda é o lar de mais de 19 milhões de pessoas.

Essa popularidade é resultado de diversos fatores, incluindo a economia. Osaka é o segundo centro financeiro mais importante do Japão, o que atrai muitas empresas e negócios para a região. Além disso, a cidade de Osaka, por meio do governo local, está comprometida em transformar-se em uma cidade ambientalmente avançada, contribuindo para a realização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). 

Os esforços de Osaka para reduzir as emissões de gases de efeito estufa estão sendo impulsionados pelo “Plano de Ação para o Aquecimento Global da cidade de Osaka”, que estabelece a meta de reduzir as emissões em 30% na área da cidade até o ano de 2030, em comparação com os níveis de 2013. O objetivo final é alcançar uma sociedade descarbonizada, conhecida como “Zero Carbon Osaka”, até 2050.

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A cidade está implementando medidas em todas as esferas governamentais, trabalhando em conjunto com os cidadãos e empresas locais. Isso inclui a promoção do uso de energia renovável, a redução do consumo de energia e a adoção generalizada de veículos de última geração.

Mas e as cidades europeias e da Oceania?

Existem diversas cidades ao redor do mundo que, apesar de não figurarem entre as mais populosas, são altamente procuradas por seu desenvolvimento. Entre as cidades europeias mais populosas, destaca-se Istambul, com mais de 14,5 milhões de habitantes, seguida por Moscou, com mais de 12 milhões, e Paris, com 11 milhões. 

Além dessas cidades, existem muitas outras que, embora tenham populações menores, são reconhecidas pela qualidade de vida que oferecem aos seus habitantes, como Barcelona, Sydney, Califórnia, Londres, Berlim e Vancouver, todas com menos de cinco milhões de habitantes.

Há um grande número de cidades populares e culturalmente avançadas que possuem populações menores, mas que oferecem um alto padrão de vida aos seus residentes, devido ao seu planejamento e gestão urbana, como Barcelona, Sydney, Londres e Berlim, todas com menos de cinco milhões de habitantes.

No entanto, existem algumas cidades comparativamente muito pequenas com grande reputação cultural, histórica ou política, como Sarajevo (314.000), Edimburgo (502.000) e Veneza (631.000), que demonstram que cidades pequenas também podem ser altamente significativas para o desenvolvimento sustentável. No final, tamanho parece realmente não ser documento.

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