Appleby Blue, em Londres, e a arquitetura que recusa empurrar os idosos para as bordas da cidade

Projeto vencedor do Stirling Prize reinterpreta a tradição britânica das almshouses para mostrar que envelhecer na cidade não precisa significar isolamento.

Por Marcia Tojal em 7 de abril de 2026 4 minutos de leitura

Arquitetura moderna no Appleby Blue em Londres, destacando o design que evita afastar a velhice do centro da cidade, com fachada de tijolos escuros e janelas amplas.
Foto: Matt Brown/ Wikimedia Commons/ CC BY 4.0

Em muitas cidades, envelhecer significa sair do bairro onde se viveu por décadas. Casas grandes se tornam impraticáveis, e as alternativas frequentemente levam idosos para instituições isoladas ou conjuntos habitacionais afastados da vida urbana.

Em Londres, o edifício Appleby Blue Almshouse, localizado em Bermondsey, propõe outra lógica. Em vez de afastar os idosos da cidade, o projeto busca manter seus moradores no coração do bairro — próximos de vizinhos, comércio, serviços e da vida cotidiana.

Concluído em 2023 e projetado pelo escritório Witherford Watson Mann Architects, o conjunto oferece moradia para pessoas com mais de 65 anos que têm vínculos com o distrito de Southwark. O empreendimento foi desenvolvido pela instituição beneficente United St Saviour’s Charity, organização que atua na oferta de habitação acessível no sul de Londres.

De acordo com publicação da United St. Saviours Charity Southwork, o projeto reúne 57 apartamentos organizados em torno de um jardim central e de espaços compartilhados pensados para estimular encontros entre os moradores e reduzir o isolamento social — um problema crescente nas sociedades que envelhecem.

Uma tradição antiga reinterpretada

	
Homem idoso sentado no sofá assistindo TV com controle remoto na mão, ao fundo uma estante de livros em um ambiente de sala de estar.
Foto: Halfpoint/ Shutterstock

O termo almshouse pode soar estranho para leitores brasileiros, mas faz parte de uma tradição histórica britânica. Desde a Idade Média, instituições beneficentes mantêm pequenas comunidades residenciais destinadas a pessoas em situação de vulnerabilidade, especialmente idosos.

Segundo o site da Almshouses, hoje existem mais de 1.600 almshouses no Reino Unido, oferecendo cerca de 36 mil moradias comunitárias administradas por organizações beneficentes independentes.

O Appleby Blue reinterpretou essa tradição com linguagem arquitetônica contemporânea. Em vez de reproduzir modelos históricos, o projeto organiza as habitações em volumes que criam galerias, passarelas e espaços de encontros voltados para um jardim central.

Essa configuração cria uma espécie de pequena vizinhança vertical, onde os moradores mantêm autonomia em seus apartamentos, mas encontram oportunidades naturais de convivência no cotidiano.

Arquitetura contra o isolamento

A lógica espacial do Appleby Blue responde a um problema social concreto: o aumento da solidão entre pessoas idosas nas cidades. A Organização Mundial da Saúde reconhece que isolamento social e solidão estão associados a impactos importantes nas saúdes física e mental de idosos, incluindo maior risco de depressão, declínio cognitivo e mortalidade prematura. 

Ao criar circulações abertas, jardins compartilhados e áreas comunitárias, o projeto tenta transformar a arquitetura em ferramenta de sociabilidade.

O reconhecimento veio também da crítica arquitetônica. Em 2025, o Appleby Blue recebeu o RIBA Stirling Prize, principal prêmio de arquitetura do Reino Unido, concedido pelo Royal Institute of British Architects.

Um movimento global: redesenhando a moradia para envelhecer

O Appleby Blue faz parte de um debate mais amplo sobre como as cidades devem se adaptar ao envelhecimento da população. Na Holanda, o De Hogeweyk, em Weesp, ficou conhecido por reorganizar o cuidado a pessoas com demência a partir da lógica de um pequeno bairro, com ruas, casas e espaços públicos que simulam a vida cotidiana fora de instituições tradicionais.

Na França, o Village Landais Alzheimer, inaugurado em 2020 em Dax, também adota o modelo de uma pequena comunidade aberta, com praças, comércios e espaços de convivência para pessoas com Alzheimer.

Embora esses projetos tenham foco clínico específico, todos compartilham uma mudança de paradigma: substituir a arquitetura institucional por ambientes que se aproximam da escala da vida cotidiana.

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O que existe de semelhante no Brasil?

Casal de idosos sorrindo e desfrutando de uma refeição juntos em um ambiente acolhedor, refletindo momentos de felicidade e convivência na terceira idade.
Foto: Halfpoint/ Shutterstock

No Brasil, iniciativas com essa abordagem ainda são raras, mas alguns projetos dialogam com a ideia de moradia comunitária para idosos. Um dos exemplos mais conhecidos é a Vila dos Idosos, em São Paulo, projetada pelo arquiteto Héctor Vigliecca. O conjunto foi desenvolvido dentro de políticas habitacionais do município e reúne unidades residenciais organizadas em torno de espaços de convivência, com foco na autonomia da população idosa. Outro caso é o programa Cidade Madura, criado pelo Governo da Paraíba, que oferece moradia adaptada para idosos com equipamentos comunitários voltados à convivência e ao lazer. 

Embora esses exemplos operem em contextos institucionais diferentes do modelo britânico de almshouses, eles apontam para um mesmo desafio: repensar a moradia na velhice como parte da vida urbana, e não como uma etapa apartada da cidade.

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Uma pergunta que as cidades precisarão responder

À medida que a população envelhece, o debate sobre moradia para idosos deixa de ser apenas um tema de assistência social e passa a integrar o planejamento urbano. O Appleby Blue mostra que essa discussão também é arquitetônica. O desenho dos edifícios, a presença de espaços coletivos e a permanência das pessoas em seus bairros de origem podem influenciar diretamente a qualidade de vida na senioridade.

Mais do que um projeto isolado em Londres, o conjunto funciona como um lembrete: cidades que querem envelhecer bem precisam pensar não apenas em quantas moradias serão necessárias, mas em como essas moradias podem sustentar vínculos, autonomia e pertencimento urbano.

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