Economia circular: uma política para desenvolver territórios

À frente do Fórum Nordeste de Economia Circular, Lídice Berman discute o papel transversal e multinível da circularidade como catalisador de desenvolvimento justo.

Por Nathalia Ribeiro em 23 de março de 2026 9 minutos de leitura

Lídice Berman sentada em um banco de madeira, apoiada em um travesseiro vermelho
Lídice Berman (Foto: Rlarroyd Fotografia)

Em um momento em que a crise climática deixou de ser um alerta distante para se tornar parte do cotidiano das cidades, cresce também a percepção de que a transição ecológica não pode ser pensada apenas como uma pauta ambiental. Ela envolve territórios, oportunidades econômicas, infraestrutura urbana e, sobretudo, justiça social. Para Lídice Berman, presidente do Movimento Reinventando Futuros e organizadora do Fórum Nordeste de Economia Circular (FNEC), essa transformação só fará sentido se for capaz de reorganizar a forma como os territórios produzem valor e, principalmente, quem participa dessa nova economia.

Há anos dedicada a construir pontes entre inovação social, políticas públicas e desenvolvimento territorial, Lídice tem defendido que a economia circular precisa ir além do discurso ambiental. Em sua visão, reduzir resíduos e fechar ciclos de materiais é apenas parte da equação: o verdadeiro desafio está em transformar a circularidade em uma estratégia de desenvolvimento local, capaz de gerar trabalho, fortalecer cadeias produtivas regionais e reconhecer práticas que já existem nas periferias urbanas e em comunidades tradicionais.

É com esse olhar que ela articula a terceira edição do FNEC, que será realizado em Fortaleza/CE entre os dias 25 e 27 de março. O encontro reúne gestores públicos, empreendedores, pesquisadores e organizações da sociedade civil para discutir como a transição ecológica pode se traduzir em políticas concretas para cidades e territórios, especialmente em uma região que já carrega, em muitos de seus modos de produção e convivência, práticas históricas de circularidade.

Nesta entrevista, Lídice reflete sobre o papel das cidades na agenda da economia circular, os riscos de a chamada economia verde reproduzir desigualdades antigas e os caminhos possíveis para construir uma transição ecológica que, além de ambientalmente necessária, seja também socialmente justa.

Do ponto de vista das cidades e dos territórios, o que mudou no debate sobre economia circular nos últimos anos e por que esse tema passou a ser visto também como uma estratégia de desenvolvimento urbano e regional?

Imagem que ilustra conceitos de economia circular, com blocos de madeira representando sustentabilidade, reciclagem, reutilização e inovação, inseridos em um contexto de preservação ambiental.
Foto: Sutthiphong Chandaeng/ Shutterstock

Lídice Berman: Nos últimos anos, assistimos a uma mudança qualitativa e não apenas quantitativa nesse debate. A economia circular deixou de ser tratada como uma questão exclusivamente ambiental — reduzir resíduos, fechar ciclos de materiais — e passou a ser reconhecida como um vetor de desenvolvimento territorial. As cidades perceberam que o modelo linear de produção e consumo não apenas degrada o ambiente, mas também empobrece os territórios: drena recursos locais, elimina empregos e concentra valor fora das comunidades.

O que mudou concretamente é que prefeitos, secretários municipais e gestores regionais começaram a enxergar a circularidade como uma alavanca econômica real, não uma concessão à pauta verde, mas uma estratégia de competitividade territorial. Cidades que investem em cadeias circulares criam empregos locais, retêm valor no próprio território e reduzem sua dependência de insumos externos. Isso é especialmente relevante para o Nordeste, onde a bioeconomia, a cultura material e os saberes comunitários já carregam uma lógica circular histórica que precisa ser formalizada, financiada e escalada.

O FNEC nasceu exatamente para criar esse espaço de convergência: onde política pública, empreendedorismo, inovação social e gestão territorial possam dialogar com uma agenda comum. Chegar à terceira edição com a transição ecológica na agenda federal é uma oportunidade que não podemos desperdiçar.

Você costuma apontar que a transição ecológica exige compromisso social, e não apenas discurso verde. O que diferencia uma agenda de sustentabilidade que realmente transforma os territórios de uma que apenas reforça narrativas ambientais sem alterar a realidade urbana?

Lídice Berman: A diferença está em quem protagoniza, quem financia e quem se beneficia. Uma agenda de sustentabilidade real começa pelo reconhecimento das desigualdades existentes, não as ignora ou as trata como externalidades a serem mitigadas depois. Quando uma cidade investe em infraestrutura verde nos bairros de alta renda e negligencia o saneamento nas periferias, ela está produzindo sustentabilidade para poucos. Isso é greenwashing territorial.

Uma transição ecológica que não redistribui oportunidades, que não inclui os trabalhadores da reciclagem, as comunidades quilombolas que já praticam bioeconomia, os agricultores familiares da agroecologia, essa transição apenas repinta as velhas hierarquias com tinta verde. Lídice Berman

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A transformação real exige que os investimentos em transição ecológica cheguem primeiro ou simultaneamente aos territórios mais vulneráveis. Significa tratar a limpeza urbana, o acesso à coleta seletiva, a recuperação de áreas degradadas e o acesso à economia circular como direitos. Significa também que os empregos verdes gerados pela transição precisam ser acessíveis a populações que historicamente foram excluídas do mercado formal. O compromisso social não é um adendo à agenda de sustentabilidade. Ele é a condição para que essa agenda seja legítima. Uma transição ecológica que não redistribui oportunidades, que não inclui os trabalhadores da reciclagem, as comunidades quilombolas que já praticam bioeconomia, os agricultores familiares da agroecologia, essa transição apenas repinta as velhas hierarquias com tinta verde.

Grandes transformações econômicas do passado, como a revolução industrial e a digital, produziram inovação, mas também ampliaram desigualdades entre regiões e dentro das próprias cidades. Como evitar que a transição ecológica gere novos ciclos de exclusão urbana e concentração de oportunidades?

Lídice Berman: Esse é um dos riscos mais sérios que precisamos nomear com clareza. A revolução digital prometeu democratização e entregou concentração: hoje cinco empresas controlam boa parte da infraestrutura digital global. A transição ecológica tem o mesmo potencial de ser capturada por grandes corporações, reproduzindo uma lógica de centralização do capital e periferização dos territórios e dos trabalhadores.

No Brasil, os sinais já existem: grandes projetos de energia renovável instalados no Nordeste que geram energia exportada para o Sudeste, com pouquíssima geração de emprego e renda locais. Certificações e mercados de carbono que favorecem quem já tem acesso a crédito e consultoria especializada. Tecnologias de reciclagem avançada que substituem trabalhadores em vez de incluí-los. Isso não é transição justa, é o velho extrativismo com nova roupagem.

Como evitar esse caminho?

Lídice Berman, usando óculos, com um microfone na mão, pronta para falar
Lídice Berman (Foto: Pedro Souza)

Lídice Berman: Precisamos de pelo menos três movimentos simultâneos: políticas públicas que exijam contrapartidas territoriais dos investimentos verdes, geração de emprego local, transferência de tecnologia, encadeamento com fornecedores regionais; mecanismos de financiamento acessíveis a pequenos empreendedores, cooperativas e iniciativas comunitárias; e reconhecimentos legal e econômico de quem já pratica circularidade, como as comunidades tradicionais, os catadores, os agricultores familiares. Sem isso, a economia verde será mais um ciclo de inovação que deixa os territórios periféricos para trás.

Você destaca com frequência que a circularidade precisa reconhecer quem já pratica esse modelo. De que forma esses atores podem ser integrados às cadeias da economia circular nas cidades?

Lídice Berman: Os catadores de materiais recicláveis são, talvez, o exemplo mais eloquente de economia circular praticada na ponta e mais ignorado pelas políticas formais. No Brasil, respondem por uma fatia enorme da reciclagem real que acontece nas cidades, muitas vezes sem qualquer reconhecimento jurídico, proteção trabalhista ou acesso a crédito. Isso é uma contradição que a agenda de economia circular precisa resolver, não contornar.

A integração estruturante começa pelo reconhecimento: as cooperativas e associações de catadores precisam ser incorporadas formalmente nos planos municipais de resíduos sólidos, com contratos de prestação de serviço, metas claras e remuneração justa. Isso já existe em algumas cidades brasileiras e comprova que é viável. O segundo passo é investimento em infraestrutura, ou seja, galpões adequados, equipamentos, logística reversa que conecte grandes geradores aos coletores organizados.

Para os pequenos empreendedores periféricos que trabalham com reparação, reuso, moda circular, gastronomia de aproveitamento e outras práticas circulares informais, o caminho é a formalização acompanhada de suporte, não a formalização como barreira. Programas de microcrédito verde, capacitação em gestão, acesso a mercados institucionais via compras públicas e conexão com cadeias de fornecimento maiores são instrumentos concretos que as prefeituras e governos estaduais podem acionar.

Iniciativas como a Estratégia Nacional de Economia de Impacto (Enimpacto) indicam um movimento de institucionalização desse debate no País. Como essas políticas nacionais podem se traduzir em ações, especialmente nas cidades que enfrentam desafios de infraestrutura e resíduos?

Lídice Berman:  A Enimpacto representa um avanço importante porque sinaliza que o Estado brasileiro está reconhecendo a economia de impacto como uma estratégia legítima de desenvolvimento e não apenas como filantropia ou responsabilidade social empresarial. Mas o desafio clássico das políticas nacionais no Brasil é a tradução federativa: como uma estratégia formulada em Brasília chega com efetividade a um município de 50 mil habitantes no sertão nordestino que não tem equipe técnica, não tem acesso fácil a crédito e está atolado em passivos de resíduos sólidos?

A integração entre os diferentes níveis do governo é um caminho?

Lídice Berman: A resposta exige uma arquitetura de implementação em múltiplas camadas. No nível federal, é fundamental que as linhas de financiamento vinculadas à Enimpacto e à agenda de economia circular sejam simplificadas, com editais acessíveis a municípios pequenos e organizações de base. No nível estadual, os governos precisam funcionar como articuladores, identificando territórios com potencial, capacitando equipes municipais e criando consórcios intermunicipais para projetos que não fazem sentido em escala municipal isolada.

E no nível municipal, a chave é a integração entre os planos de resíduos sólidos, os planos diretores e as estratégias de desenvolvimento econômico local. Cidade que trata o lixo apenas como problema de saúde pública perde a oportunidade de transformá-lo em cadeia produtiva. O FNEC tem funcionado como um espaço para construir essas pontes, conectar a política nacional com as experiências locais que já estão acontecendo, muitas vezes sem o reconhecimento que merecem.

O Nordeste tem sido palco de diversas experiências ligadas à economia solidária, à inovação social e à gestão comunitária de recursos. Que exemplos ou aprendizados da região ajudam a mostrar como a economia circular pode gerar desenvolvimento local?

Lídice Berman: O Nordeste tem um patrimônio de experiências que o resto do Brasil precisa conhecer melhor. A região historicamente desenvolveu soluções de circularidade por necessidade, a convivência com a seca produziu tecnologias sociais de reuso de água, armazenamento e aproveitamento integral dos recursos disponíveis. Essa inteligência territorial precisa ser reconhecida como inovação, não como atraso.

Temos exemplos concretos e robustos: as redes de catadores organizadas em diversas capitais nordestinas, especialmente em Fortaleza e Recife, que já demonstraram que cooperativas bem estruturadas podem ser agentes econômicos viáveis e escaláveis. As experiências de confecção circular na região do Agreste pernambucano, onde o reaproveitamento de retalhos têxteis transformou o que seria resíduo em matéria-prima de novas cadeias produtivas. As iniciativas de bioeconomia da Caatinga, que aliam extrativismo sustentável, valorização de plantas nativas e geração de renda para comunidades rurais.

O que o Nordeste demonstra é que a economia circular não é um conceito importado da Europa que precisa ser adaptado para a realidade brasileira. Ela já está aqui, praticada por comunidades que nunca tiveram o luxo do desperdício linear. Lídice Berman

O aprendizado comum a todos esses casos é que circularidade funciona quando há organização coletiva, acesso a mercados e algum nível de suporte institucional, não precisa ser muito, mas precisa existir. O que o Nordeste demonstra é que a economia circular não é um conceito importado da Europa que precisa ser adaptado para a realidade brasileira. Ela já está aqui, praticada por comunidades que nunca tiveram o luxo do desperdício linear. O que falta é a formalização, o reconhecimento e o investimento para escalar o que já funciona.

Muitas das soluções ligadas à circularidade acontecem em escala territorial. Qual é o papel dos governos municipais nesse processo e que tipo de articulação seria necessária para acelerar essa agenda?

Lídice Berman: Os municípios são o ponto de contato entre a política e o cotidiano das pessoas. É na cidade que o resíduo é gerado, coletado ou não coletado, reciclado ou aterrado. É no território municipal que a cadeia produtiva local se organiza ou se fragmenta. Por isso, os governos municipais têm um papel insubstituível, mas também enfrentam limitações reais de capacidade técnica e financeira que precisam ser reconhecidas honestamente.

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O papel dos municípios na economia circular é principalmente regulatório e indutor: criar ou aprimorar os planos municipais de resíduos sólidos, estabelecer metas de coleta seletiva e compostagem, utilizar o poder de compra público para priorizar fornecedores locais e produtos com critérios de circularidade, e zonear o território de forma a viabilizar infraestruturas de logística reversa. Mas para fazer tudo isso, os municípios precisam de apoio técnico e financeiro que vem dos estados e da União.

A articulação federativa ideal teria três engrenagens funcionando juntas: a União definindo marcos regulatórios, criando linhas de financiamento acessíveis e coordenando a política nacional de resíduos com seriedade; os estados atuando como articuladores regionais, apoiando consórcios intermunicipais, capacitando equipes e criando fundos estaduais de transição ecológica; e os municípios implementando, monitorando e conectando as políticas com os atores locais, isto é, catadores, empreendedores, comunidades. Essa tríade ainda é muito frágil no Brasil, mas os avanços recentes na agenda federal criam uma janela de oportunidade que precisamos aproveitar agora.

Pensando no futuro das cidades brasileiras, que sinais indicariam que estamos avançando para uma transição ecológica justa? Quais mudanças seriam necessárias para que a circularidade se torne parte real do desenvolvimento das cidades?

Lídice Berman: Os sinais que eu gostaria de ver são muito concretos e verificáveis. Primeiramente, que a coleta seletiva deixe de ser um privilégio de bairros de classe média e chegue com a mesma qualidade às periferias. Isso seria um indicador inequívoco de transição justa. Segundo, que os catadores organizados em cooperativas tenham contratos formais com as prefeituras, com remuneração que supere o salário mínimo. Terceiro, que os planos diretores municipais comecem a incorporar metas de circularidade ao lado das metas de mobilidade e habitação, não como apêndice, mas como eixo estruturante.

No campo das cadeias produtivas, o sinal mais importante seria o crescimento de pequenas e médias empresas de reparo, remanufatura e reuso formalizadas e com acesso a crédito, porque isso indica que a circularidade está gerando economia real e não apenas discurso. E no campo da gestão urbana, o sinal seria a criação de secretarias ou departamentos específicos que integrem resíduos, economia circular e desenvolvimento local em uma agenda única, não mais silos separados de meio ambiente, desenvolvimento econômico e assistência social.

A mudança estrutural mais profunda, porém, é cultural e política: quando as cidades brasileiras — suas lideranças, suas comunidades e seus mercados — passarem a enxergar o resíduo como recurso, o trabalhador da reciclagem como agente econômico estratégico e a circularidade como parte do DNA do desenvolvimento urbano, e não como uma concessão à pressão ambiental. Estamos construindo esse caminho. O Fórum Nordeste de Economia Circular existe para acelerar essa construção, com os pés no chão e os olhos no horizonte.

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