Mônaco se lança ao mar: nasce Mareterra, o bairro sobre ondas

Um bairro inteiro nasce sobre o Mediterrâneo, unindo engenharia de ponta, design e debate sobre função social.

Por Nathalia Ribeiro em 10 de março de 2026 6 minutos de leitura

Grande edifício do Mareterra, o bairro sobre ondas
Foto: Antoine Contenseau/ Unsplash

Onde hoje há um calçadão à beira do Mediterrâneo, jardins recém-plantados e fachadas assinadas pelo arquiteto Renzo Piano, há poucos anos existia apenas mar aberto. Inaugurado em 2024, Mareterra acrescentou cerca de seis hectares ao território de Mônaco, resultado de um investimento de aproximadamente € 2 bilhões (cerca de R$ 12,8 bilhões na conversão atual) e de uma engenharia que assentou 18 estruturas de concreto no fundo do oceano para criar um novo bairro onde antes as ondas quebravam.

O projeto foi apresentado como o distrito mais sustentável do principado, já que reúne painéis solares, mobilidade elétrica, áreas verdes e um sistema de câmaras projetado para dissipar a energia do mar e aumentar a resiliência costeira. Em um dos países mais densamente povoados do mundo, expandir território não é apenas ambição imobiliária, é estratégia urbana consolidada há mais de um século.

Mas Mareterra surge em um momento em que muitas cidades costeiras discutem justamente como se proteger da elevação do nível do mar. Ao optar por avançar sobre a água com tecnologia e planejamento de longo prazo, Mônaco reacende uma questão que ultrapassa suas fronteiras: o que significa construir sobre o mar no século 21 e que lições essa escolha oferece a cidades como as brasileiras, que também redesenham suas orlas?

O mar como espaço urbano

Vista elevada de Le Portier, também conhecido como Portier Cove ou Mareterra, uma área residencial construída inteiramente em terras recuperadas
Foto: Simona Sirio/ Shutterstock

Ao contrário de outras expansões costeiras recentes marcadas por ilhas artificiais, Mareterra foi desenhado para parecer uma continuação natural da orla já existente. O novo distrito ocupa cerca de seis hectares conquistados ao Mediterrâneo e foi estruturado sobre 18 grandes “caixotes” de concreto, cada um com aproximadamente 10 mil toneladas e 26 metros de altura, posicionados lado a lado no fundo do mar. Essas estruturas funcionam como base física do bairro e, ao mesmo tempo, como sistema de proteção costeira. As chamadas câmaras Jarlan permitem a entrada controlada da água por aberturas verticais, dissipando a energia das ondas antes que atinjam a borda urbana.

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Sobre essa plataforma foi implantado um conjunto predominantemente residencial de alto padrão, com dois edifícios de apartamentos — incluindo o Le Renzo, projeto de Renzo Piano —, vilas, uma pequena marina, áreas comerciais e aproximadamente três hectares de espaços públicos. 

Vista para a área residencial de Mareterra
Foto: Andrii Ivaniuk/ Shutterstock

Um passeio contínuo de 800 metros contorna o perímetro marítimo, conectando o bairro ao restante de Mônaco e reforçando a ideia de integração, não de enclave isolado. A paisagem combina vegetação mediterrânea, materiais minerais em tons suaves e vistas abertas para o mar, compondo uma estética que busca suavizar a monumentalidade da engenharia que sustenta o território.

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A preocupação ambiental no projeto de Mareterra

Pessoas em um café no novo bairro Mareterra construído no mar.
Foto: Ralph Rozema/ Shutterstock

Os aspectos ambientais são centrais no projeto. Mareterra incorpora cerca de 9 mil metros quadrados de painéis solares, estações de recarga para veículos elétricos e estratégias de eficiência energética. Durante as obras, uma das etapas mais sensíveis envolveu o transplante de áreas de Posidonia oceanica – planta marinha endêmica do Mediterrâneo e protegida pela legislação europeia por seu papel essencial no ecossistema costeiro, já que ela atua como berçário para espécies marinhas, estabiliza o fundo arenoso, reduz a erosão e captura grandes quantidades de carbono. 

No caso de Mareterra, parte dessa vegetação foi removida com o sedimento original e replantada em área próxima, em uma operação acompanhada por especialistas para preservar não apenas a planta, mas o microecossistema associado a ela.

As próprias estruturas submersas receberam texturas e relevos pensados para estimular a colonização de fauna e flora marinhas, em uma tentativa de transformar a base artificial em suporte ecológico. Em um contexto global de mudanças climáticas e elevação do nível do mar, o bairro foi concebido também como infraestrutura de adaptação, capaz de resistir a tempestades e eventos extremos.

Essa combinação de expansão territorial, engenharia costeira avançada e narrativa sustentável insere Mareterra em um debate mais amplo sobre o futuro das cidades à beira-mar. Se, historicamente, o crescimento urbano significou avançar sobre manguezais, baías e restingas, hoje esse movimento ocorre sob novas exigências técnicas, ambientais e sociais. 

De aterro sanitário à atração

Mareterra em escala social

Foto: Mike Workman/ Shutterstock

Embora haja o discurso ambiental e da sofisticação técnica, Mareterra foi alvo de questionamentos ligados ao acesso e à função social do novo território. Com valores estimados em cerca de € 100 mil (cerca de R$ 645 mil por metro quadrado), o bairro rapidamente passou a figurar entre as áreas residenciais mais caras do mundo. Segundo reportagem da BBC, parte das críticas aponta que, embora inclua áreas públicas e equipamentos abertos, sua vocação principal é atender a um mercado imobiliário internacional de altíssimo padrão.

Em Mônaco, onde cidadãos monegascos têm direito a políticas específicas de habitação subsidiada em outros empreendimentos, o projeto não foi concebido como resposta direta à demanda social interna. Ainda assim, o debate expõe uma tensão recorrente em frentes marítimas globalizadas, quando novos territórios surgem, a quem eles servem prioritariamente, à ampliação da base econômica ou à diversificação do acesso urbano?

A questão que se impõe não é apenas se é possível construir sobre o mar, mas quais parâmetros definem quando e como essa construção se integra de fato à cidade, tema que ganha contornos particulares quando observado a partir das experiências brasileiras.

Quando o Brasil também avançou sobre a água

Vista para a área verde do aterro do Flamengo e para os edifícios da cidade.
Foto: Cavan-Images/ Shutterstock

A ideia de transformar o mar em cidade não é exclusiva de pequenos principados europeus. No Brasil, a relação entre aterro, paisagem e projeto urbano também moldou algumas das áreas mais emblemáticas do litoral. O caso mais conhecido é o Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Construído entre as décadas de 1950 e 1960 com material proveniente do desmonte do Morro de Santo Antônio, o parque redesenhou a borda da Baía de Guanabara e criou mais de um milhão de metros quadrados de área pública contínua, com projeto paisagístico de Burle Marx.

Diferentemente de Mareterra, cuja vocação principal é residencial de alto padrão, o Aterro consolidou-se como infraestrutura urbana democrática, uma vez que abriga museus, equipamentos culturais, vias expressas, ciclovias e extensas áreas verdes que se tornaram parte da rotina da cidade. Ao longo de décadas, o espaço provou que grandes intervenções costeiras podem gerar legado coletivo quando associadas a planejamento paisagístico consistente e uso público permanente.

Esse contraste ajuda a ampliar o olhar sobre Mareterra. Se ambos nasceram de uma mesma lógica, ampliar território diante de limites físicos, os desdobramentos urbanos dependem do programa adotado. No Brasil, a história do Aterro mostra que a engenharia é apenas a base, pois é a função social do novo solo que define como ele será incorporado à vida da cidade.

Intervenções recentes e os aprendizados da orla

Praia Central após a obra de alargamento da faixa de areia
Praia Central após a obra de alargamento da faixa de areia (Foto: Divulgação/ Prefeitura de Balneário Camboriú)

Se o Aterro do Flamengo representa um exemplo de integração entre expansão territorial e espaço público, intervenções mais recentes mostram como a equação costeira se tornou mais complexa. Em Balneário Camboriú/SC, o alargamento da faixa de areia concluído em 2021 ampliou a praia em dezenas de metros ao longo de cerca de 5,8 km, com investimento superior a R$ 60 milhões. A obra foi defendida como estratégia para enfrentar a erosão e preservar a atratividade turística, além de melhorar a infraestrutura de lazer.

Ao mesmo tempo, o caso reacendeu debates técnicos sobre dinâmica sedimentar, impacto nas correntes marinhas e os efeitos acumulados da verticalização intensa na orla, que alterou ventilação, incidência solar e pressão sobre serviços urbanos. 

Enquanto isso, cidades como Recife/PE e Santos/SP já discutem planos de adaptação que envolvem contenção costeira, revisão de ocupações e soluções baseadas na natureza, como recuperação de manguezais e parques lineares. Em vez de expandir território, muitas dessas estratégias buscam aumentar a resiliência do que já existe.

A experiência evidencia que intervenções costeiras não operam isoladamente, elas dialogam com o modelo de ocupação já existente e com a capacidade de gestão ambiental no médio e longo prazos.

Entre laboratório urbano e vitrine global

Ao reunir casos distintos, de Mareterra ao Aterro do Flamengo, passando pelas intervenções em Balneário Camboriú, é possível perceber que não há uma fórmula única para cidades costeiras. Algumas optam por expandir território com alta engenharia, outras priorizam requalificar frentes d’água já consolidadas ou investir em soluções baseadas na natureza para conter riscos climáticos.

Os exemplos que tendem a apresentar resultados mais duradouros compartilham alguns elementos: planejamento de longo prazo, integração entre infraestrutura e paisagem, monitoramento ambiental contínuo e clareza sobre a função social do novo espaço criado. Quando a intervenção dialoga com mobilidade, lazer, preservação ecológica e políticas urbanas mais amplas, o impacto costuma ultrapassar a escala da obra e se incorporar à dinâmica cotidiana da cidade.

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